Edição

E mais


      «Há uns anos, em Nova Iorque, pedindo informações num departamento de História sobre os primeiros negros da cidade (foram onze e angolanos, em 1626), eu disse a palavra “slave” (escravo). Ralharam-me: que eu dissesse “enslaved people” (pessoas escravizadas) pois a outra palavra pressupunha que era uma condição aceite pelas vítimas... Não insisti sobre a falta de lógica da explicação, há muito que não invisto contra as pancadas dos politicamente correctos. Agora, leio que Mark Twain vai ser censurado: as 219 vezes que escreve a palavra “nigger” (preto) nas Aventuras de Huckleberry Finn (primeira edição, 1884) vão ser expurgadas» («Pedaços de asno voltam a atacar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 64).
      Ferreira Fernandes não ia deixar passar a oportunidade de escrever sobre esta estupidez (mas anda a abusar do gerúndio).

[Post 4293]

Edição

São doidos


      «A reedição dos clássicos As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910), está a gerar polémica nos Estados Unidos. Isto porque a editora norte-americana NewSouth decidiu substituir a palavra “nigger” (preto) por “slave” (escravo) e ‘injun’ (forma coloquial utilizada no Missouri da primeira metade do século XIX para índio, altura em que se passam as duas histórias) por ‘indian’ nas edições que vai lançar no próximo mês» («‘As aventuras’ de Mark Twain reeditadas sem a palavra ‘preto’», Marina Marques, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 53).
      «Re-editadas», ler-se-á no Jornal de Letras... Ainda segundo o Diário de Notícias, «a forte carga negativa dos dois epítetos raciais é a justificação apresentada por Alan Gribben, especialista da obra de Mark Twain e editor destas novas versões, para a alteração apresentada». Isto é sequer admissível?

[Post 4292]

Léxico: «videógrafo»

Assim serve


      É o fenómeno do momento, Ted Williams, o sem-abrigo com um vídeo no Youtube. «Um videógrafo do Columbus Dispatch, um jornal local, decide passar por lá e comprovar com os seus próprios ouvidos» («‘Voz de ouro’ vale emprego», Daniela Espírito Santo, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 64). A jornalista afirma que é um «sucesso viral».
      Mais um neologismo — mas será necessário? No Diário de Notícias («Sem-abrigo com voz de ouro ganha fama graças à Internet», Susana Salvador, p. 35), usou-se a locução «repórter fotográfico», o que o videógrafo não quererá ser.

[Post 4291]

Tradução

A trouxe-mouxe


      «Em virtude das celebrações da Epifania do Senhor, gregos ortodoxos competem a nado no Golden Horn, em Istambul, para segurar e beijar uma cruz em madeira, naquela que é uma tradição religiosa» («Celebrações da Igreja Ortodoxa», «Viva +/Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 29).
      Além de malissimamente escrito, o texto apresenta aquela mácula maior de não ter traduzido o que sempre teve nome em português: Corno Dourado, que é a designação que se dá à entrada do Bósforo. Mais avisados, no Diário de Notícias o artigo tinha o título «Epifania celebrada nas águas do Bósforo». A notícia no Jornal de Notícias era ilustrada com quatro imagens. Na da direita, lia-se naquele jornal, podia ver-se o «patriarca ecuménico ortodoxo grego Bartholomew I». Para o Diário de Notícias, era mais portuguesmente «Bartolomeu I».

[Post 4290]

Verbos

Agora são sapos


      Deixem-me cá ver algo que interesse a implumes e a passarões... Ah, sim. Ofereceram à minha filha um exemplar da obra Janela Mágica — Contos de Fadas, de Savior Pirotta (Porto: Civilização Editora, 2010, com tradução do Departamento Editorial da Civilização Editora). Esteticamente, para lá do que é esperável. Quanto ao resto... O melhor é darem uma olhadela: «— Estais aí, princesa? — chamava o sapo. — Lembrai-vos do que prometesteis!» Contrariada, a princesa queria pôr um prato no chão para o sapo. «— Ah, não, Alteza, prometesteis que eu me sentaria convosco à mesa, que comeria do vosso prato adornado e beberia do vosso copo de prata — declarou o sapo.» A princesa amuou — novo erro na forma verbal ofendeu-a, decerto, mas o sapo insiste: «— Alteza — disse ele à princesa —, dissesteis que eu poderia deitar-me na vossa almofada.»
      Acham que isto são maravalhas ou maravilhas? Como foi um presente, não posso devolver o livro.

[Post 4289]

Selecção vocabular

Franças e Araganças


      «Um ajuste de contas ou uma vingança poderá estar na origem do homicídio de um português de 38 anos, morto a tiro na madrugada de terça-feira em Pierrelaye, Val-d’Oise, nos arredores de Paris. Cerca das 20.00, um grupo de encapuzados entrou no parque da discoteca Pagode, da qual Paulo V. era co-proprietário, deram-lhe um tiro na cabeça e feriram o gerente antes de se colocarem em fuga» («Emigrante português morto a tiro em discoteca», Joana de Belém, Diário de Notícias, 6.01.2011, p. 19).
      «Ajuste de contas» e «vingança» são sinónimos muito próximos. Tanto que não deviam ser assim dados como alternativas. A imprensa francesa interrogava-se: «Jalousie ? Règlement de comptes ?» A jornalista que traduza. Como os homicidas se colocaram em fuga em vez de se terem mais por-tu-gues-men-te (se quero vir a ser presidente da República, tenho de escrever e falar assim) posto em fuga, aposto que vão ser apanhados. Oxalá. Bagnards ! Connards ! Gros beaufs ! Marlous ! Paumés ! Salopards ! Bordel de Nom de Dieu ! E já está, não me lembro de mais nada. Vou deitar-me, que já é tarde. Eh bien. Ficam os meus queridos leitores brasileiros a tomar conta do blogue. A propósito: depois de uma menor afluência na quadra festiva, o blogue está novamente a ter mais de mil visualizações por dia. Por ordem: Portugal, Brasil, Estados Unidos... Até amanhã.

[Post 4288]

«Ave/pássaro»

Aves raras


      «Algo semelhante estará na origem do sucedido no Arcansas e na Luisiana. […] A hipótese de envenenamento ou doença contagiosa está excluída no caso do Arcansas» («Milhares de pássaros caem do céu na Suécia e nos EUA», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 6.01.2011, p. 24).
      Cá estão dois topónimos aportuguesados. Não é complicado nem ridículo: faz-se quando se pode. (Em relação a Luisiana, porém, os jornalistas ainda não acertaram no género.) Não vamos, contudo, tratar de topónimos, mas do título da notícia. Na rádio, ouvi que se tratava de aves. Não é raro o falante médio confundir «ave» com «pássaro». Os jornalistas, porém, não são, por definição, falantes médios, mas também confundem. Os pássaros são aves pequenas. Ou seja, se todos os pássaros são aves, nem todas as aves são pássaros. Ave é o hiperónimo (o termo genérico) e pássaro é o hipónimo (o termo específico).

[Post 4287]

«Gestores de topo»

O affaire Renault


      «A Renault suspendeu três gestores de topo, por alegadamente terem passado para fora da empresa segredos industriais relativos ao programa de desenvolvimento dos seus carros eléctricos, revelou a France Press» («Gestores da Renault acusados de espionagem industrial», Diário de Notícias, 6.01.2011, p. 32).
      Se a língua francesa ainda tivesse a importância de outrora, de certeza que não se falaria de «gestores de topo», mas sim de «altos quadros», porque na imprensa francesa é assim que se lê: hauts quadres e também cadres haut placés. Contudo, até recentemente, era também assim, altos quadros, e já longe da influência do francês, que se dizia entre nós. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é certamente o que apresenta a melhor definição de «quadro» nesta acepção: «Alto funcionário, técnico categorizado ou em nível de direcção numa empresa; dirigente, gerente.»

[Post 4286]

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