Interjeições

Eh, vocês!


      «— He, brochista, estou a falar contigo — disse Beck. Deu uma palmada na maçã e pisou-a quando caiu ao chão» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 117).
       Não é nada de novo neste blogue: desde quando é que a língua portuguesa tem a interjeição de chamamento «he»? Ih, ih, ih! All this seems quite straightforward, but... É tudo falta de reflexão sobre a língua.

[Post 4330]

«Gay/homossexual»

Lamentável


      «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24).
      Não sei o que pode levar um tradutor a deixar no original a palavra «gay». O pouco respeito pela língua, talvez. Então já não se diz «homossexual»? Escrevo este texto, porém, por outro motivo: então e a concordância? Já não se sabe distinguir substantivo de adjectivo?

[Post 4329]

Notas de rodapé

Critérios mais que discutíveis


      «Não foram encontrados danos cerebrais, nem foi detectada nenhuma doença do sistema nervoso central ou alguma anomalia ao nível do estatuto dos cromossomas» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 141).
      Acharam imprescindível uma nota ao nome do poeta «Archilochos» (não, não me parece necessário consultar os Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos para acertar), mas já quanto a «estatuto dos cromossomas», julgam que todos os leitores conhecem. Estão bem enganados.

[Post 4328]

Revisão

Erros e errata e desculpas


      Eu não disse que é bom dar uma olhadela às cartas ao director dos vários jornais? Na edição de hoje do Público, na página 34, pode ler-se esta carta, assinada pela escritora Helena Osório: «A propósito do texto divulgado na rubrica Livros da página Crianças de sábado passado, assinada por Rita Pimenta, em que se dava conta de “erros de pontuação e de ortografia indesculpáveis” no livro Viagens de José pelo Mundo dos Sonhos, a autora e editora da Animedições informa que os livros estão a ser distribuídos com uma errata cujo conteúdo revelamos:
      Os contos de José são escritos noutro tempo, quando ainda não vigorava o novo Acordo Ortográfico (a partir ano lectivo 2011/2012). Em todos os contos há referências a esse tempo em caixa alta. E apenas uma legenda na página 31 o indica, onde se escreve “estória” pela 1.ª e única vez (e não “história”, i.e. pp. 4, 5, 8, 9, 11, 20, 27, 46). Não se trata de erro ou de má acentuação e, sim, de fazer ver a diferença junto dos mais jovens. Como, por exemplo, “pêlo” da lontra (pp. 9-10, 31, 34, 37) em confronto (ou não) com “pelo” mundo dos sonhos de José; ou como “as fôrmas das inúmeras flores em forma de cálice” (p. 52). Considere-se, nesta obra, a pontuação e hifenização o estilo próprio da autora (i.e. semi-encoberto e semi-desfocadas, pp. 25, 31).
      Na página 13, onde se lê “caiem”, deve ler-se “caem”. Na página 15, onde se lê “de certo”, deve ler-se “decerto”. Na página 18, onde se lê “Não viajás-te” e “Matás-te”, deve ler-se “Não viajaste” e “Mataste”. Na página 25, onde se lê “As folhas de Outono”, deve ler-se “As imaginadas folhas de Outono”. Na página 37, onde se lê “se não”, deve ler-se “senão”. Na página 38, onde se lê “dar-te-à”, deve ler-se “dar-te-á”. Na página 40, onde se lê “tornaste”, deve ler-se “tornas-te”. Na página 49, onde se lê “ouvis-te”, deve ler-se “ouviste”. Na página 52, onde se lê “possui-las”, deve ler-se “possuí-las”. Na contracapa, onde se lê “vindo a preocupar”, deve ler-se “vindo a preocupar-se”.»
      Percebe-se: o dinheirinho foi todo para os artistas plásticos, não chegou para contratar os serviços de um obscuro revisor.

[Post 4327]

Tradução

Com tapa-pés


      «Os técnicos de laboratório foram requisitados e, nos seus fatos de tyvek brancos, procederam às buscas mas nada mais foi encontrado» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 139).
      Talvez, com as imagens de filmes recentes ainda presentes, os leitores saibam do que se trata, mas, ainda assim, vejam como é mais claro o que se lia numa reportagem publicada hoje no Diário de Notícias: «Os inspectores detêm 30 jovens para interrogatório. A equipa da LPC [Laboratório de Polícia Científica] fica no terreno para realizar as perícias. Com fatos de protecção descartáveis, tapa-pés e luvas, para impedir contaminações do local e dos vestígios, iniciam a observação no passeio anexo ao muro do Colégio [Pina Manique], recorrendo às técnicas de observação directa (os olhos) e luz rasante, com utilização da lâmpada forense GoldPanther de luz branca. Tiram fotos» («Caso encerrado», Céu Neves, Diário de Notícias, 15.01.2011, p. 6). «Fatos de protecção descartáveis», nem mais. E «tapa-pés» também é um achado de simplicidade.

[Post 4326]

Sobre «candeio»

Mera reflexão


      «Uma companhia de cinco ou seis pequenos botes, com dois ou três pescadores dentro de cada um deles» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 15).
      Não sei se não seria mais correcto companha, que é qualquer associação de pescadores. Costa da Síria, pesca nocturna da sardinha, com recursos a lanternas. Dois parágrafos à frente, diz-se que «o método [é] chamado da lâmpara, termo tomado aos italianos». Não percebo a razão do aparente aportuguesamento. Em italiano é lampara, a «grossa lampada ad acetilene o elettrica fornita di una luce molto forte, che viene utilizzata nella pesca notturna di alcune specie di pesci» (in Dicionário Hoepli). Parecido, só o espanhol lámpara. Em português, temos o termo candeio para designar a pesca nocturna com recurso a archotes. Quase todos os dicionários o registam. Há décadas, porém, que ouço o termo candeio também para a caça nocturna com recurso a lanternas. E já o li usado por Aquilino Ribeiro neste sentido.

[Post 4325]

«Meio», advérbio

Sem meias-tintas


      «Uma anciã de noventa anos já meia cega, que não tivesse lá estado, tê-lo-ia “reconhecido inequivocamente”» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 65).
      Como a anciã teria, como é normal num ser humano, dois olhos, poderia ser «meia cega», sim, ou seja, cega de um olho. Contudo, correcto é meio cego(a), isto é, «mais ou menos cego(a)», «com problemas de visão». Via mal dos dois olhos. Meio é ali advérbio, é invariável. É ignorância, porque a norma moderna é diversa, mas já alguém virá afirmar que nos clássicos era assim e que não se deve dizer de outro modo. Lá se avenha... Podíamos referir o exemplo clássico, de Camões, «uns caem meios mortos». Vamos antes para um exemplo de D. Francisco Manuel de Melo, na Carta de Guia de Casados: «O homem que casa com mulher de pouca idade, leva a demanda meia vencida.» Meia está a modificar um adjectivo/particípio, logo, é um advérbio, é invariável. Queremos, à fina força, que «meia» fique na frase? Pois bem, ei-la: «O homem que casa com mulher de pouca idade, leva meia demanda vencida.»

[Post 4324]

Sobre «carácter»

Pelo menos isso


      «A mais antiga escola de ceramistas assinava as suas peças com o carácter raku» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 38).
      Entre muitos erros, alguns acertos, naturalmente. Apesar de alguns pretenderem o contrário, a verdade é que quase todos os dicionários registam entre as acepções de carácter a de tipo de imprensa. Não me parece que se precise de outro vocábulo.

[Post 4323]

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