Léxico: «sancha», «rapazinho» e «seta»

Intercâmbio


      «A colheita de míscaros, de “rapazinhos” ou outros cogumelos é permitida em todo o parque mas com regras ditadas há já dois anos pelo plano de ordenamento desta área protegida estendida pelos concelhos de Bragança e Vinhais. […] O trabalho de Os Verdes, como é conhecida a equipa, tem sido sobretudo de informar e sensibilizar, até porque muitas pessoas toda a vida apanharam para consumo. E embora ainda encontrem exemplos de más práticas, há também quem já cumpra as regras como Amândio Nascimento. Em duas horas, apanhou “dois ou três quilos” de “sanchas” ou “setas”, embora não soubesse que cada pessoa só pode levar um limite de cinco quilos. O transporte foi feito numa caixa com aberturas — é proibido em baldes ou sacos plásticos que impedem a dispersão dos esporos» («Apanhar cogumelos pode dar multas de 20 mil euros», Diário de Notícias, 9.11.2010, p. 22).
      No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, se pesquisarmos o vocábulo «sancha», nada encontramos. Se consultarmos o verbete «míscaro», podemos ler: «Espécie de cogumelo comestível; sancha.» Bem, têm de resolver a lacuna. Neste mesmo dicionário, no verbete «seta», por seu lado, lemos que se trata de regionalismo trasmontano, ao passo que para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se trata meramente de um regionalismo, sem indicar a região. Seta é o vocábulo mais genérico usado pelos Espanhóis para designar estes fungos comestíveis. O primeiro registo conhecido data do início do século XV, ainda com a grafia xeta. A partir do século XVI, passou a usar-se a grafia actual. Corominas afirma que deriva do vocábulo grego sēptá, «coisas podres», plural neutro de sēptós, «podre, infecto». Já quanto a «míscaro», que passou para o espanhol com a grafia mízcalo no século XVII e nízcalo, no início do século XIX, é de origem galaico-portuguesa, embora alguns estudiosos espanhóis prefiram ignorar e ocultar esse facto.

[Post 4061]

Tonelada equivalente de petróleo

Não é tudo o mesmo


      «As importações portuguesas de electricidade cresceram dez vezes entre 2000 e 2008, de 80 mil para 811 mil toneladas equivalentes de petróleo (TEP), segundo o site Pordata, que lança hoje o serviço estatístico para a Europa» («Importação de electricidade em alta», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 35).
      Tanto quanto sei, trata-se de símbolo e não de abreviatura. Logo, tep e não TEP. Em certos textos escritos em português, já tenho visto (!) toe, de tonne of oil equivalent. Já algum leitor confirmará a informação.

[Post 4060]

Como se escreve nos jornais

Julgarão eles que...?


      Lembram-se daquela questão de congénere/homólogo? Pois agora no Diário de Notícias quiseram resolvê-la de outra forma... «O ministro das Obras Públicas português, António Mendonça, convidou o seu homónimo de Marrocos, Karim Gellab, para uma visita de dois dias, para mostrar “várias oportunidades de negócio. Marrocos está com um dinamismo forte, está a apostar em infra-estruturas e as empresas portuguêsas [sic] têm aqui uma oportunidade”, afirmou» («Marrocos aberto aos portugueses», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 35).

[Post 4059]

Ortografia: «hilaridade»

Puro desleixo


      «Mas se este gigante de talento (2,16 metros) habituou os adeptos das seis equipas por onde passou às demonstrações de hilariedade excêntrica, também sempre deixou claro que os seus 147 kg, [sic] têm um peso insubstituível em determinados momentos do jogo» («Idade não tira ambição nem sentido de humor», Jorge Alves Barata, Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 42).
      Por vezes, não sabem: -iedade ou -idade? Não procuram, contudo, saber. O leitor saberá... Já aqui vimos esta questão.

[Post 4058]

Léxico: «andorriano»

Mais cuidado


      «Os três baristas vencedores vão agora representar Portugal no Campeonato Ibérico frente aos campeões espanhóis e andorrianos, que se realiza em Barcelona no próximo dia 9 de Novembro» («Melhor café é tirado em Leiria», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 72). O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para não irmos mais longe, ignora esta variante do gentílico, tal como desconhece a variante andorrense. Incompreensível. O Dicionário Houaiss só ignora a variante andorriano.

[Post 4057]

«Sobre avaliação»

Não, senhora ministra


      Ana Jorge, ministra da Saúde, na Antena 1: «Nós tínhamos encontrado uma série de irregularidades com o uso da portaria e a única maneira de parar com essas irregularidades, que algumas eram muitos graves, e que estão sobre avaliação neste momento […] e por isso foi preciso suspender [a portaria].» Até ministros confundem as preposições. Ah, sim, e escritores, e revisores, e professores, e jornalistas... Este erro já passou por aqui.
      No mesmo serviço noticioso, das 3 da tarde, Maria de São José falou em «doentes mentais graves»; a repórter Natércia Simões, por seu lado, falou em «doentes psiquiátricos»: esperemos que seja o mesmo.

[Post 4056]

Selecção vocabular

O Senhor do Bonfim nos valha


      Na Pública de hoje («“Made in China”», p. 71), Ricardo Garcia quis fazer um exercício de estilo à volta das famigeradas fitas do Bonfim. «Amarra-se a dita cuja ao pulso, ao tornozelo ou seja lá onde for e ela vai-se desfazendo aos poucos, lentamente, até se partir — instante em que o desejo professado no momento do nó supostamente se realiza.» Os desejos professam-se? «Na Internet, encontrei um sítio que vende qualquer coisa advinda do Oriente: de cabos coaxiais a enormes gruas, de sacos para compras a bidões para gasolina, de torneiras a computadores, de estátuas religiosas a moldes para plásticos.» As coisas advêm? «Além disso, no fundo, somos todos iguais. Se hoje vivemos refestelados no conforto ocidental, é porque antecessores nossos deram cabo das florestas, conspurcaram os rios, poluíram o ar, exploraram o trabalho infantil e praticaram outros comportamentos cívicos de semelhante nobreza, em prol da acumulação de riqueza.» Praticam-se comportamentos?

[Post 4055]

Como se escreve nos jornais

Non habemus correctores


      O cardeal protodiácono, perdão, o jornalista Miguel Gaspar quis escrever latim e saiu espanhol. Acontece. «Até que chegou a noite de sexta-feira, 29 de Novembro. Depois da ruptura, o acordo. Sabia-se que Teixeira dos Santos estava chez Catroga. E que o clima de serenidade doméstica fora mais propício ao fumo branco do que o bulício do Parlamento. Pouco depois das onze da noite, confirmou-se a notícia que já circulava pelas televisões. Habemos orçamento. E para o dia seguinte marcou-se a cerimónia solene da assinatura do dito cujo» («Os homens da luta», Miguel Gaspar, «Pública»/Público, 7.11.2010, p. 14). Os copidesques não deram por nada.

[Post 4054]

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