Como se escreve nos jornais

Tirem um curso


      «Os investigadores do GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] detectaram que os flaps “estavam na posição UP”. “Aguarda-se o depoimento do piloto [Diogo Cantinho, de 19 anos] para saber se foi intencional este acto ou se foi consequência da acção dos populares aquando do resgate da aeronave”» («Piloto vai ter de explicar o que aconteceu ao avião que caiu», Luís Fontes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 20).
      Talvez Luís Fontes saiba o que são flaps na posição UP, mas decerto que não o leitor médio, arredado da aeronáutica. Quanto a «flap», os Brasileiros dizem «freio aerodinâmico», ou dão-lhe feição portuguesa: flape. E o Dicionário Houaiss regista que flape é a «parte da asa de um avião que pode ser deslocada por rotação em torno de um eixo paralelo à envergadura, a fim de alterar a forma geral e as características aerodinâmicas».

[Post 4211]

Tradução

Eh lá


      Não podemos é desatar a aportuguesar tudo quanto nos aparece pela frente. Um exemplo. Durante a II Guerra Mundial, o Governo japonês distribuía pelas famílias um cereal castanho-avermelhado anteriormente dado apenas como ração aos cavalos. A este grão era dado o nome de koren ou korian (na transliteração inglesa). Não vamos agora aportuguesar o vocábulo, como acabei de ver, para «coreano». A única solução passava por saber qual o nome científico e então procurar conhecer se há designação comum em português. Até porque aportuguesar daquela maneira, se fosse legítimo e correcto, acarretaria igualmente o problema de se gerar confusão com o gentílico «coreano» (Korean), e naquela época ainda o Japão era uma potência em expansão e eram levados coreanos para o Japão e reduzidos à escravatura. Tudo junto, o cereal coreano e os cidadãos coreanos, na mesma obra seria demasiado.

[Post 4210]

Topónimo: «Cardife»

É pena


      «A polícia britânica prendeu ontem 12 homens suspeitos de estarem a preparar um ataque terrorista, numa série de operações policiais ao amanhecer em Inglaterra e no País de Gales. A polícia de West Midlands informou que cinco dos suspeitos foram detidos na cidade galesa de Cardiff, quatro em Stoke-on-Trent e três em Londres» («Polícia prende 12 suspeitos de planear ataque terrorista», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 21.12.2010, p. 13).
      Durante décadas e décadas, na imprensa o que se lia era Cardife. Até Eça de Queirós usava com esta grafia. É ver também as portarias do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo. Agora consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vemos? Isto: «cardife nome masculino designação da hulha proveniente de Cardiff, capital do País de Gales».

[Post 4209]

Acordo Ortográfico

Imagem tirada daqui
Ainda picam


      A revista Visão lá continua com os seus «espetadores»: «Em três semanas de exibição em Portugal o documentário Saramago e Pilar [sic], de Miguel Gonçalves Mendes (na foto) já teve 11 300 espetadores» («SMS», Visão, 16.12.2010, p. 152). Ainda se lembram do que escreveu Vasco Graça Moura? «Quer dizer que tal como “espetadores”, termo alvoroçadamente cunhado pelo Expresso quando anunciou a sua entrada triunfal na mais silly das áreas, a do Acordo Ortográfico, até uma publicação com a responsabilidade cultural do J/L não se coíbe de lançar mão de uma portentosa compendiação de asneiras» («‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).

[Post 4208]

«Provisão», uma acepção

Já que fala nisso

      O serviço postal britânico, o Royal Mail, pode vir a ser adquirido pelo serviço público de correios da Alemanha. Por isso mesmo, a efígie da rainha Isabel II poderá vir a desaparecer — oh! — dos selos britânicos. Lê-se hoje no Diário de Notícias: «Uma fonte do Governo britânico, citada pelo jornal The Mail on Sunday, admitiu existir uma omissão na lei: “Faltou uma provisão na legislação que obrigasse o futuro proprietário da empresa a usar a imagem da Rainha”» («Rainha Isabel II pode desaparecer dos selos britânicos até 2012», Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 23).
      É acepção relativamente rara, esta do vocábulo provisão. Habitualmente, quando surge, é num contexto em que também surgem os vocábulos «cheque» ou «cargo». E porque aparece ele aqui? Simples: foi usado o vocábulo «provision» na notícia do The Mail on Sunday.
[Post 4207]

Verbo «morar»

Uso e desuso

      «O Google Earth permite-me ir espreitar a mangueira que ainda dá sombra àquela rua luandense que deixei de morar há 40 anos, e o Street View mostra-me, como só por mim não imaginaria, o que são os 40 centímetros de neve que a minha filha me disse cobrirem a sua cidade — uma e outra, essas invenções do Google têm gente dentro» («O Google Body e o meu voto», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 52).
      Não quereria Ferreira Fernandes escrever «rua luandense em que deixei de morar»? Claro que não. Apesar de invulgar, esta construção do verbo morar como transitivo pode ler-se, por exemplo, em Herculano: «Doou D. João I, também, as casas que o mestre morava.» Todavia, é uma regência desusada actualmente.
[Post 4206]

Guantánamo e Guantânamo

Uma variante

      Em toda a imprensa portuguesa lemos o topónimo Guantánamo. Até há dias, era assim sem excepção. «A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos recusou na madrugada de ontem o encerramento da prisão de Guantánamo» («Guantánamo. A prisão que Obama prometeu fechar vai continuar aberta», Mariana de Araújo Barbosa, i, 10.12.2010, p. 313). Mas eis que leio na Sábado: «Por fim, é preciso saber ler o “diplomatês”, ou até mesmo o inglês, e ser fiel ao que lá está, para evitar a manipulação descuidada que tem vindo a ser feita dos telegramas já conhecidos sobre os voos de repatriação de Guantânamo, uma política pública e conhecida ao ponto de até haver presos recolocados em Portugal, confundidos com os voos para a prisão em Cuba, de que até agora não há traços nos telegramas» («Mediações», José Pacheco Pereira, Sábado, 16.12.2010, p. 13).
[Post 4205]

Sujeito indeterminado

Emende-se

      Já sei quem é o jornalista: António Torrado. Continua a dizer: «Neste momento, procedem-se a trabalhos de limpeza na via.» Correcto é, e que alguém lhe transmita a informação: «Neste momento, procede-se [ou procedem] a trabalhos de limpeza na via.» O sujeito é indeterminado e só há duas maneiras de o indeterminar: a) com o verbo na 3.ª pessoa do singular mais o pronome se; b) com o verbo na 3.ª pessoa do plural, sem o se.
[Post 4204]

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