Ortografia: «cantábile»

Língua operática¹

      Vasco Graça Moura e João Botelho estrearam na semana passada uma ópera, Banksters, no São Carlos. Os excertos da ópera surpreenderam-me. Ópera em português! Disse a determinada altura João Botelho no programa Câmara Clara: «A língua portuguesa é cantábile.» Cantábile ou cantante, ou seja, próprio para canto. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista somente o substantivo «cantabile», movimento não tão lento como o adágio. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «cantabile» como adjectivo, é referente ao andamento menos lento que o adágio. Para os responsáveis destes dois dicionários: se registam «adágio» e não «adagio» para o trecho musical lento, porque não optam pelo aportuguesamento «cantábile»?

[Post 4624]



¹ Estive tentado a escrever «operística», mas temi que o revisor antibrasileiro me lesse. Lembram-se do «clubístico»?

Léxico: «neveiro»

Não só

      Quanto a dicionários, também podemos falar de novíssimos. Ora vejam: para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, «neveiro» é o «vendedor de sorvetes»! Mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não andou bem, apesar de registar que é o «fabricante ou vendedor de gelo ou sorvetes; sorveteiro». E a neve? Consultem o Aulete.
      «Desconhecido para a maioria dos portugueses, aquele engenho teve construção iniciada em 1741, destinado a fornecer gelo a Lisboa, a comerciantes e hospitais, e à casa real, apreciadora de gelados e bebidas frias, hábitos que terão sido introduzidos na corte por Filipe II. O empreendimento é atribuído a Trófimo Paillete, João Rosa e Pedro Francaleza, e era operado por dezenas de neveiros de Pragança, a localidade que lhe fica mais próxima, no concelho do Cadaval, não distante do Tejo e a cerca de 50 quilómetros de Lisboa» («A história do gelo que arrefecia Lisboa está pronta a ser contada», Carlos Filipe, Público, 28.03.2011, p. 21).

[Post 4623]

Sobre o símbolo #

Magna questão

      Na sua crónica de hoje no Público, Miguel Esteves Cardoso fala do símbolo #, que já aqui nos ocupou.
      «No Spectator datado de anteontem, Rory Sutherland divertia-se com a universalidade de gin tonic, compreensível em todos os bares do mundo, com os caprichos do símbolo #, que tem nome diferente em todas as línguas. Se puder, leia a coluna inteira: http://bit.ly/fctR14
      Senão, fique sabendo que R.S. apurou que em português dizemos “terminal”, “cardinal” ou “jogo-da-velha” — coisa que, adianta ele, significa “noughts and crosses”, mais conhecido em Portugal como o “jogo do galo”.
      Embora nunca tenha ouvido dizer “marque o número seguido de jogo-da-velha”, tenho de tirar o chapéu a quem assim chamou ao cruzamento de duas linhas horizontais com outras duas verticais. Acho até que jogo do galo, tal como arroba para o @, é a definição perfeita da disposição gráfica do caracter que se pretende» («Almofadinha cardinal», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.03.2011, p. 31).
      (Só um reparo: porque é que Miguel Esteves Cardoso, à semelhança de muitos outros, não pôs ponto final depois do URL, se encerra frase? Mais outro: porque é que Miguel Esteves Cardoso escreve «jogo-da-velha» mas «jogo do galo»? O Sr. Hífen continua a fazer das suas.)

 [Post 4622]

Como se escreve nos jornais

Escreve-se mal

      «As eleições nos estados federados de Estugarda e Mainz são a terceira e quarta de um superano eleitoral na Alemanha, que começou com Hamburgo (e uma pesada derrota da CDU) e que terminará em Berlim (onde se prevê um duelo entre SPD e Verdes). Estas eleições são importantes» («A quarta eleição do superano eleitoral», Maria João Guimarães, Público, 27.03.2011, p. 16).
      Não é à primeira — nem talvez à quarta — que o leitor desprevenido consegue atingir o estratosférico pensamento da jornalista. Primeiro pensei que fosse uma tentativa (frustrada, a avaliar pela dificuldade em interpretar) de aportuguesar um vocábulo alemão. Ah!, é o prefixo super + o substantivo ano. Ah... Parece uma charada. Soberano? Soprano? Gostava de saber o que José Queirós, o provedor do leitor do Público, diz desta palhaçada.

[Post 4621]

Linguagem

Contem-me coisas

      «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu porque havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 49). «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu por que havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Assírio & Alvim, p. 2001, p. 26). «Este burro de Gottenheld não deu por que havia mudança na vida, não soube ver que o seu caminho estava engolido pela água escura, e que o seu habitual itinerário não tinha agora sentido, nem ninguém o queria» (O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, Mário de Carvalho. Lisboa: Vega, 1982, p. 56).
      
[Post 4620]

Uso das aspas

Coma irreversível

      Vasco Pulido Valente será, como afirma Montexto, uma das penas mais bem aparadas do português moribundo de hoje, mas tem algumas manias difíceis de tolerar. Uma delas, e, a meu ver, a pior, é o uso inconsiderado de aspas. No fundo, é como se estivesse a dizer ao leitor que nenhuma daquelas são expressões que ele use. Muito estranho. Um exemplo da sua crónica de hoje, porém, vem demonstrar outro erro já aqui denunciado por mim em relação a outros autores: o uso de comas em sentidos secundários de certos vocábulos. Ei-lo: «O dinheiro não sobrava. Desde a escola que usei fatos virados do meu pai (que ficavam com as “casas”, cerzidas, do lado errado). Os sapatos só se mudavam depois de muitas meias solas. Como, antes do nylon, as camisas, depois de muitos colarinhos de substituição e de uma dezena de punhos novos» («Velhas contas», Vasco Pulido Valente, Público, 27.03.2011, p. 36).
      Para que são as aspas em «casas»? Imagino que, se tivesse usado o termo «botoeira», dispensaria as aspas... Ridículo. Que alguém lhe diga, por favor, conduzindo assim o homem à sua maior grandeza.

[Post 4619]

Tradução: «hey»

Heu!

      «‘Hey!’ said Jack, ‘why didn’t you speak English before? I’m English!» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 127). «— Eh! — exclamou. — Porque não falaste, [sic] inglês quando te encontrei? Eu sou inglês!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 120).
      Quantos tradutores portugueses saberão que «hei» é apenas forma verbal? Não muitos, a avaliar pela forma como vertem a interjeição inglesa hey. Não é improvável que o étimo de «hey» e de «eh» seja o mesmo, o latino eho. Se os tradutores se dessem ao trabalho de ler as obras revistas, por vezes aprendiam algo. Enfim, que se enxergassem. (A propósito, o verbete deste verbo precisa de uma profunda reformulação no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Não têm de quê.) Ainda na semana passada, li isto: «“Hey, Charlie,” Alex says, “this is my mom.”» Tradução? «— Hei, Charlie — diz o Alex —, esta é a minha mãe.»
[Post 4618]

«Formato/forma»

Agora é pior

      Tudo nos conduz à língua. À merenda, a minha filha perguntou-me por que motivo o pão, um cacete, tem a forma que apresenta. (Diariamente, sou atingido com larguíssimas dezenas de porquês.) Lembrei-me logo de Fr. Francisco de S. Luiz e do seu Glossario das Palavras e Frases da Lingua Franceza, que aqui citei ontem. A propósito de «formato», do francês format, vocábulo agora ainda mais na berra, escreveu: «Não sabemos a razão por que tão vulgarmente se tem adoptado este vocábulo para significar a forma ou a grandeza do papel em que está escrita ou impressa qualquer obra.» E concluía, naturalmente, que em português legítimo dizemos «forma».

[Post 4617]


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