Léxico: «jívaro»

Cabeças encolhidas


       O poeta das velas também se referiu a alguém que tinha a cabeça como as dos «jívaros». E onde pára o verbete nos dicionários? Nós recebemo-lo certamente do espanhol: jíbaro. Diz-se do indivíduo de um povo ameríndio que vive num território entre o Sul do Equador e o Norte do Peru. Por extensão de sentido, é igualmente sinónimo de «campestre», «arisco», «fugidio». O Dicionário Houaiss regista o vocábulo xibaro, e na definição podemos ler que é o «indivíduo nascido de um progenitor caboclo (‘mestiço de branco e índio’) e outro negro». Na anotação etimológica, podemos ler que provém do hispano-americano jibaro «silvestre, campesino’, este de origem duvidosa, proveniente de língua indígena americana». Para o DRAE, contudo, é palavra esdrúxula.

[Post 4285]

Ortografia: «banda sonora»

Qual maldição


      «Atento, o realizador Quentin Tarantino recuperou a segunda [Stuck in the Middle With You] para a banda-sonora de Cães Danados numa fase em que Rafferty lutava contra a dependência do álcool» («Um veterano popular na música dos anos 70», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 6.01.2011, p. 41).
      E o hífen para que serve ali, pode explicar-nos, Davide Pinheiro? Escreve-se banda sonora, tal como também se escreve banda desenhada, duas expressões que nos últimos tempos aparecem muitas vezes ligadas por hífen na imprensa.

[Post 4284]

Ortografia: «tibiotársico»

Ossos do ofício


      «As pedras, e um barrote de madeira que suportava, como viga, parte do telhado atingiram a jovem em cheio na perna esquerda, provocando-lhe uma fractura na tíbiotársica» («Rapariga ferida em queda de muro», Carlos Rui Abreu, Jornal de Notícias, 6.01.2011, p. 24).
      Ena, senhor jornalista, uma palavra com dois acentos agudos... É grave, muito grave. Já se vê que é tíbio na observância das regras ortográficas. Lá por o substantivo tíbia e o adjectivo társico terem acento agudo, não quer dizer que tibiotársico os mantenha, não é? Não induza os leitores em erro.

[Post 4283]

Como se escreve nos jornais

Por um triz


      «Familiares e amigos, contactados pelo JN, contaram que os trabalhadores tinham sido contratados pelo dono da quinta, circundada pelo muro extenso, onde ocorreu o acidente, para taparem, com betão, os espaços entre as pedras, vulgarmente designadas por juntas» («Muro aluiu e matou operário», José Vinha, Jornal de Notícias, 6.01.2011, p. 22).
      Caro José Vinha: ainda bem que não nos quis sobrecarregar com a designação técnica dos intervalos entre as peças de alvenaria. Ah, e outra coisa: não gaste tantas vírgulas, que ainda lhe podem vir a fazer falta. Quem guarda, etc. Escuso-me de acabar o adágio porque de todos é sabido.

[Post 4282]

Colchetes

Quem escreveu?


      «Antes dele, o snooker [bilhar] era um jogo sombrio, disputado debaixo de muito fumo e álcool, em clubes nocturnos de qualidade duvidosa» («O polémico ‘Furacão’ que se tornou estrela de ‘snooker’», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 26.07.2010, p. 41).
      Os colchetes são de Rui Marques Simões? Sim? Então foram indevidamente utilizados. E, por outro lado, a explicação não devia dizer que o snooker é uma variedade de bilhar? E o sinuca é uma variedade de snooker, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou uma variedade de bilhar? Sinuca, como aportuguesamento de snooker, faz lembrar chulipa, aportuguesamento de sleeper, e chumeco, aportuguesamento de shoemaker.

[Post 4281]

«Rever em alta»

Economês


      «Ontem, pelas 13H47, na cidade ameaçando chuva, uma lisboeta de avental parou, preocupada com um casal de turistas. Este agitava um mapa e tinha estampado, nas faces de ambos, a dúvida de ir pela Rua da Ribeira Nova ou pela Rua do Arsenal. A lisboeta interrogou-os com um sorriso. […] Há pouco, o ministério da Economia alemão reviu em alta o crescimento do seu PIB, baseado “na sustentada procura externa de produtos e serviços germânicos”» («Estou preocupado com a Alemanha», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 56).
      Cada um fale por si, mas, quanto a mim, só usaria «rever em alta» se fizesse jornalismo económico. Também aqui o exame Vieira ter sido útil. (E sabiam que «economês» está registado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora? Prioridades...)

[Post 4280]

Tu e vós na Bíblia

Jb 10,18


      Num texto, citava-se o Salmo 8 da Bíblia, mas não correctamente: as formas de tratamento usadas por quem se dirige a Deus ora estavam conjugadas na 2.ª pessoa do plural, ora na 2.ª pessoa do singular. Não foi a primeira vez que vi o erro, mas desta vez servirá para reflectirmos. Exemplifiquemos com um versículo muito citado na versão da Vulgata: «Quare de vulva eduxisti me?» (Liber Iob 10,18) Na Bíblia dos Capuchinhos, é assim que aparece traduzido: «Porque me tiraste do ventre de minha mãe?» (Jb 10,18). Tu, Deus. Abundarão, estou certo, as versões em que a forma de tratamento é «vós», a 2.ª pessoa do plural, mas as mais recentes limitaram-se a repor o que o que foi opção das primeiras traduções. E o leitor, como se dirige a Deus?

[Post 4279]

Velas e watts

Alumiem-nos


      Diz aqui o poeta (não, não posso revelar o nome, só a grandeza. Que poeta!) que era madrugada e a luz que a cozinha tinha dava-a uma «lâmpada de quinze velas». Há quanto tempo não via a palavra ser usada nesta acepção! O Dicionário Houaiss regista que é «qualquer medida de luminosidade que fornece a potência de uma fonte de iluminação». Não é, contudo, uma forma de dizer popular, imprecisa, não científica, por watts? Não faz parte, tanto quanto sei, do Sistema Internacional de Unidades (SI). Esperemos que Fernando Ferreira nos possa esclarecer.

[Post 4278]

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