Sujeito indeterminado

Fica a saber


      «Assistiram-se, então, a lágrimas em muitos rostos, em gente simples que até os cachecóis levou para a missa. Os Superdragões depositaram uma coroa, numa homenagem singela a quem, pela palavra era, também, um “superdragão”» («Um adeus emocionado a Pôncio Monteiro», Manuel Luís Mendes, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 60).
      Desta vez o problema não é a regência do verbo assistir, nisso está bem: é um verbo transitivo indirecto e rege a preposição a. O jornalista já deve ter ouvido falar de sujeito indeterminado, mas vagamente. Neste caso, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular, acompanhado do pronome se. Agora o jornalista tenha cuidado e não generalize e confunda. João de Araújo Correia, na obra A Língua Portuguesa, já advertiu: «Quando o pobre se ainda se atreve a apassivar, tomam-no as bocas ineptas como sujeito da proposição. Comparam-no com o on francês. Andam por aí aos baldões fraseados tristes como os seguintes: representou-se comédias, comeu-se batatas e abraçou-se condiscípulos. Se o se é sujeito, coloque-se, como quem o honra, antes do predicado. Tente-se a experiência para se obterem os seguintes luxos: se representou comédias, se comeu batatas e se abraçou condiscípulos. O senhor se ficará parvo de todo com esta honraria. Correram-se as cortinas da tribuna real. Com esta frase começa Rebelo da Silva a descrição de uma tourada. Se fosse repórter do século XX, escreveria: foram corridas as cortinas da tribuna real. Ou então, querendo ser mais chique, tomaria o se como sujeito e escreveria: correu-se as cortinas da tribuna real. Como quem diz: o senhor se correu as cortinas.»

[Post 4219]

Verbo «colocar»

Compulsivamente


      «“Chegou a casa, seco, sem o computador e com muita fome.” Foi assim que Igor, o jovem de 14 anos de Rio de Mouro, Sintra, que se encontrava desaparecido há uma semana, colocou um ponto final no desespero dos seus pais, que até e-mails enviaram para o gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates, solicitando ajuda» («PJ esteve em contacto com jovem desaparecido que regressou ontem», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 23.12.2010, p. 23).
      Caro Carlos Rodrigues Lima, então agora já não se diz nem se escreve «pôr um ponto final»? E aí na redacção ninguém sabia?

[Post 4218]

Como se escreve nos jornais

Mutações


      É ilustrativo da inanidade da crítica ver como para uns a música de Lady Gaga é puro lixo acústico, enquanto para outros é pura harmonia celestial imperdível. Bem, mas não é isso que interessa agora, mas o nome da criatura. Da «loura explosiva», como li há dias, mas esta é uma opinião ainda menos consensual. O nome, pois. Há escassos meses, era Lady GaGa (e podia até ser, a acreditar na fonte de inspiração, Lady Ga Ga); agora, já é Lady Gaga. Descuido ou mera imitação do que se vai escrevendo na imprensa internacional? «O vídeo que promove o novo álbum da cantora Lady GaGa levou 15 milhões de pessoas ao YouTube» («Lady GaGa colocou a irmã no vídeo visto por 15 milhões», Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 56). «Os números antecipados não deixaram ninguém enganado. Os números, entenda-se, das vezes que Lady Gaga mudou de roupa, dos novos temas a ser revelados ao longo do concerto, da quantidade de camiões que transportam na estrada todo o aparato cénico que transporta a Monster Ball Tour» («O baile de orgulho de Lady Gaga e os seus ‘monstrinhos’», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 12.12.2010, p. 58).

[Post 4217]

Risco de vida/risco de morte

Na fronteira


      Risco de vida/risco de morte. São ambas elípticas, isso é claro: risco de perder a vida e risco de encontrar a morte. Mas qual é a mais comum na língua portuguesa? Sem qualquer espécie de dúvida, a primeira, mas com a segunda a impor-se graças (parece) aos que antepõem a lógica à linguística. Entre eles, num dado passo mal dado, Camilo Castelo Branco. Noutras línguas, porém, também existem (mas com isso podemos nós bem) as duas formas: risk of life e risk of death, em inglês, riesgo de vida e riesgo de muerte em espanhol, risque de vie e risque de mort em francês. Posto isto, será razoável perder tempo a tentar descortinar a legitimidade de uma em detrimento da outra?

[Post 4216]

Redacção

Onde fica o não


      Imaginem que alguém escrevia esta frase: «Agora temos de analisar cuidadosamente as razões a favor de x.» Reflectia e acrescentava: «O problema é que não parece haver muitas.» Aparecia o cônjuge e alterava: «O problema é que parece não haver muitas.» Quem tem razão? Há aqui matizes a considerar? Está aberta a antena.

[Post 4215]

Recursos

Queremos saber


      Renasceu o Clube de Matemática da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), projecto que devemos acompanhar de perto. Até porque, afinal, como revela Nuno Crato, da SPM, «o primeiro clube deste género em Portugal foi fundado em 1942. E o mais curioso é que não foi lançado numa faculdade de ciências, nem numa escola de engenharia. Apareceu na Faculdade de Letras de Lisboa, porque os estudantes de Línguas e Literatura achavam interessante completar a sua formação — por isso não se queriam esquecer da Matemática e desejavam estar a par dos grandes temas de ciência».

[Post 4214]

Ortografia espanhola

Reformas aqui ao lado


      Depois de oito anos de trabalho aturado, a Real Academia Española (RAE) publicou a nova edição da Ortografía, coordenada por Salvador Gutiérrez Ordóñez. Doravante, em espanhol, os substantivos que designam títulos nobiliárquicos, dignidades e cargos ou empregos de qualquer categoria (civis, militares, religiosos, públicos ou privados) devem escrever-se com minúscula inicial por serem nomes comuns. A nova edição tem, como seria de esperar, muitas outras alterações nas suas 746 páginas. Outra é a opção da grafia Catar em vez de Qatar. E mais: monossílabos como guion e truhan deverão escrever-se sem acento; o o entre números tão-pouco levará acento («será 5 o 6» e não, como até agora, «5 ó 6»); exmarido escrever-se-á junto, mas ex capitán general, separado.

[Post 4213]

«Teraelectrão-volt». Plural

Se não for, está mal


      Filomena Naves entrevistou o director do CERN, Rolf Heuer, para o Diário de Notícias. Eis a primeira pergunta: «O LHC está a operar desde Março a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina: 7 teraelectrão-volt (TeV). Está para breve a descoberta do bosão de Higgs (a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares)?» («‘Dentro de dois anos podemos ter grandes novidades’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 30).
      Não faltam fontes em que se lê precisamente o mesmo. Contudo, o plural de electrão-volt não é electrões-volt? Então o plural de teraelectrão-volt terá de ser teraelectrões-volt.
      No recentíssimo Decreto-Lei n.º 128/2010, de 3 de Dezembro (cuja referência agradeço ao leitor Fernando Ferreira), diploma que actualiza o sistema de unidades de medida legais, transpondo a Directiva n.º 2009/3/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Março, alterando pela segunda vez o Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 de Setembro, no uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 18/2010, de 16 de Agosto, não se lê, naturalmente, nada sobre o plural de «electrão-volt». Nem fala de «teraelectrão-volt», nem seria necessário, pois publica uma tabela com os múltiplos e os submúltiplos e uma alínea estatui: «Os nomes dos múltiplos e submúltiplos são formados pela simples junção do prefixo ao nome da unidade.» Nem uma palavra sobre o plural das unidades, que, salvo melhor opinião, devem seguir as regras gerais da língua. Sobre plurais, somente isto, questão para a qual já aqui chamei a atenção bastas vezes: «Os símbolos das unidades ficam invariáveis no plural.» Os símbolos, não as unidades.

[Post 4212]

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