«Flash-mob», de novo

Obrigadinho

      Hoje, Luís Naves já explica o anglicismo flash-mob: «As manifestações usaram a ironia, incluíram flash-mob (mobilizações instantâneas através de telemóvel) e, em Gent, até uma acção de nudez colectiva, apesar do frio intenso» («Batatas fritas pela unidade belga», Luís Naves, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 27). Muito bem, já que não quer abrir mão do anglicismo. Possível tradução: olhe, essa: mobilização instantânea.

[Post 4452]

Acordo Ortográfico

Debaixo do fígado

      Ora vejam: segundo a Base XVI, n.º 1, a), do AO90, o hífen usar-se-á nas formações em que o segundo elemento começa por h. Dois exemplos: anti-higiénico e sub-hepático. Muito bem... A quem devemos agradecer? Mostraram-me um daqueles esquemas bem-intencionados como era/como fica. A propósito dos prefixos terminados em b, lê-se: subepático (como era) e sub-hepático (como fica). Para mim, era certo e além de toda a dúvida que se escreve «sub-hepático». Consulto o Dicionário Houaiss: «subepático»! Aqui sim, ronda o fantasma do retorno da grafia sobre a fonia. Volto três vezes (como o mostrengo que está no fim do mar) ao dicionário: os meus olhos vão da página 3396 para a página 3397. Na primeira está «subepático», na segunda, nada: entre «subgrupo» e «sub-humanidade», o vazio interlinear. Quem praticou esta aleivosia? Consulto, desesperado, a versão electrónica daquele dicionário, que regista «sub-hepático» e, como variante, «subepático». Ah, bem.

[Post 4451]


Tradução: «tote bag»

Imagem tirada daqui

Vejamos

      Há alguma diferença, algum matiz, entre saco para as compras e saco das compras? Na definição do Lextec, saco de (ou das) compras é o «saco de plástico com duas pegas usado para transportar bens consumíveis adquiridos em estabelecimentos comerciais, tipicamente de plástico e com o logótipo do estabelecimento comercial visitado». Ando aqui às voltas com a tradução de tote bag. É um saco como o da imagem. Ora, é muitas vezes designado saco para as compras. Traduzimos apenas como «saco», sem mais? Alguém dirá que não é nariz de santo, mas a verdade é que é frustrante não encontrar uma palavra ou expressão que dê a ideia precisa do objecto. Helena, que diz?

[Post 4450]

«Palavra de ordem», de novo

Mesmo entoada

      Muito bem: palavra de ordem vem do francês mot d’ordre e, já que não vivemos sem a expressão (lema ou divisa traduzirão bem a ideia contida na locução francesa?), pelo menos que se use adequadamente: «Estava marcada para se iniciar hoje a campanha “os dias da raiva”, movimento de contestação ao regime de Muammar Kadhafi, mas começou já ontem com milhares de líbios a saírem às ruas de Bengasi, entoando palavras de ordem que deixam pouco espaço para dúvidas sobre o sentimento popular neste país do Magrebe» («Começam ‘os dias da raiva’ contra o regime de Kadhafi», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 25). E lá está o gerúndio, como aqui...

[Post 4449]

Como se escreve nos jornais

Caça à baleia

      No âmbito da moratória à caça à baleia, decidida na década de 1980 pela Comissão Baleeira Internacional (CBI), o Japão beneficia de uma excepção. Lê-se num artigo da edição de hoje do Diário de Notícias: «Outro meio de contornar a moratória é a declaração de objecção, que o Japão também professa» («Baleeiro japonês regressa a casa», Filomena Naves, Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 32).
      As declarações fazem-se ou professam-se? Uma das primeiras acepções de professar, reconhecer ou confessar publicamente, não se adequa ao contexto. Nem nenhuma das outras cinco ou seis que, como verbo transitivo, professar tem. Podia alguém porfiar em que a acepção exercer, praticar se aplica com propriedade. Não me parece. Redacção alternativa, que recomendo mesmo a jornalistas professos: «Outro meio de contornar a moratória é a declaração de objecção, a que o Japão também recorreu.»
      (Relacionado com baleias, neste blogue, ver: 1, 2, 3, 4, 5.)


[Post 4448]

Como se escreve nos jornais

Uma maneira de dizer

      Mais um obituário não assinado no Diário de Notícias. Morreu o chefe (o DN continua a preferir-lhe o galicismo chef, mas no título usou o despretensioso termo «cozinheiro») catalão Santi Santamaría. «O cozinheiro foi ainda autor de algumas polémicas, muito devido à rivalidade com outro chef catalão, Ferran Adrià» («O cozinheiro catalão das sete estrelas Michelin», Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 47).
      «Autor de polémicas» é uma maneira de dizer, talvez inadequada. Se tivesse gostado de contar anedotas, chamá-lo-íamos porventura «autor de anedotas»? Fazia afirmações polémicas (ou só provocadoras: «A boa cozinha defeca-se.»), gostava de travar polémicas, de polemicar.

[Post 4447]

Cores

Mais luz

      «É real o risco de os vibrantes girassóis de Van Gogh, e de os seus lírios intensos na paisagem de Arles, perderem o brilho de amarelo eléctrico que ele lhes imprimiu. Isso é uma preocupação para os curadores dos museus que albergam as obras do pintor oitocentista, o que levou um grupo deles a promover uma investigação sobre o problema. O resultado mostra que os ultravioletas na luz do sol, ao alterarem o crómio que entra na composição do pigmento amarelo usado por aquele pintor, são os culpados do que está a acontecer» («Amarelos de Van Gogh estão a perder o brilho», Filomena Naves, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 35).
      Há ali uma figura de estilo, naqueles «vibrantes girassóis». Vibrante será a cor. E, de feito, mais à frente, lê-se «amarelo vibrante». E é amarelo-eléctrico, claro. E luz do Sol.

[Post 4446]

«Flash-mob»

Está mal

      «A data será passada em festa, com música, bancas de batatas fritas e flash-mob. A ideia é protestar contra o excesso de nacionalismo e contra os oito meses de mediações falhadas» («Revolta das batatas fritas contesta políticos belgas», Luís Naves, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 28).
      Como já uma vez explicaram, neste mesmo jornal, o anglicismo, os jornalistas sentem-se desobrigados de repetir. «São», escreveram, «aglomerações instantâneas de pessoas que combinaram previamente (geralmente por e-mail ou SMS) uma acção inesperada num local público.»

[Post 4445]

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