Recursos

Algo se aprende


      De vez em quando, é bom ver o que anda a fazer a Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia. Melhor, a Dirección General de Traducción de la Comisión, pois falo dos espanhóis. Publicados ambos em Agosto, temos o Guía del Departamento de Lengua Española I (Redacción y presentación) e o Guía del Departamento de Lengua Española II (Problemas y dudas de traducción).

[Post 4203]

Plural de «refrão»

Pode continuar igual


      «Se lhe falássemos em Stefani Germanotta, a associação com a loira explosiva de 24 anos que pôs o mundo a cantarolar os seus refrães não seria imediata» («Lady Gaga. De carne e osso para os pequenos monstros», Nelma Viana, i, 10.12.2010, p. 34).
     Refrães. Perfeito. Dantes, era este o único plural de refrão. É o que regista, por exemplo, o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Ultimamente, como que a pedido, pela possível estranheza causada, alguns dicionários passaram a acolher também o plural refrãos.

[Post 4202]

Ph.D. Dissertation

Ou não é?


      Na semana passada, um professor universitário falava do número de teses de mestrado feitas em Portugal. Hoje, isto: «defendi com êxito a minha dissertação de doutoramento», escreveu alguém. Traduziu daqui: «I successfully defended and passed my Ph.D. Dissertation.» Não interessa, no caso vertente, como é no mundo académico anglo-saxónico, ou talvez importe dizer somente isto: há diferenças de país para país e mesmo de universidade para universidade. Interessa é como é entre nós. Ora, já vimos aqui que a diferença, em Portugal, dimana da própria lei. Assim, é dissertação de mestrado e tese de doutoramento.

[Post 4201]

Selecção vocabular

Uma faceta mais...


      «Nas cartas que serão licitadas em França revela-se uma faceta mais interior do implacável imperador, que dizia gostar de “mulheres com passado e homens com futuro”. “O meu marido não me ama, adora-me, creio que um dia ficará louco”, escreveu Josephine numa carta datada de 1796 e remetida a uma amiga próxima, Madame Tallien, poucos meses após o casamento com Napoleão» («Íntimo de Napoleão a nu nas cartas de Josephine», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 56).
      Há uma íntima relação entre interior e íntimo, mas não se confundem, pelo menos nos usos que se lhes dão. E até se podiam carrear para aqui mais alguns: interno, imo e, no limite, esotérico (que é um comparativo em grego e, etimologicamente, significa «mais íntimo»). Interior é relativo à parte de dentro; interno. É verdade que também o usamos referido à alma, ao espírito, mas não é o caso em apreço. Seria então íntimo, que tem origem ou que existe no âmago de uma pessoa; de que participam somente aqueles com que se tem estreita relação de amizade ou familiaridade.

[Post 4200]

Selecção vocabular

Em última instância


      «À porta da instância jurídica de Milão, Fabrizzio Corona, que viu o colectivo de juízes reduzir-lhe a pena inicial, de três anos e oito meses, reclamou inocência. E assegurou lutar “até ao fim” em defesa do seu nome. “Quando se acredita em algo, é o que se deve fazer... Pensava que existia justiça, mas não. Não estou orgulhoso de ser italiano”, atirou o fotógrafo» («‘Rei dos paparazzi’ vai cumprir um ano de prisão», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 8.12.2010, 51).
      «À porta da instância jurídica de Milão». Há-de parecer a alguns algo supinamente inteligente — mas é apenas um disparate. Os tribunais estão divididos em tribunais de 1.ª instância e em tribunais de 2.ª instância. Aqueles são os tribunais que julgam o caso, habitualmente tribunais de comarca, estes são os tribunais da Relação, que julgam os recursos. As instâncias superiores são os tribunais de jurisdição superior desde os da Relação até ao Supremo. E faço notar que a organização judiciária civil italiana é semelhante à nossa.
      O artigo começava assim: «O Tribunal de Milão, Itália, condenou o paparazzo italiano Fabrizio Corona a uma pena de prisão de um ano e cinco meses por chantagem.» O Tribunal de Milão (Tribunale di Milano) é um tribunal de recurso, a Corte d’Appello di Milano. A jornalista deveria ter explicado com estas minudências? Evidentemente que não. Devia apenas ter evitado usar, e usar erradamente (porque se trata de um conceito relacional), conceitos complexos. «À porta do tribunal, etc.»

[Post 4199]

Tradução: «web stall»

Imagem tirada daqui

Por uma vez


      Estão a ver aquelas tiras de tecido à frente do cavalo? Em inglês dá-se-lhes o nome de webbing ou web stall, nome sugestivo. E em português? Podemos encontrá-las à venda com o nome de «cortina de boxe». Se eu as fabricasse e comercializasse, dar-lhes-ia o nome de teia de baia. Sim, colado ao inglês — e, neste caso, bem.

[Post 4198]

«Demais/de mais»

Agora é que é


      «Afinal não é ainda tarde demais para os ursos-polares. Esta é a boa notícia de hoje na Nature, que faz capa do tema a partir de um artigo de cientistas dos Estados Unidos e do Canadá. O seu estudo indica que, se as emissões de gases com efeito de estufa forem reduzidas nas próximas duas décadas, as grandes extensões de gelo do Pólo Norte, que são o habitat destes animais, têm grandes hipóteses de não desaparecer do mapa» («Ainda há tempo para salvar os ursos-polares», Filomena Naves, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 30).
      E como escreveriam, na frase acima, os meus leitores: demais ou de mais? Por demais explorada e mastigada, é ainda assim uma questão gramatical que importa rememorar.

[Post 4197]

Ortografia

Não é blasfémia


      «Porém, nem só de mar se escreve a história do Bairro Alto. Na Travessa da Água-da-Flor, onde terá vivido um afamado fabricante ou vendedor daquele perfume, teve lugar o episódio que deu origem à palavra “conto-do-vigário”. Terá sido entre os números 24 e 26 que, no século XIX, foi encontrado o padre Manuel Vicente, depois de ter sido embebedado e de ter sido convencido a vender a sua casa por 7500 réis. A história correu os jornais da época, que utilizaram como manchete “o conto-do-vigário”, disse Elisabete Rocha» («Ruas revelam Bairro de marinheiros», Inês Banha, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 21).
      Palavra, sim, segundo os dicionários, mas, já o vimos aqui recentemente em relação a outra, devia ser uma locução: conto do vigário. O pulcro Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista, mas existe o vocábulo vígaro, de génese popular, e com duas acepções: vigarista e vigário. Assim, na história do padre Manuel Vicente, havia um vígaro e um vigário, ou, com equívoco mas propriedade, dois vígaros. Nestas comedelas há sempre um vigarista e um crédulo e ambicioso.

[Post 4196]

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