Ortografia: «mal-estar»

Vergonha


      «No primeiro jantar que teve este ano com Dilma Rousseff, a nova presidente do Brasil que assume funções no início de 2011, o número dois do novo Governo, Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), firmou um pacto com a pupila de Lula da Silva: “Teremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que não queremos, do que gostamos e do que não gostamos”, confidenciava, em Setembro, à revista Piauí. Os últimos acontecimentos dão-lhe, no entanto, motivos para um mau-estar logo no arranque» («Michel Temer: o trunfo de Dilma no Parlamento», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 26).
      Pois se até professores falam e escrevem assim... Se a formação profissional não fosse a aldrabice que é, não aprendiam em pequenos, aprendiam na adultícia.

[Post 4053]

Léxico: «tuíte»

Más opções

      «“Entra o Governo com um tropeção de Mariano Gago”. A tuiteira Catarina Pereira começava assim, às 10 da manhã, com a hashtag (etiqueta que permite pesquisar os tuítes sobre um deterinado [sic] tema) #oe2011, o relato do debate do Orçamento de Estado» («Crispação no Parlamento, descontracção no Twitter», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 3). Entretanto, na edição de hoje do Público pode ler-se: «“Twittar”, “googlar”, “politólogo” ou “flexisegurança” são algumas das novas palavras que integram a edição actualizada do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora. A nova edição tem um total de 410 mil entradas, incluindo mais de seis mil estrangeirismos» (Público, 6.11.2010, p. 13).
[Post 4052]

«Desesma»?

Viva ou morta


      Procura-se: «Então porquê este cansaço, esta desesma até para falar, excepto para gritar de raiva?» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 159). Claro que pode ser gralha. Nem o recurso a um dicionário inverso nos deu qualquer pista.

[Post 4051]

Sobre «implementar»

Pretensões


      Quer ensinar-nos a ler um nome próprio estrangeiro — «Mas na hora da sua própria morte o camarada Ceausescu (ler “tcheauchescu”) não teve direito a honras de Estado nem a uma cerimónia familiar» (p. 8) —, mas depois escreve um português abastardado: «Cerca de 30 mil habitações serão removidas para implementar a mastodôntica Casa da República. Com o fim do regime é rebaptizada Palácio do Parlamento, mas a população de Bucareste no que respeita aos nomes oficiais é parecida com a lisboeta e toda a gente conhece o edifício como Casa Poporului (casa do povo)» («O marionetista e a marioneta», Rui Catalão, «Ípsilon»/Público, p. 11).

[Post 4050]

Sobre «desprender-se»

E este?


      «Mas de todo o seu ser desprendia-se algo forte e impetuoso, algo audacioso e apaixonado» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 58). E este desprender-se, isto é, lançar de si, emanar, exalar, não é, sem tirar nem pôr, o espanhol desprenderse? Echar de sí algo... E, contudo, talvez bem português.

[Post 4049]

Verbo haver

Imagem tirada daqui

Corta!


      José Manuel Rosendo entrevistou (numa cafetaria?!) o filósofo José Gil para a Antena 1. Eis um excerto mais antigramatical: «Quer dizer, a questão é de tal ordem, que nós vamos começar um mau ano 2011, com uma recessão que todos anunciam, depois haverão uma estagnação, haverão um aumento mínimo do crescimento económico, estagnante, e não se vê o fim. É sem fim à vista.» O mais intrigante (bem sei que se trata da oralidade) é que, mesmo que o verbo permitisse, nesta acepção, o seu uso no plural, o sujeito, neste caso, não o pedia.

[Post 4048]

Ortografia: «bioartificial»

Muito certo

      «Medicina Investigadores espanhóis apresentaram na terça-feira em Madrid um processo de criação de órgãos ditos bioartificiais a partir de células-mãe do doente, limitando assim para este último possíveis riscos de rejeição» («Células-mãe podem ser empregues na recriação de órgãos», Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 27). Perfeito: bioartificiais está correcto. Bioastronáutica, bioastronomia, biolectricidade, bioengenharia, bioética, etc.

[Post 4047]

Ortografia: «grafitado»

Quase, quase


      «A sua mãe, a ama Luísa Carvalho — conhecida na zona como “tia Luísa” — deu explicações à progenitora da criança, mas a partir desse dia o “descanso acabou”. O prédio onde funciona a creche, na sobreloja, foi graffitado com palavras obscenas e cartazes colados em todo o lado. “Estou a ser linchado na praça pública”, diz» («Abuso de menor aconteceu “durante uma brincadeira”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 21). Muito bem: está duplicada, ao menos isso, a consoante certa — mas não seria melhor grafitado?

[Post 4046]

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