Léxico: «bipé»

Metralhadora MG34 montada no bipé.
Imagem tirada daqui

Não só


      «Ainda de acordo com aquela força policial, a referida metralhadora apreendida encontra-se em estado novo e dispunha de um bipé. Em termos históricos, a MG34 foi usada na Segunda Guerra Mundial como arma de defesa contra tanques e aviões» («Metralhadora rara apreendida em bairro», Público, 19.01.2011, p. 22).
      Nunca tinha visto esta palavra fora dos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está registada: «MILITAR órgão de apoio para o tiro de certas armas de infantaria, constituído por duas pernas em ângulo, que, por meio de uma braçadeira, se ligam à parte anterior do cano.» Mas não está correcto: é especialmente este apoio de certas armas, mas não só: aplica-se a todo o tipo de apoio semelhante.
      Tripé, bipé... Unipé? Não, por acaso não: se precisarmos de o dizer, só temos o vocábulo unípede. É pena.

[Post 4348]

Sobre «imolar-se»

E outros amolam-se


      Vítor Rodrigues Oliveira, no noticiário das 3 da tarde na Antena 1: «Mais duas pessoas imolaram-se em fogo no Norte de África. Uma pessoa no Centro de Marrocos e outra no Saara Ocidental, onde se reivindica a separação do Estado marroquino.» Como quem diz «afogado em leite». Para os Romanos, imolar-se (immolāre) era sacrificar-se a qualquer divindade. O sentido moderno e o que se infere do texto é o de pôr termo à vida, como expiação ou protesto. Podemos imolar-nos pelo fogo, ou seja, podemos sacrificar-nos por meio do fogo, recorrendo ao fogo.

[Post 4347]

Sobre «reporte»

Dispensamos


      A EPAL julgava estar acima da lei. Hoje, José Manuel Zenha, secretário-geral da empresa, veio explicar: «Dos restantes, ao nível das chefias hierárquicas, nomeadamente, e é isso que de certa maneira a comissão de trabalhadores refere, ao nível das chefias hierárquicas, apenas foram abrangidas duas chefias hierárquicas, e nenhuma delas de 1.º nível de reporte. Foi uma do 2.º nível de reporte e outra do 3.º nível de reporte.»
      Pode ser apenas um derivado regressivo do verbo reportar, e por isso sem qualquer influência do inglês, mas ainda não está dicionarizado nesta acepção. Aliás, o verbo reportar também anda mal definido nos dicionários. Pelo menos no excerto das declarações daquele responsável da EPAL, não faz falta nenhuma.

[Post 4346]

Como se escreve nos jornais

Parabéns

      Luciana Abreu e Yannick Djaló pensaram, pensaram, pensaram, pensaram... e o nome do bebé saiu, escorreito e portuguesíssimo: Lyonce Viiktórya. Apesar de toda a incompetência e ignorância que já vi em conservatórias do registo civil, palpita-me que o nome não vai ser admitido. Ah, mas não era disto que eu queria falar. Disto, sim: «Muitas vezes obrigando a correrias loucas em direcção a todos os pontos cardeais e colaterais, especialmente por a máquina de campanha ser um somatório de boas vontades e de amadorismo, a campanha que hoje termina foi diferente. Ou tentaram fazer que o fosse. Pela postura, pelo rótulo de “candidatura da cidadania”, pelo ênfase dado às propostas, em detrimento dos ataques e contra-ataques entre candidaturas, que tornam o debate político essencialmente pobre», Pedro Olavo Simões, Diário de Notícias, 21.01.2011, p. 10).
      Um dia, os jornalistas ainda saberão que o vocábulo «ênfase» é do género feminino. Entretanto, nem tudo é de rejeitar. Vejam esta frase, por exemplo: «Ou tentaram fazer que o fosse.» Em cada mil jornalistas, 999 escreveriam assim: «Ou tentaram fazer com que o fosse.»

[Post 4345]

Como se escreve nos jornais

Lendário


      «“Enquanto houver um ponto de conecção e entendimento, acho que é possível fazermos coisas juntos”, constata, referindo-se aos dois DJs. “Todas as pessoas que vêm aqui são pessoas com as quais tenho algo em comum e com quem fico contente só por poder juntar estas pessoas”» («‘Homem-Tigre e seus amigos nos Coliseus», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 53).
      O Homem-Tigre é que falou — mas os erros são todos do jornalista. (Claro que a segunda frase não saiu nada escorreita.) Ou serão de algum revisor? Ele há erros e erros, aquele, «conecção», é de cair para o lado.

[Post 4344]

Linguagem

Mas agora morreu


      Morreu o escritor francês Jean Dutourd. A edição de ontem do Diário de Notícias lembrou o homem (grande homem) no seu obituário e, entre o que quero realçar, está isto: «As controversas opiniões a favor dos sérvios da Bósnia, durante o conflito na ex-Jugoslávia, e contra a feminização dos nomes nos anos 90, valeram-lhe muitas críticas» («Um escritor inconformado e homem de causas», Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 49). É isso que se pode ler aqui e ali, «farouchement opposé à la féminisation des noms de métiers». Dar-se-ia bem com a nossa «presidenta»…

[Post 4343]

«Entre o senhor e mim»

Delírios


      Fernando Nobre já desafia Cavaco: «A partir de agora, é entre o senhor e eu» («Providencialismo e tragédia de um Nobre exaltado», Pedro Olavo Simões, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 20).
      Milhões de portugueses falam da mesma maneira, mesmo sem estarem exaltados. Duarte Nunes de Leão, que conhecia bem a língua, escreveu na Crónica d’el-rei D. Afonso: «Entre o Senhor Rei de Portugal e mi,...» E Filinto também escreveu: «Entre ela e mim vou pôr de encontro imensos mares.» E já que falo nisto, ocorre uma questão paralela. Como se deve dizer: «Eu, se fosse a ti...» ou «Se eu fosse tu...»? Camilo escreveu desta última forma.

[Post 4342]

Sintaxe: «valer a pena»

Na volta do correio


      «O mundo dos livros, depois da Amazon (e da maravilhosa Book Depository, que não cobra o correio), passou a ser uma imensidão com muito mais livros, mas muito menos livros (que nunca foram muitos) que valem a pena ler» («O mundo dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.01.2011, p. 41).
      O que é que vale a pena — os livros ou ler? E eu preferia que a maravilhosa Book Depository não cobrasse os portes.

[Post 4342]

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