Sobre «epistolário»

É impressão

      Outra vez o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo. Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), disse no seu depoimento: «Posso dizer que Leite de Vasconcelos é o maior epistolário português conhecido. […] São milhares de correspondentes e mais de duas dezenas de milhares de cartas e cartões, etc.» Há-de parecer lapso, mas não é. Além de compilação, colecção de epístolas, epistolário também significa epistológrafo. Se quisermos apoucar o feito, dizemos epistoleiro.

[Post 4444]

Ortografia: «softebol»

Então não

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «softball» ⇒ e remete para «softbol». Ora, se football deu futebol, softball dará softebol, ou não? Se há um e epentético num vocábulo, terá de haver no outro.

[Post 4443]

Como se escreve nos jornais

Mexerufada

      «A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
      No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.

[Post 4442]

Léxico: «quebrança»

Compare-se

      Continua o mesmo Paulo Fernando a falar: «Era meio-dia. Tinham acabado de mudar o turno. Uma tripulação foi substituída por outra ali no cais da praia da Laje. Depois seguiram no bote para a zona da Pedra. Eu tinha ido tomar um café quando de repente vi a embarcação na quebrança das ondas e a ser levado. O barco tinha-se virado» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Quebrança, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ruído das ondas ao quebrarem-se nos rochedos». Hum... Para o Dicionário Houaiss, é o «choque de ondas contra rochedos».

[Post 4441]

Léxico: «banzeiro»

Ainda na Madeira

      «“Entrar neste mar é um suicídio. É traiçoeiro. Não há qualquer hipótese de encontrar com vida as duas raparigas que foram arrastadas na segunda-feira, este é um mar ‘banzeiro’, parece que ao longe está calmo mas, de repente, rebentam as ondas enormes junto à costa”, diz ao DN, [sic] Paulo Fernando, que viu o desastre dos socorristas e ajudou a trazer para terra o que acabou por falecer» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Cara Lília Bernardes, qual a utilidade das aspas em «banzeiro»? Banzeiro, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «(mar) pouco agitado». Para o Dicionário Houaiss, «forte, agitado vagarosamente (diz-se de mar), com tempo bom e ondas que não encapelam».

[Post 4440]

Acordo Ortográfico

Magna questão

      No laboratório. Apareceram umas almas aflitas, porque não sabem se Timor-Leste continuará, no âmbito das novas regras ortográficas, a escrever-se com hífen. A regra manda hifenizar os topónimos compostos iniciados pelos adjectivos «grã», «grão» ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo. Exemplos: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes. Os outros topónimos compostos, lê-se numa observação, escrevem-se com os elementos separados, sem hífen. «O topónimo/topônimo Guiné-Bissau é, contudo, uma exceção consagrada pelo uso», acrescenta-se. Foi a isto que as sobreditas almas aflitas se agarraram.
      Ora bem, tanto quanto me lembro, a única referência a Timor-Leste, em relação a esta matéria, encontra-se no Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (e na própria resolução que o aprovou), e a grafia do topónimo surge com hífen. Contudo, isso é manifestamente insuficiente para tirarmos uma conclusão cabal, como seria fácil de demonstrar. Decisivo, a meu ver, é estar no Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), não como entrada lexical mas fazendo parte da definição de «timorense». Não precisamos de mais. Ou não precisa de mais quem é professor, porque este VOP foi adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011.
      Voltando à observação do n.º 2 da Base XV: com a redacção que tem, não me parece que exclua outras excepções (que as há).

[Post 4439]

Como se fala na rádio

Com olhos de ver

      aqui tínhamos visto que devemos usar a locução à vista desarmada em vez de a olho nu. Agora, temos algo de novo.
      Naufrágio de uma embarcação do Sanas — Associação Madeirense de Socorro no Mar. Um morto e um ferido. A repórter da Antena 1 Helma Vieira explicou tudo: «O segundo, felizmente, e pelo que foi visto, não posso confirmar a gravidade dos ferimentos, mas mexia, o corpo não apresentava grandes mazelas, pelo menos a olho visto, e neste momento encontra-se hospitalizado.» A repórter fez confusão com outra locução semelhante: a olhos vistos, isto é, de forma clara, evidente, manifesta. No contexto, talvez devesse ter dito «à primeira vista».

[Post 4438]

Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui
Não têm pena

      Patrícia Viegas, do Diário de Notícias, entrevistou Paola D’Agostino, tradutora, escritora e professora de Italiano que vive em Portugal desde o ano 2000, isto porque a «escritora integrou a manif anti-Berlusconi». A determinada pergunta, Paola respondeu: «Falo das raparigas envolvidas nos escândalos e a quem são feitas por vezes promessas que ninguém chega a cumprir. Elas oferecem o seu corpo e algumas são ministras e deputadas no Parlamento. Mara Carfagna, que também já foi velina, é agora ministra da Igualdade de Oportunidades — que é um ministério que merecia mais dignidade» («“Italianos perceberam que havia um proxenetismo de Estado”», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 56).
      Cara Patrícia Viegas, por acaso não se esqueceu de perguntar o que significa «velina»? Assim, sem qualquer explicação (e olhando para a fotografia da senhora ministra), começamos a formar no espírito uma certa ideia. Contudo, no Il Sabatini Coletti, lemos que «velina» é a «valletta di trasmissione televisiva che parodia i telegiornali». As vallettas italianas não são, como as nossas, coisas sujas, antes raparigas atraentes que servem de ajudantes do apresentador de um programa televisivo. (Quanto a «bunga-bunga», dispensamos esclarecimentos. É o nosso, não dicionarizado, «truca-truca».)
      Temi o pior, até porque já tinha ficado espantado com um cartaz na tal manif em que se podia ler «Berluscona». É que os manifestantes, todos com cara de italianos, já passaram por um processo de aculturação...

[Post 4437]

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