Pronomes pessoais enclíticos

Muito tino


      Mesmo nos clássicos, já aqui se viu, nem tudo é para imitar. Em Filinto, por exemplo, vê-se o particípio passado com pronomes pessoais enclíticos: «Tinha eu feito o retrato do meu amigo e metido-o numa bocetinha.» Veio-me agora à memória esta precaução, já no fim do dia, quando ouvi a minha filha usar uma construção semelhante.

[Post 4338]

Léxico: «tigré»

Idioma etiópico


      Retomando questões antigas. Aqui, lamentava que os dicionários da língua portuguesa não registassem os vocábulos amarinha, gumuzinha, orominha, somalinha, tigrinha, todos eles nomes de dialectos etíopes. Ora, a verdade é que há na língua portuguesa, e desde há muito, o substantivo (e adjectivo) tigré. «Diz-se de ou língua do ramo etíope da família de línguas camito-semíticas, falada na Etiópia», regista o Dicionário Houaiss.
      (O padre José Vieira, missionário comboniano, é actualmente a melhor fonte da imprensa portuguesa sobre a situação no Sul do Sudão, pois está a missionar em Juba.)

[Post 4337]

«É assunto para esclarecer»

Vamos esclarecer


      Uma leitora pergunta-me se se deve dizer «é um assunto a esclarecer» ou «é um assunto para esclarecer». De nenhuma das maneiras — se quisermos ser rigorosos. Lembrei-me que Augusto Moreno tratou da questão nas suas Lições de Linguagem, Vol. 1 (Porto: Editora Educação Nacional, 1937, pp. 140—41). «É afrancesada a sintaxe com a preposição a. Em vernáculo: “É assunto para esclarecer”, ou: “É assunto que deve (ou precisa) ser esclarecido”. Com o verbo precisar, os clássicos também diziam: “É assunto que precisa esclarecido”, sem o verbo ser. — Note a supressão do artigo indefinido um, com que modernamente muito se afrancesam as construções.»
      (Augusto Moreno, sabiam?, foi revisor literário na Figueirinhas. Nessa altura, ainda não havia revisores filológicos...)

[Post 4336]

Léxico

O caso das algemas


      Paulo Flor, porta-voz da PSP, à Antena 1: «Nos últimos anos, aquilo [de] que nós temos conhecimento, das milhares de detenções que são feitas por ano, é que a PSP nunca teve nenhum problema relativamente à algemagem de elementos detidos, a elementos perigosos. De facto, sempre utilizamos algemas neste caso, é uma medida cautelar de polícia, que tem surtido o efeito desejado e que tem permitido manter em detenção e em segurança quer os detidos quer os detentores, no caso concreto, os elementos policiais.»
      Cá está um vocábulo que qualquer polícia conhece e eu desconhecia até hoje. Não está registado nos dicionários, não, mas na sua formação ninguém erra: basta ligar o verbo da 1.ª conjugação ao sufixo (do francês? Do provençal?) –agem, formador de substantivos de base verbal ou nominal.

[Post 4335]

Léxico: «jaleco»

Imagem tirada daqui

Oh, senhora jornalista!...


      Chama-se Programa 100 % e é uma iniciativa dos ministérios da Educação e da Saúde e tem o apoio da Associação de Cozinheiros de Portugal (ACPP). O objectivo é servir refeições mais saudáveis nas escolas. Hoje, na Antena 1, falava-se do programa e a jornalista afirmava que, para cativar os cozinheiros das escolas, lhes eram oferecidos jalecos. E explicava o que eram jalecos: «aventais dos cozinheiros». Nada disso: jaleco é o que se vê na imagem. Também se vêem de meia-manga. Aliás, habitualmente dá-se-lhes o nome de «jalecas». Agora os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de jaleca diz que é um «casaco curto, sem abas, que só chega à cintura; jaqueta» e de jaleco que é a «peça de vestuário semelhante a casaco curto que apenas chega à cintura; fardeta». «Jaleco» veio-nos (mais uma) do espanhol; jaleca vem de «jaleco», com alteração da vogal temática, como sucede com tantos outros vocábulos da nossa língua. Ao barrete dos cozinheiros, os Brasileiros chamam bibico («dois bicos ou pontas»).

[Post 4334]

Notas de rodapé

Radiotransmissor


      Em 2010, disse-me, orgulhoso, leu mais de duzentos livros policiais. E eu acredito: pelo menos todas as tardes ali está no jardim, ao sol, agora de Inverno, e só levanta a cabeça quando alguma criança dá um gritinho mais agudo. Este ano já está nos livros de guerra e espionagem. Hoje estava a ler Massacre na Normandia, de Matthew Holden, com tradução de Manuel Eduardo dos Santos (Mem Martins: Europa-América, [1984?]). «Veja», disse-me. «O livrinho tem menos de 130 páginas e só uma nota de rodapé, e a menos necessária: à abreviatura RAF, na página 8. Na mesmíssima página em que aparece um misterioso “R/T”. E que raio é isto, “R/T”?» Não terá escolhido o melhor exemplo, mas o reparo nem por isso é injusto: os nossos editores não gostam de notas de rodapé. Nem de muitas nem de poucas. Os leitores não são da mesma opinião.

[Post 4333]

Léxico: «hostel»

Só podemos adivinhar


      «As sete colinas definem os conceitos. Cada um deles é alusivo a um elemento característico de Lisboa: o eléctrico, o candeeiro verde, a Ponte 25 de Abril, a sardinha, o Santo António, a guitarra portuguesa e o beirado das janelas. A partir daí, nascem os graus de separação deste hostel com vista privilegiada sobre o rio; os pisos estão divididos entre os dos Santos Populares, o das comidas tradicionais, o dos bairros típicos e o dos fadistas» («Sete colinas num ‘hostel’ lisboeta», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 18.01.2011, p. 52).
      Apesar de estar no título, o jornalista nunca explicou o conceito de «hostel», como se fosse familiar aos leitores. Etimologicamente, deriva de hospitalis, tal como «hospital», «hostal», «hotel», «hostería»... Aqui explica-se o conceito.

[Post 4332]

Infinitivo

Também podia ser


      Um leitor, A. C. M., acaba de me mandar uma mensagem de correio electrónico em que me diz que no texto anterior, sobre o uso escusado e errado do vocábulo «gay», o verbo «trabalhar» não podia estar flexionado. «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24). Não é assim. Se for regido de preposição (a, na frase citada), o infinitivo pode ser flexionado ou não: ao trabalhar ou ao trabalharem. Ambas as construções estão correctas.

[Post 4331]

Arquivo do blogue