Tradução: «wadding»

Na bucha


      Lia-se no original: «While pellets may disperse, the shotgun wadding will continue on its trajectory, in straight line.» Na tradução, podia ler-se: «Os chumbos podem dispersar, mas a bucha da arma seguirá a sua trajectória, em linha recta.» «Bucha»? O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, de facto, regista: «(armas de fogo) buchas». Cartucho? Cápsula?

[Post 4396]

«Luso-descendente»

Afinal, mudam

      Parece então que o Diário de Notícias passou a escrever «luso-descendente». Parabéns. «Luso-descendente Ronald DePinho conseguiu rejuvenescer grupo de ratos» («Descoberta a ‘nascente’ da fonte da juventude», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 4.02.2011, p. 35). «Para lá do percurso natural do processo, este procurador luso-descendente [Tony Castro] levanta o véu sobre a provável estratégia de David Touger: “O advogado de defesa deve continuar a adquirir toda a informação sobre Carlos Castro para ver se consegue descobrir algo sobre a personalidade dele, no sentido de explicar como era antes de suceder o crime”» («Advogado de defesa vai investigar personalidade de Carlos Castro», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 4.02.2011, p. 58).
[Post 4395]

Regência verbal

Disposto em forma de cruz


      «Foi isso, e só isso, que aconteceu: assaltos de gente armada contra gente armada. Os assaltos foram gorados, em todos ficaram mortos mais assaltantes que assaltados. Aqueles homens passaram pelas lojas de dezenas de comerciantes brancos indefesos e não os molestaram, terão cruzado mais civis portugueses como o meu pai e nada lhes fizeram» («Os heróis do 4 de Fevereiro», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.02.2011, p. 64).
      No sentido de deparar, encontrar-se a regência não é cruzar(-se) com?

[Post 4394]

Tradução: «bailiff»

Diacronismo: antigo


      A história passa-se já no século XXI. «“Where is he?” Art asked the bailiff.» O tradutor quis que fosse: «— Onde está ele? — perguntou Art ao meirinho.» Terá o tradutor notícia de que já ninguém meirinha por esta altura? Sim, já por aqui passou este erro.

[Post 4393]

Sobre «etapa»

No estaleiro


      «O Podre levantou-se do banco do jardim no momento em que a avó e a Sissi se aproximavam, seguidas pelo pai, a mãe, a Eva e o Luís. Tinham ido todos dar uma volta para se prepararem para a etapa seguinte da viagem» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., p. 28).
      Fala Agostinho de Campos: «Uma das palavras mencionadas na conferência radiofónica de há dias é o inutilíssimo galicismo étape. Este vocábulo aparece-nos por aí, umas vezes escrito ou pronunciado à francesa (étape), outras vezes já semiaportuguesado sob as formas étapa e itapa. Qualquer delas é um mostrengo que lembra fora de todo o propósito o nosso verbo tapar.
      Esse termo francês é de origem germânica. Vem da palavra stapel, que no holandês ou no baixo-alemão significava armazém ou depósito e ainda hoje subsiste no alemão corrente e literário com o sentido de estaleiro. Veja-se por isto a quantidade de caminhadas (eles diriam: de itapas) que a palavra andou para chegar à estação actual (isto é, segundo eles, à itapa actual)» («O nacionalismo ainda não nos chegou à Língua», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 55-56).

[Post 4392]

Siglas: «SMS»

Uma mensagem


      «Os primeiros confrontos começaram horas antes, pouco depois do meio-dia, quando centenas de apoiantes de Mubarak, mobilizados por sms, começaram a invadir as periferias da praça. Muitos empunhavam fotografias do Presidente, alguns agitavam a bandeira egípcia, mas todos tinham um só objectivo: tentar chegar à praça pelo acesso junto ao Museu Egípcio, onde o exército mantém vários tanques de guerra com uma guarnição mínima de militares» («Ódio entre rivais semeia o caos», Alfredo Leite, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 4).
      Os jornais estão a deixar de grafar as siglas em maiúsculas, como é de regra: SMS.
      É este um tempo de siglas, de acrónimos, de estrangeirismos — mas, pelo menos, que se escrevam correctamente. Lembremos o que escreveu Agostinho de Campos: «Anglo-saxões passam por muito práticos, Franceses por muito espertos; e certos portuguesinhos valentes têm um fraco fortíssimo por esta supergente diante dela e desatam a copiar com veneração e humildade quanto ela faz e diz, principalmente o que diz, que é o mais fácil de imitar, como bem se vê pela observação da fala de criancinhas e papagaios» («Doenças da língua: a simplificação complicada», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 293-94).

[Post 4391]

Tradução: «virtually»

Não há dúvida


      «Segundo o responsável pela gestão de catástrofes do estado, “as pessoas vão estar virtualmente isoladas durante algum tempo”. Ian Stewart disse que as equipas de emergência podem não ter hipótese de responder a chamadas durante o pico do ciclone» («Depois das cheias, ciclone atinge estado australiano de Queensland», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 26).
      Ian Stewart disse: «People are going to be virtually isolated for some time.» Mal traduzido, fica «virtualmente».

[Post 4390]

«Dispensa/despensa»

Tão simples


      «Recolhidas em suas casas com as janelas e portas entaipadas, sacos de areia à porta e as dispensas repletas de alimentos e água potável, as populações costeiras do Nordeste australiano enfrentaram ontem a chegada do ciclone Yasi» («Depois das cheias, ciclone atinge estado australiano de Queensland», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 26).
      Como é que uma jornalista não está atenta e deixa passar um parónimo? Repletas de alimentos e água potável, só as despensasdivisão da casa, armário ou construção separada em que ficam os mantimentos, as provisões alimentares de uso doméstico e objectos ligados à manutenção dos moradores da casa (como se lê no Dicionário Houaiss). Dispensa é a licença, permissão para não executar um dever, um trabalho.

[Post 4389]

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