Tradução: «jamming»

Procurem


      «Nas suas deslocações vai usar, pelo menos, quatro viaturas blindadas. Uma delas para seu transporte e as outras três de segurança. Um destes veículos está equipado com material de “empastelamento” de comunicações, ou jamming, e tem como missão exclusiva bloquear todas as comunicações telefónicas ou de rádio nas zonas por onde passe a comitiva» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo «empastelamento». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-o: «MILITAR irradiar ou reflectir deliberadamente energia electromagnética com o fim de impedir a utilização, pelo inimigo, dos seus sistemas de telecomunicação».

[Post 4100]

Como se escreve nos jornais

Na Lua


      «[Allan Sandage, 1926―2010] Foi um dos astrónomos mais influentes da área da cosmologia, tendo escrito mais de 500 artigos e livros sobre o universo, a evolução e comportamento das estrelas, a descoberta do primeiro quasar, o nascimento da galáxia Milky Way» («O homem que dedicou a vida a medir a expansão do universo», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 45).
      Também eu gostava de escrever obituários, mas não ia trocar assim as línguas. Milky Way em inglês, em português é Via Láctea.

[Post 4099]

Itálico

É pena


      «Segundo a mitologia nórdica, Erik, o Vermelho, foi o primeiro a pisar a Gronelândia e o seu filho, Leif Eriksson, o primeiro a chegar à América, por volta do ano 1000 d.C. Teria sido ele, ou alguém próximo, a trazer a ameríndia, cujos genes se encontram hoje nas quatro famílias estudadas. Em 1960, foram encontrados na Terra Nova (Canadá) vestígios de um acampamento típico dos viquingues. Alguns acreditam tratar-se de Leifsbúoir, descrito na famosa Saga de Erik o Sanguinário» («Viquingues trouxeram uma ameríndia para a Europa há mil anos», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 27). «As Três Graças, um pequeno quadro no qual três jovens nuas exibem a sua luminosidade jovial sobre um fundo sombrio, é da autoria do alemão Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), cuja obra passou sobretudo pelo retrato e pela representação de temas religiosos» («Louvre pede um milhão para comprar quadro», J. E. M., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 50).
      Falta uma visão de conjunto, o olhar de alguém que vele pela aplicação uniforme das regras.

[Post 4098]

«Bem-sucedido»/«bem sucedido»

Critério


      «Estes regimentos, concebidos durante as reformas militares de 1870-1880, baseavam-se nos regimentos do exército alemão, na altura um dos mais bem-sucedidos do mundo» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 41). «Tinha agora toda a liberdade para escrever o que quisesse e, embora a sua experiência de campanha servisse de material para a sua segunda narrativa militar, The River War, que seria tão bem sucedida como a anterior, o seu interesse já estava virado para outras questões, nomeadamente a política e o amor» (idem, ibidem, pp. 53.-54). «Em Inglaterra, o seu quarto livro, London to Ladysmith via Pretoria, foi tão bem-sucedido como os três anteriores e permitiu-lhe tornar-se financeiramente independente, pelo menos por algum tempo, enquanto a sua lucrativa actividade jornalística lhe trouxe ama» (idem, ibidem, pp. 59-60).
      Nem sequer se trata do critério — arbitrário, previna-se o leitor — que se adivinha no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa.

[Post 4097]

Linguagem

Virilidade verbal


      «Quando um cabo da GNR, irritado com o facto de não ter conseguido uma troca na escala de serviço, se dirige ao seu superior, dizendo “não dá pra trocar, então prò c...”, está a cometer um crime de insubordinação ou apenas a desabafar? Este debate percorreu o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e o Tribunal de Instrução Criminal, chegando, a 28 de Outubro deste ano, ao Tribunal da Relação de Lisboa, que encerrou o caso: o cabo não deve ser julgado, porque a expressão utilizada é um “sinal de mera virilidade verbal.” […] E para fundamentar tal decisão, os desembargadores fazem uma extensa análise da expressão “prò c...” que, no fundo, era o que estava em causa no autos. Concluíram que há contextos em que a utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma. Um pouco de história: “Para uns a palavra ‘c...’ vem do latim caraculu que significava pequena estaca, enquanto que, para outros, este termo surge utilizado pelos portugueses nos tempos das grandes navegações para, nas artes de marinhagem, designar o topo do mastro principal das naus, ou seja, um pau grande. Certo é que, independentemente da etimologia da palavra, o povo começou a associar a palavra ao órgão sexual masculino, o pénis. Porém, continuam os juízes, “é público e notório, pois tal resulta da experiência comum, que ‘c...’ é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo ‘prò c...’ é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas (‘chove pra c...’; ‘o Cristiano Ronaldo joga pra c...’; ‘moras longe pra c...’; ‘o ácaro é um animal pequeno pra c...’; ‘esse filme é velho pra c...’)”» («Afinal mandar “prò c...” é apenas virilidade verbal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 23).
      A própria expressão «virilidade verbal» é português pra caralho, diria um cabo da GNR.

[Post 4096]

Compostos com o prefixo «bem»

Como calha


      «As vítimas nunca desconfiavam do indivíduo. “Bem falante e possível herdeiro de empresas” convencia os lesados a entrar no negócio, prometendo uma taxa superior à da banca, mesmo na ordem dos cem por cento, independentemente do prazo do investimento. Presente ao juiz de instrução em primeiro interrogatório ficou em prisão preventiva» («Futebolistas vítimas de burla milionária», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 18).
      O jornalista esqueceu-se de uma regra elementar: usa-se hífen nos compostos formados com o prefixo bem, quando o segundo elemento começa por vogal ou h, ou então quando começa por consoante, mas está em perfeita evidência de sentido: bem-aventurado, bem-aventurança, bem-humorado; bem-criado, bem-fadado, bem-fazente, bem-fazer, bem-querente, bem-querer, bem-vindo. Quanto à pontuação, o melhor é nem falar.

[Post 4095]

Elemento de formação

Em cima do joelho


      «A Power Balance Espanha dizia, em Abril, ter vendido 300 mil pulseiras pseudo milagrosas, o que supõe lucros de dez milhões de euros” [sic], denuncia a Facua» («Pulseiras do equilíbrio multadas em Espanha», C. N., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 18).
      C. N. (Céu Neves?), então agora deixa assim um elemento de formação de palavras desamparado? Vá lá, um esforçozinho. A tradução também não é primorosa: «Power Balance España presumía en abril de haber vendido unas 300.000 pulseras seudomilagrosas, lo que supondría unos ingresos de en torno a 10 millones de euros.»

[Post 4094]

Léxico: «siren suit»

Peter McIntyre, Churchill in Siren Suit, August 1942. Imagem daqui

Inconfundível


      «Já Churchill, com o seu siren suit disforme, a sua cartola engraçada e o inconfundível charuto encravado entre os dedos moles, tinha um ar muito pouco heróico» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 9). Sim, intraduzível. Tanto que o tradutor se viu obrigado a usar a expressão e a explicá-la em nota de rodapé: «O siren suit era um fato-macaco especial de lã azul, com um fecho de correr frontal e um cinto, que Churchill ajudou a popularizar durante a Segunda Guerra Mundial e cujo propósito era poder ser vestido rapidamente e manter o seu utilizador quente em caso de bombardeamentos alemães (n. do t.).»

[Post 4093]

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