«Aquando da», de novo

Esforcem-se um pouco


      Pode ler-se aqui que, «aquando da sua apresentação pessoal à presidência que havia tomado posse», etc. Nem à mão de Deus-Padre devemos escrever assim. Já aqui falámos noutras ocasiões desta malfadada locução prepositiva. Apesar de usada por alguns, poucos, escritores, já aqui o afirmei, e de estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, é de evitar. Epifânio preveniu que há barbarismo tanto na construção «quando da» como em «aquando da», mas que era requintado nesta última. Para ser correcta, a frase em cima havia de construir-se assim: «Quando foi a sua apresentação pessoal à presidência que havia tomado posse», etc. Augusto Moreno vê influência e má adaptação do francês lors de. Depois de se ter começado a admitir o uso de quando foi da, que se abreviou em quando da, em algum momento infeliz se chegou à construção abstrusa aquando da. Que caiu no goto de muita gente, incluindo revisores.

[Post 4341]

Léxico: «desligamento»

Eu não disse?


      Já aqui referi uma vez a hesitação dos falantes no momento de usarem um substantivo em –mento. Na série de entrevistas e debates relacionados com as presidenciais conduzidos por Maria Flor Pedroso na Antena 1, hoje estavam em estúdio Nilton, Jacinto Lucas Pires e Miguel Tiago. Sobre a indiferença dos jovens em relação a estas eleições, Jacinto Lucas Pires, que é escritor, disse: «Eu acho que há uma... um desl... uma... Ia inventar uma palavra, um “desligamento” [risos], mas que é um pouco permanente, e que tem a ver com as pessoas não se sentirem parte da política.» Não inventaria nada, já existe. Afoitamente: desligamento.

[Post 4340]

«Se» apassivante

Das que são vistas


      «Dois reclusos não o eram tanto como se pensava. Estavam numa carrinha celular à porta do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, ambos com algemas. Estas pareciam — duas argolas, aço — das que se vê nos filmes, um tipo preso às barras da cama, ela aproveitando-se para se ir embora com a carteira dele, ele desesperado e impotente, sem poder desprender-se das tais algemas. As dos dois citados reclusos pareciam destas mas não eram.» («Entretanto, no dia-a-dia», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 64).
      Prefiro a construção em que o se é partícula apassivante, levando o verbo para o plural, a concordar com o sujeito: «das que se vêem nos filmes»/«das que são vistas nos filmes».

[Post 4339]

Pronomes pessoais enclíticos

Muito tino


      Mesmo nos clássicos, já aqui se viu, nem tudo é para imitar. Em Filinto, por exemplo, vê-se o particípio passado com pronomes pessoais enclíticos: «Tinha eu feito o retrato do meu amigo e metido-o numa bocetinha.» Veio-me agora à memória esta precaução, já no fim do dia, quando ouvi a minha filha usar uma construção semelhante.

[Post 4338]

Léxico: «tigré»

Idioma etiópico


      Retomando questões antigas. Aqui, lamentava que os dicionários da língua portuguesa não registassem os vocábulos amarinha, gumuzinha, orominha, somalinha, tigrinha, todos eles nomes de dialectos etíopes. Ora, a verdade é que há na língua portuguesa, e desde há muito, o substantivo (e adjectivo) tigré. «Diz-se de ou língua do ramo etíope da família de línguas camito-semíticas, falada na Etiópia», regista o Dicionário Houaiss.
      (O padre José Vieira, missionário comboniano, é actualmente a melhor fonte da imprensa portuguesa sobre a situação no Sul do Sudão, pois está a missionar em Juba.)

[Post 4337]

«É assunto para esclarecer»

Vamos esclarecer


      Uma leitora pergunta-me se se deve dizer «é um assunto a esclarecer» ou «é um assunto para esclarecer». De nenhuma das maneiras — se quisermos ser rigorosos. Lembrei-me que Augusto Moreno tratou da questão nas suas Lições de Linguagem, Vol. 1 (Porto: Editora Educação Nacional, 1937, pp. 140—41). «É afrancesada a sintaxe com a preposição a. Em vernáculo: “É assunto para esclarecer”, ou: “É assunto que deve (ou precisa) ser esclarecido”. Com o verbo precisar, os clássicos também diziam: “É assunto que precisa esclarecido”, sem o verbo ser. — Note a supressão do artigo indefinido um, com que modernamente muito se afrancesam as construções.»
      (Augusto Moreno, sabiam?, foi revisor literário na Figueirinhas. Nessa altura, ainda não havia revisores filológicos...)

[Post 4336]

Léxico

O caso das algemas


      Paulo Flor, porta-voz da PSP, à Antena 1: «Nos últimos anos, aquilo [de] que nós temos conhecimento, das milhares de detenções que são feitas por ano, é que a PSP nunca teve nenhum problema relativamente à algemagem de elementos detidos, a elementos perigosos. De facto, sempre utilizamos algemas neste caso, é uma medida cautelar de polícia, que tem surtido o efeito desejado e que tem permitido manter em detenção e em segurança quer os detidos quer os detentores, no caso concreto, os elementos policiais.»
      Cá está um vocábulo que qualquer polícia conhece e eu desconhecia até hoje. Não está registado nos dicionários, não, mas na sua formação ninguém erra: basta ligar o verbo da 1.ª conjugação ao sufixo (do francês? Do provençal?) –agem, formador de substantivos de base verbal ou nominal.

[Post 4335]

Léxico: «jaleco»

Imagem tirada daqui

Oh, senhora jornalista!...


      Chama-se Programa 100 % e é uma iniciativa dos ministérios da Educação e da Saúde e tem o apoio da Associação de Cozinheiros de Portugal (ACPP). O objectivo é servir refeições mais saudáveis nas escolas. Hoje, na Antena 1, falava-se do programa e a jornalista afirmava que, para cativar os cozinheiros das escolas, lhes eram oferecidos jalecos. E explicava o que eram jalecos: «aventais dos cozinheiros». Nada disso: jaleco é o que se vê na imagem. Também se vêem de meia-manga. Aliás, habitualmente dá-se-lhes o nome de «jalecas». Agora os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de jaleca diz que é um «casaco curto, sem abas, que só chega à cintura; jaqueta» e de jaleco que é a «peça de vestuário semelhante a casaco curto que apenas chega à cintura; fardeta». «Jaleco» veio-nos (mais uma) do espanhol; jaleca vem de «jaleco», com alteração da vogal temática, como sucede com tantos outros vocábulos da nossa língua. Ao barrete dos cozinheiros, os Brasileiros chamam bibico («dois bicos ou pontas»).

[Post 4334]

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