Tradução: «resort»

Como a pessoa amada


      Outro anglicismo completamente desnecessário — e tão na moda que todo o bicho-careta procura desesperadamente ocasião de o usar — é resort. Muito se usa e abusa, hoje em dia, da palavrinha. Os jornalistas, esses grandes propinadores destes venenos de venda livre, começaram a usá-lo há não mais de meia dúzia de anos. Alguns tradutores também o acham necessário para exprimir um conceito que reputam completamente alheio. E estância, meus senhores, essa linda palavra? Acrescentem «balnear», «de Verão», «de Inverno».
      O mal dos estrangeirismos é que dão muito nas vistas. «A língua», como escreveu João de Araújo Correia na obra A Língua Portuguesa, «não deve mudar a olhos vistos. Deve ser como pessoa amada, que todos os dias se modifica sem que o notemos.»

[Post 4177]

Tradução: «panel»

Temos melhor


      Tinha de ser: o «panel of three veterinarians» transmutou-se em «painel de três veterinários», como se faltasse termo em português para traduzir aquele banal panel. Não usamos para conferência de médicos a locução junta médica? Então, «junta de três veterinários». E não é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite esta acepção de «junta»?! O mais próximo que regista é «grupo de pessoas com um dado fim, comissão».

[Post 4176]

Sobre «franco-canadiano»

Francês do Quebeque


      Não é interessante que franco-canadiano também designe um canadiano francófono? Bem, não acontece o mesmo com outros compostos, nem sequer com compostos com o mesmo primeiro elemento. Esperem, esta acepção é um anglicismo. Então, French Canadian traduz-se por...? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que franco-canadiano, como substantivo, é a pessoa francesa que tem ascendência canadiana. Será mesmo? Mas habitualmente considera-se que a ordem dos elementos é arbitrária, sem variação de significado. Logo porque não há-de designar — sim, invertam agora: canado-francês — também o canadiano que tem ascendência francesa? Aliás, em inglês tem esses mesmos (e só esses) sentidos: franceses que chegaram nos séculos XVII e XVIII ao Canadá (sentido histórico, do qual derivou o actual, de canadiano descendente de franceses) e canadianos francófonos.

[Post 4175]

Pronúncia

Faz-me impressão


      Rui Pereira, ministro do Interior, perdão, da Administração Interna, estava hoje de manhã em Tomar, «no terreno», para avaliar os danos causados pelo minitornado. O repórter Paulo Brás, da Antena 1, acompanhou a visita e disse que o ministro acabara de fazer um «breve briefing com as autoridades». Rui Pereira quis manifestar o seu apreço pelo trabalho da Protecção Civil e da Câmara Municipal e garantiu que iria ser accionado o fundo de emergência municipal e que iria falar com o ministro da Economia para que o IAPMEI «acorresse a quaisquer necessidades». E como pronunciou o vocábulo «economia»? Pois claro, ¦ikunumía¦. Quem fala assim, por favor, levante o dedo.

[Post 4174]

Unidades de medida

É diferente


      Nas traduções, o erro espreita aqui e ali. As rações de um potro foram gradualmente aumentadas, «up to five and finally to six quarts of grain a day». Não se pode dizer que foi «para cinco e finalmente seis quartas de cereal». Também temos quartas, claro, mas a nossa quarta é a quarta parte do alqueire, do arrátel, da vara. O quart do original é um quarto de galão, que é diferente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, é há para volume seco e para líquidos. No caso, é seco. Sobretudo os dicionários bilingues inglês-português, e tenho à minha frente o da Porto Editora, registam que o galão nos EUA é equivalente a 3,785 litros. Mas para volume seco, deveriam acrescentar, é equivalente a 4,404 884 litros, e a divisão é em quartos, sim.
      Em quanto foi aumentada, afinal, a ração do potro? Pelas minhas contas, arredondando, deveria ter-se dito que as rações do potro «foram gradualmente aumentadas para 5,5 l e finalmente 6,6 l de cereal». Conferem? É um problema de falsos cognatos, mas também de precipitação.

[Post 4173]

Bíblia e tradução

Entre nós


      Também embirro (mas não digam a ninguém) com Revelation traduzido por... Revelação. Na nossa tradição, o último livro da Bíblia é o Apocalipse. É, bem sei, o mesmo, pois «apocalipse» é um termo grego que significa precisamente «revelação».
      Mera divagação, queria falar de outra questão. Lembram-se do que aqui disse sobre o verbo inverter? Vejam este título do Diário de Notícias: «Passos diz que vai demorar duas legislaturas para inverter os erros». Contudo, a afirmação de Pedro Passos Coelho que justificou o título é esta, reproduzida no mesmo artigo: «Corrigir os últimos anos de inconsciência vai demorar vários anos de dificuldades e até penúria» (Paula Carmo, Diário de Notícias, 29.11.2010, p. 9). Então, sendo assim, melhor teria sido titular: «Passos diz que vai demorar duas legislaturas para corrigir os erros». Isso de «inverter» os erros, próprios ou alheios, parece-me coisa impossível — e malissimamente escrita.

[Post 4172]

Como se escreve nos jornais

Estamos bem arranjados


      Até um jornalista como Eurico de Barros confunde rebuliço com reboliço. «Foi uma surpresa total. Eu fui com uma pessoa amiga que é de lá e ele tinha-me passado fotografias e vídeos, e achei que ia encontrar um lugar cinzento, triste, destruído. E aquilo que vou encontrar é completamente diferente. Pristina é uma cidade pequena, mas em constante reboliço, com muita construção, imensa gente, muita gente jovem, muitas raparigas bonitas — não estava mesmo à espera disto! —, tudo me surpreendeu. Pensei que ia para um lugar com todos os motivos para ser triste e deprimente, mas que acabou por não o ser» («“Fiquei surpreendido com o que encontrei no Kosovo”», Eurico de Barros entrevista o autor e ilustrador português Ricardo Cabral, Diário de Notícias, 29.11.2010, p. 48).
      (Oportunidade para ver aqui a excelente obra de Ricardo Cabral.)

[Post 4171]

Como se escreve nos jornais

Despeçam-no


      Até um porco (pelo menos um porco piemontês) sabe que há muitas trufas em Alba. E onde fica Alba?, perguntam. O porco fala por si. O jornalista que escreveu o artigo «Stanley Ho paga 249 mil euros por trufa» (29.11.2010, p. 35) no Diário de Notícias acha que é no Piedmont, no Noroeste da Itália, estão a ver? «E têm uma curiosidade: utilizam-se cães ou porcos para as farejar enterradas na terra. As mais famosas são oriundas de Alba, na província de Piedmont, no Norte de Itália, e apanhadas entre Setembro e Dezembro. À semelhança de outros anos, as trufas deverão ser cozinhadas pelo chef do Gran Lisboa Hotel, em Macau.»

[Post 4170]

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