Sobre «candeio»

Mera reflexão


      «Uma companhia de cinco ou seis pequenos botes, com dois ou três pescadores dentro de cada um deles» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 15).
      Não sei se não seria mais correcto companha, que é qualquer associação de pescadores. Costa da Síria, pesca nocturna da sardinha, com recursos a lanternas. Dois parágrafos à frente, diz-se que «o método [é] chamado da lâmpara, termo tomado aos italianos». Não percebo a razão do aparente aportuguesamento. Em italiano é lampara, a «grossa lampada ad acetilene o elettrica fornita di una luce molto forte, che viene utilizzata nella pesca notturna di alcune specie di pesci» (in Dicionário Hoepli). Parecido, só o espanhol lámpara. Em português, temos o termo candeio para designar a pesca nocturna com recurso a archotes. Quase todos os dicionários o registam. Há décadas, porém, que ouço o termo candeio também para a caça nocturna com recurso a lanternas. E já o li usado por Aquilino Ribeiro neste sentido.

[Post 4325]

«Meio», advérbio

Sem meias-tintas


      «Uma anciã de noventa anos já meia cega, que não tivesse lá estado, tê-lo-ia “reconhecido inequivocamente”» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 65).
      Como a anciã teria, como é normal num ser humano, dois olhos, poderia ser «meia cega», sim, ou seja, cega de um olho. Contudo, correcto é meio cego(a), isto é, «mais ou menos cego(a)», «com problemas de visão». Via mal dos dois olhos. Meio é ali advérbio, é invariável. É ignorância, porque a norma moderna é diversa, mas já alguém virá afirmar que nos clássicos era assim e que não se deve dizer de outro modo. Lá se avenha... Podíamos referir o exemplo clássico, de Camões, «uns caem meios mortos». Vamos antes para um exemplo de D. Francisco Manuel de Melo, na Carta de Guia de Casados: «O homem que casa com mulher de pouca idade, leva a demanda meia vencida.» Meia está a modificar um adjectivo/particípio, logo, é um advérbio, é invariável. Queremos, à fina força, que «meia» fique na frase? Pois bem, ei-la: «O homem que casa com mulher de pouca idade, leva meia demanda vencida.»

[Post 4324]

Sobre «carácter»

Pelo menos isso


      «A mais antiga escola de ceramistas assinava as suas peças com o carácter raku» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 38).
      Entre muitos erros, alguns acertos, naturalmente. Apesar de alguns pretenderem o contrário, a verdade é que quase todos os dicionários registam entre as acepções de carácter a de tipo de imprensa. Não me parece que se precise de outro vocábulo.

[Post 4323]

Sobre «estocástica»

Discordes, por uma vez


      «Aos dez anos aprendeu sozinho estocástica, cálculo integral e geometria analítica de um manual que tinha roubado da biblioteca dos professores» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 61).
      Quando li, de imediato me ocorreu que «cálculo de probabilidades» seria o mais correcto. Mas não tenho a certeza. Estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o substantivo estocástica. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, afiança que «estocástica» é o mesmo que «cálculo das probabilidades». Para o Dicionário Houaiss, a «estocástica» é o «emprego para uso estatístico do cálculo de probabilidade». É esta, ao que me parece, a definição correcta.

[Post 4322]

«À diferença de»?

Também reclamamos


      «Numa 6.ª-feira dia 13, a Ensitel passou três vezes debaixo de escadas, partiu dois espelhos e cruzou-se com um gato preto, pelo que não pode queixar-se de azar por ter tropeçado numa cliente habituada a fazer valer os seus direitos (à diferença da maioria dos portugueses que se queixam muito mas reclamam pouco), e que, ainda por cima, coordena a comunidade de blogues do Sapo e é mais célebre e influente nas redes sociais do que a batata frita» («O misterioso caso do ‘Nokia E71’ às escuras», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 9).
      ¿Qué tenemos aquí? Posso estar enganado, mas em Portugal nunca ouvi a expressão. Em Espanha, sim: a diferencia de. Locução prepositiva para «denotar la discrepancia que hay entre dos cosas semejantes, o comparadas entre sí». Lá por usarmos «à semelhança de» não quer dizer que possamos usar «à diferença de».

[Post 4321]

Calibre das armas

Não disparem mais


      «A arma é uma pistola de alarme transformada numa 6.35 milímetros, que tinha sido adquirida, já adaptada, a um colega por 200 euros. O propósito da aquisição, segundo o próprio, “não estaria relacionado com uma intenção de a poder utilizar, apenas porque gosta de armas”. Ao jovem foram ainda apreendidos dois cadernos, que trazia numa mochila, com desenhos e referências a composições de mistura de substâncias químicas, assim como a informação onde poderiam ser adquiridas, para a fabricação de explosivos» («Bom aluno a Química com arma e manual de bombas», Célia Domingues, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 18).
      Erro muito comum, este de usar o ponto em vez da vírgula a separar a parte inteira da parte decimal de um número. Não, é 6,35 mm que se deve escrever.

[Post 4320]

«Estadio»?

Isso não


      Hoje foi a vez de o candidato Defensor Moura ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso. Nada de especialmente grave, excepto o que a deformação profissional impõe: pronunciou «estadio» em vez de «estádio». De resto, é o candidato com o discurso mais articulado, sem ter, todavia, o estro altissonante de outros.

[Post 4319]

Acordo ortográfico

Além-fronteiras


      Sentem-se, a notícia é tristíssima. Ainda ontem vi uma professora de Português (!) escrever, «segundo o Acordo Ortográfico de 1990», «adatando-nos», «por analogia» com «adoptar» na nova grafia... Claro que também escreveu «interajudar-mo-nos», o que diminui consideravelmente a imputabilidade. E as novas regras ortográficas, recordo, terão de ser aplicadas nas escolas a partir de Setembro. Ainda estamos a tempo de levar os nossos filhos para Badajoz.

[Post 4318]

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