Léxico: «twitteresfera»

Mais uma esfera

      «Em relação ao português, a Time escreve que “José Afonso Furtado é o Borges do Twitter”, comparando-o com o escritor argentino Jorge Luís Borges. “É um bibliotecário português que transporta a sua paixão não adulterada pelos livros e o universo editorial para a Twitteresfera”, acrescenta» («Bibliotecário português no top 50 do Twitter», Cláudia Carvalho, Público, 1.04.2011, p. 15).
      É a primeira vez que os meus olhos pousam em tal palavra. Twitteresfera. Aqui pelo menos não haverá hesitações, como aconteceu com bloguesfera/blogosfera. Ou sim: porque está grafada com maiúscula inicial?
      (Isto dos nomes próprios tem muito que se lhe diga, mas, em espanhol, Luis não tem acento, porque é monossilábico. Logo, Jorge Luis Borges.)

[Post 4640]

Léxico: «sobrepesca»

À sobreposse

      «Extinção foi na década de 1980, devido à sobrepesca, poluição e barragens» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).
      Talvez nenhum dicionário registe o vocábulo «sobrepesca». E seria necessário? Bem, tanto como sobrepreço, por exemplo, ou sobrepeso, ou... Ofereço a singela definição aos dicionaristas: «pesca além do que seria normal, ou em excesso».
      Então agora vejam como neste jornal, inconscientemente, se vai piscando o olho ao Acordo Ortográfico de 1990, apesar de ser um reduto contra a nova ortografia (e uma promessa para certo nicho de mercado): «Vivia no mar e, na altura da reprodução, subia os rios portugueses para desovar. As bacias do Douro e do Guadiana eram então a casa do Acipenser sturio, a espécie de esturjão que já existiu em Portugal. Era apanhado para ser comido, não para fazer das suas ovas a famosa conserva chamada caviar, explica a bióloga Fátima Gil, do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa. Mesmo assim, um dos seus nomes vulgares era peixedo-caviar. Chamavam-lhe também esturjão, esturgião, esturião, esturjão-real, peixe-cola, solho, solho-grande e solho-rei. Em Portugal, hoje está extinto na natureza. O último rio que visitou foi o Guadiana, na década de 1980» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).

[Post 4639]


Como se escreve nos jornais

Mas não sai

      Na redacção. Não são dos piores. Mas uma jornalista escreveu que «Nuno Alves Pereira levou a sua hoste para a Herdade dos Atoleiros, 2,5 km a sul de Fronteira». E, como escreveu duas vezes o nome daquela maneira, decerto que pensará que é assim mesmo. Nun’Álvares Pereira, vamos lá usar até o apóstrofo. Não são dos piores, mas a pontuação? Mais um estágio no Inferno. Ou no Paraíso?

[Post 4638]

«Acto contínuo»

E falhado

      «Talvez por ter ouvido a voz do dono ou por qualquer outra razão seguramente de intervenção divina, o certo é que o cavalo, acto imediato, deu um valente coice numa rocha. Para espanto de toda a comitiva real, a rocha cedeu e dela começou a brotar água» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 29.03.2011).
      Sempre ouvi, li, usei e confirmei agora mesmo — acto contínuo, isto é, em seguida, imediatamente; sem interrupção, continuamente. Só porque «contínuo» e «imediato» são parcialmente sinónimos não vamos agora substituir termos de uma locução fixa, não é? Como? Sim? Estão aqui a dizer-me que Lídia Jorge também usa, e não poucas vezes, esta expressão: «Acto imediato, a porta escancara-se sobre o hall, e a tia Gininha, carregando ao colo a bebé Artemisa, com os dois bracinhos levantados, surgiu do interior das paredes atapetadas» (O Vento Assobiando nas Gruas. Revisão tipográfica: Filipe Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2006, p. 428). Aqui, também faltou um revisor filológico. Para atingir a lábil imortalidade, António Lobo Antunes há muito que se muniu de um.
      O erro talvez tenha origem no cruzamento da expressão acto contínuo (imediatamente) com a expressão de imediato (imediatamente). Para confundir ainda mais, podíamos também falar da locução, agora caída em desuso, de contínuo.

[Post 4637]

«Grosso modo»

Grosserias

      «Daí também que a região onde os Mouros se estabeleceram tenha ficado conhecida como a região saloia. E apesar de não ser muito clara nem bem delimitada, esta zona abarca por tradição, e grosso modo, Mafra, Sintra e Loures» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 30.03.2011).
      A pronúncia da expressão latina grosso modo é a peculiar do latim: /gròsso mòdo/. Se Mafalda Lopes da Costa ou quem quer que seja pretender falar em português, usará, para dizer o mesmo, «aproximadamente», «mais coisa, menos coisa», etc. Bem sei que no Prontuário Sonoro se pronuncia como a jornalista o fez. Na desgraça é sempre bom não estarmos sós, dizem os egoístas.

[Post 4636]

Sobre «banal»

Purismo vs. pureza

      Revisão de uma tradução do inglês. Demasiados «banais» por aqui. Hum... O bom Vasco, como diz Montexto, terá dito algo sobre isto? Decerto, pois, ainda que tenha escrito menos do que Enid Blyton, por exemplo, ainda assim não escreveu pouco. «A expressão artística muito ganha com a pureza. Não, porém, com o purismo. Pureza é virtude. Purismo é doença. Se as palavras tiverem artes de hipnotizar a força vernácula, que se há-de fazer?
      Uma vez registei 7 palavras portuguesas para evitar banal. Note-se bem; para “evitar”. Não para expulsar. São elas: frívolo, fútil, correntio, corriqueiro, trivial, vulgar, usual. 7 palavras, 7 virtudes da nossa língua. Mas, se há 7 virtudes, também há 7 pecados, e há quem tenha 7 fôlegos. Por exemplo, o gato, e esta palavrinha banal, que não quer sair do nosso idioma» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 423).

[Post 4635]

«Ferida assanhada»

Todos juntos

      É sempre uma surpresa ver que há formas semelhantes de dizer as coisas em línguas diferentes, quase holismos. Seja isto: «There’s just one blister, but it’s very red and angry.» «É só uma bolha, mas é muito vermelha e assanhada.» Não está em todos os dicionários recentes, mas lá o encontramos no venerando Morais: «“Ferida assanhada”, feita peyor, mais dorida.» E no Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos de Osmar Barbosa (Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 70) também está registado no verbete «assanhado»: «Inflamado, agravado, exacerbado: Ferida assanhada.» Os diccionarios estam cada vez peyores...

[Post 4634]

Sobre «pallbearer», de novo

Assim será

      Decerto que ainda se lembram de aqui ter referido como traduzir o inglês pallbearer. Pois hoje surgiu-me traduzida como «carregador de caixão». É como diz Francisco Agarez: só uma locução.
      «Não se trata de gente POBRE ou MISERÁVEL, nem de carregadores de caixão de defunto...» (A Linguagem dos Esportes de Massa e a Gíria no Futebol, Luiz Cesar Saraiva Feijó. Rio de Janeiro: UERJ, 1994, p. 105). «A mãe do falecido, emocionada, convida-o para carregar o caixão (informação cultural: o pallbearer do título original é isso, carregador de caixão)» (Veja, 45-48, Abril de 1996, p. 51).

[Post 4633]

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