Sobre «costa»

Imagem tirada daqui

É mesmo


      Que «costeiro» é relativo à costa sabemos todos nós e os dicionários ajudam-nos a confirmá-lo. Contudo, só no Dicionário Houaiss e no Aulete Digital ficamos a saber que costa também é, por extensão de sentido, a área que fica à margem de rio, lagoa, etc.

[Post 4045]

«De moto próprio»

Mote de ‘mot’


      Do editorial do Diário de Notícias de hoje: «Neste quadro, o que se tornou evidente ontem foi que o futuro político deste Governo está nas mãos de Teixeira dos Santos e da sua capacidade de atingir os objectivos a que se propôs, não só este ano, mas nos primeiros meses de 2011. Não foi só a oposição a dizê-lo, mesmo que o PSD o tenha deixado particularmente claro, afirmando que não haverá um terceiro acordo com Sócrates. Foi mesmo o primeiro-ministro quem resolveu, por mote próprio, assumir este Orçamento como integralmente seu, esperando colher sozinho os seus frutos» («Seis meses decisivos», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 8).
      Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio — sem preposição! Ao contrário de outros, e também tenho o meu latinzinho, não me rala nada que se use a locução aportuguesada, e seria mesmo estulto, salvo melhor opinião, o contrário. De moto próprio significa espontaneamente; por iniciativa própria; por sua conta; sem conselho ou constrangimento alheio. (Agradeço ao leitor R. A. por me ter chamado a atenção para este erro.)

[Post 4044]

Sobre Coromandel

Sempre os Ingleses


      «Ou porque os chinas senhorearam muitas partes da Índia e as conquistaram nos tempos antigos, de que hoje em dia há algumas memórias, como na costa de Choromandel, que é na contracosta do reino de Narsinga, da banda donde chamamos São Tomé, por ali estar a casa fundada pelo apóstolo e as relíquias de seu corpo» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, pp. 79-80). Pois, agora dizemos Coromandel, mas veja-se o que escreve Rui Manuel Loureiro em nota de rodapé: «Embora mais tarde, por via inglesa, se tenha vulgarizado o topónimo Coromandel, quase todos os autores portugueses quinhentistas se referem a Choromandel, termo que restitui mais fielmente o original tamil Choromandala, a “terra dos Cholas”» (idem, ibidem, p. 79).

[Post 4043]

Arcaísmo: «tamalavez»

Perdeu-se


      Ledo, por mor de, quiçá, samicas, soer... entre outros arcaísmos fonéticos, morfológicos e sintácticos vão sendo usados, e mesmo registados em alguns dicionários, mas vejam este: «Sustentam-nos com arroz cozido envolto em uma gema de ovo, tamalavez sobre o seco, que se fiquem enganando, parecendo-lhe[s] bichinhos» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 145). Este advérbio já não aparece em nenhum dicionário. Vale por «algum tanto, alguma coisa, de algum modo». Em «A Visita das Fontes», Apólogo Dialogal Terceiro, de D. Francisco Manuel de Melo, também se lê este advérbio.

[Post 4042]

Ortografia: «Augias»

Menos grego


      «Desde logo, Obama começou pelo impossível: ser eleito. Fez apenas parte do necessário: a reforma do sistema de saúde. Fez apenas parte de outra parte do necessário: a reforma do sistema financeiro, na qual deveria ter ido mais longe com uma nacionalização-reprivatização de alguns bancos e com um estímulo à economia adequado à dimensão da catástrofe. E fracassou completamente em outra parte do necessário: fechar Guantánamo e limpar os estábulos de Áugeas do complexo militar e de informações americano, ainda dominado pela doutrina do medo que vem de Bush» («A lição de Lula e o teste de Obama», Rui Tavares, Público, 3.11.2010, p. 40).
      Rui Tavares anda a ler muito grego. Nesta língua é Αυγείας, mas chegou-nos através do latim. Nós escrevemos Augias (e não falta quem escreva Áugias). Augias também é forma verbal, é o pretérito imperfeito do indicativo de augir, «tocar o auge»: eu augia, tu augias, ele augia... «Augem a perfeição», escreveu Júlio de Castilho.

[Post 4041]

Ortografia: «piaçaba»

Ainda há dicionários


      «Caros leitores. Proponho-vos que adiram ao movimento “Um piassaba para António Costa”. Eu sou o primeiro aderente e já tenho o meu piassaba para entregar nos Paços do Concelho. É o mínimo que posso fazer. Vejam bem: percebo que existe crise, sei que a Câmara tem dificuldades (por isso é que aplica a taxa do subsolo à conta do gás…), e por isso mesmo, antes que me imponham uma taxa nova sobre a sola dos sapatos, comprei um belíssimo piassaba de cerdas amarelas na drogaria» («O piassaba», Manuel Falcão, Metro, 2.11.2010, p. 2). Cinco vezes assim. Há variantes, sim, mas nenhuma com dois ss: piaçá, piaçaba, piaçava. Sempre usei apenas a primeira. E quanto ao género, a maioria dos dicionários consultados regista o feminino. Em abono de Manuel Falcão e da revisora, Catarina Poderoso, devo dizer que há umas décadas era com dois ss que se escrevia.

[Post 4040]

Retórica

Conselhos


      José Vítor Malheiros escreveu o que muita gente pensa: «Transformar Cavaco Silva em Barack Obama não é possível, mas não será que podiam ter arranjado um discurso para o homem ler? Um discurso — como dizer — que alguém tivesse escrito depois de ter pensado? Tiveram cinco anos de mandato para pensar e saíram-se com isto? Tiveram meses de reflexão sobre a recandidatura e saíram-se com isto? Que Cavaco Silva não sabe falar já sabíamos — abençoados tabus, quanta platitude nos pouparam —, mas o homem sabe ler. Não há ninguém que não veja a tonelada de lugares-comuns e de auto-elogios confrangedores naquelas páginas? Não há ninguém que não tenha reparado que a ideia forte do discurso era “eu já cá estou há muito tempo por isso acho que era melhor deixarem-me continuar”? A culpa não é de Cavaco Silva por outra razão. A retórica política não tem tradição em Portugal. À tristeza retórica do Presidente junta-se a tristeza do primeiro-ministro (com mais gritos mas a mesma vacuidade) e a tristeza da oposição. Recordam-se de algum bom discurso político nos últimos 30 anos? Algum que tenha ultrapassado a circunstância estreita em que foi escrito? Com ideias, com brilho, que mexesse de alguma forma connosco? Não se lembram porque não há. E também não os há do candidato-poeta Manuel Alegre, com responsabilidades mais sérias neste capítulo. Ou há e eu não os conheço. Se quiserem, provem-me que estou errado. Enviem-me as vossas propostas de discursos portugueses históricos para o mail» («A austera, apagada e vil tristeza da retórica», José Vítor Malheiros, Público, 2.11.2010, p. 37).

[Post 4039]

Sobre «lusco-fusco»

Luz que foge


      «O sol não liga nenhuma à hora de nascer ou de se pôr. Como me explicou Sebastião Carvalho, numa carta, lusco-fusco vem do latim de “luz que foge”, pelo que nunca se pode aplicar ao amanhecer» («O bom tempo no mau», Miguel Esteves Cardoso, Público, 2.11.2010, p. 39).
      Fartei-me de rir com esta etimologia fantasista. Talvez o máximo que se possa dizer é que é de origem obscura, e nem o marquês de Pombal pode dizer o contrário. Uma coisa, porém, é certa: não falta quem, a começar pela minha mulher, esteja plenamente convicto de que lusco-fusco só designa o crepúsculo vespertino. Foge-lhes da compreensão um fenómeno que se chama extensão de sentido.

[Post 4038]

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