Símbolo químico

Só se mudou


      Aprendi que no símbolo químico do dióxido de carbono se usa o 2 subscrito, o que serve para representar que cada molécula contém dois átomos de oxigénio somados a um átomo de carbono — CO2. Ora, o dióxido de carbono é, sem qualquer dúvida, o gás de que mais se fala na imprensa. No Público, não me lembro de o ter visto alguma vez subscrito. «Por um lado evita-se o pesado consumo de CO2 resultante da queima das rolhas e, por outro, incrementa-se a sua produção, já que por cada mil rolhas recolhidas a Quercus planta mais uma árvore no âmbito do seu projecto Criar Bosques» («Guarde a rolha do que beber no Natal e Ano Novo», José Augusto Moreira, Público, 24.12.2010, p. 11). No Diário de Notícias, passa-se o oposto: «Acreditou-se que a crise económica baixaria os níveis de emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa, mas afinal não será assim» («Emissões de CO2 estão outra vez a subir», Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 34).
      (Uma palavra de repúdio pela designação, Green Cork, que a Quercus deu a esta campanha de recolha de rolhas. Então querem as nossas rolhas e tratam-nos como se fôssemos Ingleses? Está mal.)

[Post 4235]

«Aparte/à parte»

É pôr de parte


      «Ainda assim, não podendo falar de consensos absolutamente consensuais (aparte Kanye West), assinalamos concentrações estéticas» («Melhores do ano. Música», Mário Lopes, «Ípsilon»/Público, 24.12.2010, p. 3).
      Erros assim comezinhos são os mais comuns. Só é, ou devia ser, incomum ser um jornalista a dá-lo. À parte é uma locução adverbial e significa excepto, sem falar em, em particular, de lado, isoladamente. Aparte é um substantivo e significa o que um actor diz simulando falar consigo; frase isolada para interromper alguém; observação marginal em discurso.

[Post 4234]

Atol de Bikini

E porque não?


      «O atol de Bikini, nas ilhas Marshal, e Papahânaumokuâkea, um conjunto de pequenas ilhas e atóis do Havai passaram a integrar a lista como património natural. Por último, o Planalto Central do Sri Lanka foi classificado como património misto» («Palestina, Jordânia e Israel unem-se por Jerusalém», Marina Marques, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 41).
      É raríssimo ver-se aportuguesado para atol de Biquíni, mas no Diário de Notícias não seria inesperado.

[Post 4233]

«Giga», redução

Aos tropeções, mas avança


      «O autor [António Barreira] guarda a sua história premiada “numa pen de quatro gigas”, e o perfume que usou para a escrever, o Cool Water, de Davidoff, na prateleira. Irrecuperáveis são os chinelos — diz ter um par por cada novela que escreve: “Eram de Verão e usava-os quando escrevia em casa, depois de horário de trabalho. Foram muitos meses...”» («‘Meu Amor’ custou perto de cinco milhões de euros», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 25.11.2010, p. 55).
      Quer queiramos quer não, a língua avança. Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora giga é apenas uma cesta larga ou um cesto de vime, sem asas, para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já é também a redução de «gigabyte». É que não são já apenas os informáticos que falam assim, mas toda a gente.

[Post 4232]

Sobre «conduta»

Muito mais simples


      A ideia que tenho é que o galicismo conduta (conduite) cedeu algum campo, nos últimos anos, aos vernáculos procedimento e comportamento. Por vezes, contudo, trata-se de uma falsa questão, pois não se tem de utilizar nenhum dos três vocábulos. Veja-se esta frase: «O homem [ex-militar] com quem me encontrei seguia um código de conduta cujo imperativo era servir os outros.» Nesta expressão em concreto, a locução é, julgam muitos, inescapável. Ora, da leitura do original conclui-se que não era necessário usar nem o galicismo, nem nenhum dos possíveis termos vernáculos correspondentes, nem sequer a expressão. Leiam: «The man I met at that time was living by a code of service to others.»

[Post 4231]

Como se escreve nos jornais

Caturrice, dizem?


      «Subitamente, os militares [da GNR] aperceberam-se de um Ford Fiesta a efectuar uma violenta travagem, ligaram os rotativos da viatura e um dos militares saiu, dando ordem de paragem ao condutor do veículo» («Fugiu e quis atropelar a patrulha», Reis Pinto, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 17).
      Se se tivessem dado conta ainda teria sido melhor, mas adiante. Eu pensava, e decerto a maioria dos falantes, que «rotativo» era somente adjectivo. Neologismo, então. E aquele «dando» não é o que Vasco Botelho de Amaral chamou gerúndio copulativo — espúrio na língua portuguesa? E, no entanto, bem arreigado já.

[Post 4230]

«Face a»

Perante isto...


      Quatro homens armados, vestidos com fatos-de-macaco pretos e com máscaras carnavalescas, assaltaram há dias o hotel Tiara Park Atlantic. Queriam, mal informados, assaltar uma ourivesaria que ali existia, e por isso iam munidos de uma marreta. Contentaram-se então com a máquina registadora do restaurante do hotel e com o cofre da recepção. Trocos, decerto, para quem queria levar mãos-cheias de ouro. Escreve o jornalista: «Face à informação[,] um dos suspeitos saltou o balcão da recepção e já no interior do espaço apontou a arma de fogo [a] um dos dois funcionários que estavam na altura no local e exigiu que este lhe entregasse dinheiro» («Assalto armado a hotel de luxo», Susana Otão, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 14). Sim, está mal escrito, mal pontuado, mas só queria realçar este aspecto: João de Araújo Correia, e outros cultores da língua, iria espumar com aquele «face à», mas quem é que hoje em dia sabe que é calinada em vez de «perante»?

[Post 4229]

Estrangeirismos

O que se esqueceu


      Quando tratou do vocábulo «olho» na fraseologia portuguesa, Vasco Botelho de Amaral não se lembrou de referir, de passagem e para um fim meramente didáctico, o empréstimo do francês a olho nu (à l’oeil nu), ao contrário de Mário Barreto, que propôs como alternativas «a olhos desarmados» e «com a vista desarmada». Que se vê nos dicionários actuais? Registam, indiferentemente, «a olho nu», explicando que significa sem auxílio de qualquer utensílio óptico, e «à vista desarmada». Muito próxima, esta, portanto, da proposta do filólogo brasileiro. «À vista desarmada» usa-se até mais do que se possa julgar. Muitas outras propostas foram, infelizmente, desprezadas. Por fortuna, já ninguém usa revanche (nem revancha, um pouco, mas muito pouco, melhor), mas ainda se discute, de vez em quando, se avalancha é melhor do que avalanche (mas temos alude), e há quem se lembre sempre de equipe (como Mário Soares) e não de equipa, cabine mas não cabina, etc. Ainda estamos a tempo.

[Post 4228]

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