Léxico: «demissor»

Arruadas e analogias


      «Na arruada do fim da tarde, feita debaixo de chuva, em Setúbal, Francisco Lopes foi claro: “O Presidente não é um ‘dissolvedor’ ou um demitidor de governos. Cada coisa a seu tempo!”» («“Presidente não é um ‘demitidor’ de governos”», Eva Cabral, Diário de Notícias, 11.01.2010, p. 10).
      Camarada Francisco Lopes, ao indivíduo que demite, seja lá quem for, dá-se o nome de demissor.

[Post 4309]

Léxico: «vermelho-fogo»

Cores e sexo oral


      «Só que Dati é uma mulher bonita e elegante, que dificilmente será apanhada sem os seus saltos altos — bastante altos — e um batom vermelho-fogo» («A bela Dati quer conquistar Paris», Clara Barata, Público, 10.01.2011, p. 15).
      Vermelho-fogo. Se se diz cor de fogo, está correcto. E sim, Rachida Dati é uma mulher muito bonita. Lembram-se de quando, numa entrevista ao Canal Plus, em vez de inflation (inflação), disse fellation (felação)?

[Post 4308]

Jargão médico

Fez e fez bem


      Jorge Araújo, director do Serviço de Cardiologia do Hospital Central do Funchal, no noticiário da Antena 1: «Continua com uma evolução clínica favorável, não voltou a ter queixas nas últimas 24 horas, descansou normalmente e fez um levante esta manhã e recebeu visitas permitidas, inclusivamente dos seus familiares.» Neste caso, não é nada de esotérico — apenas não é usado pelo falante comum. Levante é o acto de levantar-se; alevante. Por extensão de sentido, também é a insurreição contra alguém ou algo; revolta, motim. Neste caso, porém, já estaríamos a falar dos súbditos de Sua Majestade. Quarta-feira teremos um novo boletim clínico. Fico à espera.

[Post 4307]

Como se escreve nos jornais

Títulos e manias


      O obituário de hoje do Diário de Notícias tinha este título: «O mais moderado e diplomata dos três operacionais do 25A» (p. 43). Aposto, singelo contra dobrado, como alguns leitores ficaram de boca aberta e não souberam o que era aquele «25A». É contagioso e apareceu com o ataque às Torres Gémeas: a imprensa anglo-saxónica escreveu «9/11» e por cá achou-se isso a sofisticação máxima. Em 2004, com os ataques bombistas na estação de Atocha em Madrid, a imprensa da Península Ibérica escreveu «11-M». Há títulos mais estranhos, sem dúvida, como este da edição de hoje do Público: «Maurício rimou com eficácia em Vila do Conde» (p. 28). Só perguntaria que merda é esta se fosse malcriado.

[Post 4306]

Sobre «sob»

Sob pena de


      Ainda não ficou tudo dito sobre o doido das distopias: «O atirador identificou-se como Jared Lee Loughner, de 22 anos, está sob interrogatório» («Ataque a congressista acende debate sobre o ódio na política», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      «Sob interrogatório»... Leiam o que João de Araújo Correia escreveu sobre esta preposição na obra A Língua Portuguesa: «Sabe-se, nesta enfermaria, que o celebérrimo sob, não obstante o instinto popular, que o sacode, não deixa de ser preposição portuguesa. Veio do Latim, sem passar pelo estômago do povo, mas, veio… Veio porque seria precisa esta preposição. Tanto, que bons escritores a empregaram. Mas, honra lhes seja, não abusaram dela. Foram, no seu manejo, tão cautelosos como elegantes. Quase se pode dizer que limitaram o sob à expressão abstracta, em frases como as seguintes: sob reserva, sob caução, sob custódia. Fora dessas frases, que se tornaram fixas, e à parte a discreta liberdade de algum estilista, o uso do sob é arriscado. Não abusemos dele, sob pena de o tornarmos ridículo» (Lisboa: Editorial Verbo, p. 75).

[Post 4305]

Ortografia: «mau-estar»

Uma jornalista...

      «O clima de mau-estar intensificou-se e “eles estiveram a discutir durante a madrugada de sexta-feira”» («Corpo do cronista já pode ser levantado pela família», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 10.01.2011, p. 50).
      Um dia ainda será norma, ou já é — porque «os falantes têm sempre razão».

[Post 4304]

Léxico: «distopia»

Não queria estar lá


      «Tentara alistar-se no Exército, em 2008, mas não foi aceite. E entre os seus livros favoritos, listados no YouTube, Loughner indicava as distopias políticas O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e as fantasias Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho» («Atirador revelava há meses sinais de alienação e desequilíbrio», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      Do inglês dystopia. Entre outros, o Dicionário Houaiss regista-o: «lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia».

[Post 4303]

Léxico: «azul-ceroso»

Procuro sócio


      «A baga de cor azul-ceroso, aromática e medicinal, é conhecida pela sua riqueza em diversas vitaminas e tida como o fruto que contém mais antioxidantes, prevenindo os sinais de envelhecimento» («Mirtilo impulsiona ‘cluster’ português dos pequenos frutos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 10.01.2011, p. 32).
      Azul-ceroso. Um pouco estranho, mas está certo, porque ceroso (ou céreo) também é o que tem a cor da cera e não apenas, como nos ocorrerá mais rapidamente, o que é de cera, feito de cera. O pior é o «cluster». Francamente... «Quarenta mil euros a fundo perdido, mais ajudas em 50 % para encargos com compra de plantas, preparação de terrenos (mínimo de um hectare), sistemas de regas, máquinas ou mesmo abertura de poços»... Aceito sócio (mas só se jurar não dizer «mirtilho»).

[Post 4302]

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