Ph.D. Dissertation

Ou não é?


      Na semana passada, um professor universitário falava do número de teses de mestrado feitas em Portugal. Hoje, isto: «defendi com êxito a minha dissertação de doutoramento», escreveu alguém. Traduziu daqui: «I successfully defended and passed my Ph.D. Dissertation.» Não interessa, no caso vertente, como é no mundo académico anglo-saxónico, ou talvez importe dizer somente isto: há diferenças de país para país e mesmo de universidade para universidade. Interessa é como é entre nós. Ora, já vimos aqui que a diferença, em Portugal, dimana da própria lei. Assim, é dissertação de mestrado e tese de doutoramento.

[Post 4201]

Selecção vocabular

Uma faceta mais...


      «Nas cartas que serão licitadas em França revela-se uma faceta mais interior do implacável imperador, que dizia gostar de “mulheres com passado e homens com futuro”. “O meu marido não me ama, adora-me, creio que um dia ficará louco”, escreveu Josephine numa carta datada de 1796 e remetida a uma amiga próxima, Madame Tallien, poucos meses após o casamento com Napoleão» («Íntimo de Napoleão a nu nas cartas de Josephine», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 56).
      Há uma íntima relação entre interior e íntimo, mas não se confundem, pelo menos nos usos que se lhes dão. E até se podiam carrear para aqui mais alguns: interno, imo e, no limite, esotérico (que é um comparativo em grego e, etimologicamente, significa «mais íntimo»). Interior é relativo à parte de dentro; interno. É verdade que também o usamos referido à alma, ao espírito, mas não é o caso em apreço. Seria então íntimo, que tem origem ou que existe no âmago de uma pessoa; de que participam somente aqueles com que se tem estreita relação de amizade ou familiaridade.

[Post 4200]

Selecção vocabular

Em última instância


      «À porta da instância jurídica de Milão, Fabrizzio Corona, que viu o colectivo de juízes reduzir-lhe a pena inicial, de três anos e oito meses, reclamou inocência. E assegurou lutar “até ao fim” em defesa do seu nome. “Quando se acredita em algo, é o que se deve fazer... Pensava que existia justiça, mas não. Não estou orgulhoso de ser italiano”, atirou o fotógrafo» («‘Rei dos paparazzi’ vai cumprir um ano de prisão», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 8.12.2010, 51).
      «À porta da instância jurídica de Milão». Há-de parecer a alguns algo supinamente inteligente — mas é apenas um disparate. Os tribunais estão divididos em tribunais de 1.ª instância e em tribunais de 2.ª instância. Aqueles são os tribunais que julgam o caso, habitualmente tribunais de comarca, estes são os tribunais da Relação, que julgam os recursos. As instâncias superiores são os tribunais de jurisdição superior desde os da Relação até ao Supremo. E faço notar que a organização judiciária civil italiana é semelhante à nossa.
      O artigo começava assim: «O Tribunal de Milão, Itália, condenou o paparazzo italiano Fabrizio Corona a uma pena de prisão de um ano e cinco meses por chantagem.» O Tribunal de Milão (Tribunale di Milano) é um tribunal de recurso, a Corte d’Appello di Milano. A jornalista deveria ter explicado com estas minudências? Evidentemente que não. Devia apenas ter evitado usar, e usar erradamente (porque se trata de um conceito relacional), conceitos complexos. «À porta do tribunal, etc.»

[Post 4199]

Tradução: «web stall»

Imagem tirada daqui

Por uma vez


      Estão a ver aquelas tiras de tecido à frente do cavalo? Em inglês dá-se-lhes o nome de webbing ou web stall, nome sugestivo. E em português? Podemos encontrá-las à venda com o nome de «cortina de boxe». Se eu as fabricasse e comercializasse, dar-lhes-ia o nome de teia de baia. Sim, colado ao inglês — e, neste caso, bem.

[Post 4198]

«Demais/de mais»

Agora é que é


      «Afinal não é ainda tarde demais para os ursos-polares. Esta é a boa notícia de hoje na Nature, que faz capa do tema a partir de um artigo de cientistas dos Estados Unidos e do Canadá. O seu estudo indica que, se as emissões de gases com efeito de estufa forem reduzidas nas próximas duas décadas, as grandes extensões de gelo do Pólo Norte, que são o habitat destes animais, têm grandes hipóteses de não desaparecer do mapa» («Ainda há tempo para salvar os ursos-polares», Filomena Naves, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 30).
      E como escreveriam, na frase acima, os meus leitores: demais ou de mais? Por demais explorada e mastigada, é ainda assim uma questão gramatical que importa rememorar.

[Post 4197]

Ortografia

Não é blasfémia


      «Porém, nem só de mar se escreve a história do Bairro Alto. Na Travessa da Água-da-Flor, onde terá vivido um afamado fabricante ou vendedor daquele perfume, teve lugar o episódio que deu origem à palavra “conto-do-vigário”. Terá sido entre os números 24 e 26 que, no século XIX, foi encontrado o padre Manuel Vicente, depois de ter sido embebedado e de ter sido convencido a vender a sua casa por 7500 réis. A história correu os jornais da época, que utilizaram como manchete “o conto-do-vigário”, disse Elisabete Rocha» («Ruas revelam Bairro de marinheiros», Inês Banha, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 21).
      Palavra, sim, segundo os dicionários, mas, já o vimos aqui recentemente em relação a outra, devia ser uma locução: conto do vigário. O pulcro Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista, mas existe o vocábulo vígaro, de génese popular, e com duas acepções: vigarista e vigário. Assim, na história do padre Manuel Vicente, havia um vígaro e um vigário, ou, com equívoco mas propriedade, dois vígaros. Nestas comedelas há sempre um vigarista e um crédulo e ambicioso.

[Post 4196]

Ortografia: «lengalenga»

Não conheço, não


      «Devem recordar-se de uma antiga lenga-lenga a que as crianças ainda acham graça e apreciam cantar e que reza assim: “Há fogo, há fogo, nas cuecas do Diogo” («A tia louca da família», João Bonifácio, Público, 12.12.2010, p. 14).
      Podia ser, sim senhor, mas não é assim, antes lengalenga. É habitual este erro, e já aqui o abordámos mais profundamente.

[Post 4195]

Títulos jornalísticos

Os adolescentes sabem


      «“Fazer um título é complicado na medida em que é difícil encontrar uma fórmula que intrigue o leitor, que seja chamativa, não seja especulativo e que informe”, disse Bárbara Almeida, de 14 anos, aluna da Escola Básica Paulo da Gama, na Amora» («Alunos aprendem a fazer títulos e a vencer dificuldades», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 67). Estão a ver como uma adolescente, em visita ao Media Lab do Diário de Notícias, sabe como fazer um título jornalístico? Na última crónica do provedor do Público, esta questão foi abordada. Em causa estava um título abstruso: «Só ameaça de demissão de Assis travou revolta na Bounty socialista». Recomenda no fim o provedor, José Queirós: «“Revolta”, embora aparentemente pífia, ainda vá. Agora “na Bounty”, a que propósito? Se a isto juntarmos que em nenhuma parte do destaque se explica o que foi essa “revolta na Bounty”, podemos concluir que a escolha de um título algo críptico, e por isso menos eficaz, deveria ter sido evitada» («Títulos para descodificar», Público, 12.12.2010, p. 39).

[Post 4194]

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