Ortografia: «martainha»

Quentes e boas


      «As castanhas assadas e o vinho novo continuam a ser protagonistas da Feira de S. Martinho, que começou ontem em Penafiel e vai prolongar-se até ao próximo dia 21 deste mês, e nem a crise faz com que os visitantes deixem de comprar um quarteirão de castanhas e beber “uma malga” de vinho. […] A dois euros o quarteirão, Fátima Sousa tem vendido “ao mesmo preço” do ano passado» («Crise não atinge castanhas e vinho novo no São Martinho», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 12.11.2010, p. 21).
      Não sabia que as castanhas assadas eram vendidas ao quarteirão. Bem, mas há outras questões. No Correio da Manhã, lia-se isto: «Este é, aliás, o valor pago por quilo aos produtores de castanha. Nos supermercados, o preço da castanha ‘martaínha’ dispara e pode chegar a custar seis vezes mais daquilo que é recebido pelos agricultores» («Crise obriga a reduzir castanha no magusto», João Saramago, Correio da Manhã, 11.11.2010). As aspas não fazem falta, caro João Saramago. Aveleira, bária, colarinha, judia, lamela, longal, martainha, trigueira..., as variedades de castanha são grafadas como acabo de fazer. Pior ainda, o acento: «martainha» precisa tanto de acento como bainha, biscainho, Fontainhas, grainha, ladainha, Maçainhas, moinho, rainha, redemoinho, remoinho, tainha, ventoinha, etc. A semivogal i, ao ser anasalada pelo dígrafo nh, é como que autonomizada, destacada como sílaba, desfazendo assim o ditongo.

[Post 4077]

Como se escreve nos jornais

Isso é o rascunho, espero


      «Os objectos, “ilegalmente exportados”, segundo Zahi Zawass, deram entrada na colecção do museu nas décadas de 30 e 40 do século passado, após o final das excavações no túmulo do faraó, iniciadas em 1922 pelo britânico Howard Carter. Entre os 19 itens, conta-se uma estatueta de um cão de bronze e uma esfinge de lápis-lazuli (uma rocha azul utilizada pelos antigos egípcios para esculpir elementos decorativos), que, estimam os investigadores do museu, faria parte de uma pulseira. Thomas Campbell, do Metropolitan, declarou em comunicado (emitido na semana passada) que “os objectos nunca deveriam ter saído do Egipto”. Na verdade, foi esse o argumento evocado pelas autoridades egípcias, visto que, segundo os termos em que foi realizada a excavação do túmulo (sob orientação britânica), os conteúdos do mesmo deveriam ter ficado em território egípcio» («O Metropolitan vai repatriar espólio egípcio», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 12.11.2010, p. 47).
      Ora digam-me lá se escrever assim, com os pés, não deixa os leitores, que não sabem muito, a saber ainda menos. E digam-me igualmente se acham aceitável que um jornalista escreva desta maneira.

[Post 4076]

Como se escreve nos jornais

Epíteto bacoquinho


      «Actriz Sofia Nicholson, que integra o elenco principal da novela “Espírito Indomável”, em exibição na TVI, sofreu um aparatoso acidente, ontem, quando circulava na CREL, em direcção a Cascais» («Actriz Sofia Nicholson ferida em despiste na CREL», Luís Garcia, Jornal de Notícias, 13.11.2010, p. 19).
      Aparatoso acidente... «Não há grandes semanas que o meu amigo e quase conterrâneo, o grande escritor Aquilino Ribeiro, num artigo do Século, apanhou pelas orelhas o aparatoso, epíteto bacoquinho com que o escrevente vulgar e o falador vulgar qualificam desastres de automóvel. Se aparatoso quer dizer pomposo, só em desastre propositado, feito de encomenda, com despesas de enterro incluídas, coroas e flores, se admite pompas. Caso para crer que desastre aparatoso não é humilde como os de burro, mina ou andaime. É desastre de primeira classe, com a vaidade humana despendida em capotas pelo ar e outros aparatos» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 41).

[Post 4075]

Pronúncia

Gosto disto


      «Com que então, traduziu o nosso Cervantes?!», disse a criatura, como quem diz que atrevimento o seu. Apetecia-me dizer-lhe que não é nosso, sobretudo com aquele e escancaradíssimo. Lembrei-me logo de João Araújo Correia: «De tal maneira gritam por aí as nossas velhas vogais, que é força ir à Espanha e até à França quem tiver saudades das que foram brandas. Cervantes, na Espanha, ainda é o Cervantes. Cá em Portugal, agora é o Cèrvantes. E o De Gaulle, cá em Portugal, é o Dè Gaulle» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 55).

[Post 4074]

Como se escreve nos jornais

Pressa e falso conhecimento


      «Este geek invulgarmente dotado para a programação (um hacker), que aspira ao mundo selecto da Ivy-League americana, cria e monta a rede do Facebook, transforma-o numa “obra sempre inacabada”, antecipa-se supostamente a outros interessados e torna-se no fim no bilionário mais jovem do mundo» («Anti-geek», Pedro Lomba, Público, 11.11.2010, p. 40).
      Não faltam fontes onde Pedro Lomba podia ver que se escreve Ivy League sem hífen, mas tinha pressa de acabar a crónica. Merecia que, quando o Público lhe passar o cheque, lhe falte um zero.
      «Para mais, os meus anfitriões pertenciam à elite americana: a Ivy League, o Social Register, a elegante vida intelectual nova-iorquina...» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 12).

[Post 4073]

Acordo Ortográfico

Último àqueto


      Podemos estar preocupados com o possível emudecimento da língua, já grandemente estropiada, mas João de Araújo (que não tinha este acordo ortográfico à perna, é bem certo) teria outra opinião: «Propus o outro dia, numa revistinha, que se acabasse com o ditado. Para ensinar a escrever, é suficiente a cópia e a redacção. O ditado, pela maneira como dita o professor, é pai de monstros. Faz de um rapaz, que se chama Edmundo, o Èdmundo. Torna-o repulsivo. O moço, vítima da grafia, vai mais tarde ao teatro, senta-se numa cadeira, conversa com os vizinhos nos intervalos e, para lhes provar que sabe as letras todas, não esquece o c de espectáculo, nem o de acto, nem o de acção. Pelos cotovelos, saem-lhes caranguejos chamados espèquetáculo, àqueto e àqueção» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 36).

[Post 4072]

Do ferrador ao siderotécnico


Outra língua


      Há umas quantas semanas, no Portugal em Directo, na RTP 1, vi uma breve reportagem sobre um curso de ferração de cavalos na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Contudo, como devem imaginar, na universidade não podia entrar com este nome, mas com estoutro: Acção de Formação em Siderotecnia. Na promoção do curso, porém, viram-se obrigados a escrever num português compreensível: «Acção de Formação em Siderotecnia (Ferração de Equinos)». O formador é o ferrador, perdão, o siderotécnico Carlos Luís. Tudo isto me fez lembrar João de Araújo Correia: «[O homem hodierno] Prefere o pirotécnico ao fogueteiro e, se lhe cai um cravo à burra, não o leva ao ferrador. Leva a burra ao siderotécnico» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 45).

[Post 4071]

Etimologia: «Curaçau»

Hipóteses


      Merece ser subtraído ao esquecimento dos jornais este texto sobre a etimologia do topónimo Curaçau: «Existem várias hipóteses para explicar a origem do nome Curaçau (Curaçao, no original). E a culpa pode até ter sido dos portugueses. Uma das versões conta que um grupo de marinheiros doentes, com escorbuto, parou na ilha e aí se curou (provavelmente depois de ingerir a vitamina C dos frutos locais). Curaçau viria assim da palavra “curação”, de cura. Outra versão aponta para a hipótese de vir da palavra “coração”, por ser o centro da rota de escravos para Nova Amesterdão (actual Nova Iorque). Finalmente, pode ser o nome dos indígenas locais. Apesar de o neerlandês ser a língua falada em todas as ilhas das antigas Antilhas Holandesas, em pelo menos duas (Curaçau e Bonaire) fala-se no dia-a-dia o papiamento, uma mistura entre o português, o espanhol, línguas africanas, o neerlandês e o inglês. Diz-se que terá origem na língua dos escravos que vinham da África, havendo ainda a influência dos judeus portugueses. Estes chegaram às ilhas depois de Portugal ter reconquistado, no século XVII, parte do Brasil (Recife) aos holandeses. Os judeus teriam fugido para as ilhas temendo a perseguição dos católicos» («Vestígios de Portugal no nome e no idioma», Susana Salvador, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 43).
      (Eu escreveria que o papiamento é «uma mistura de português, espanhol, línguas africanas, neerlandês e inglês».)

[Post 4070]

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