«Esterco do homem»

Outro eufemismo
     

      Ontem vi na RTP1 parte do programa Regresso ao Campo. Um dos entrevistados foi Alfredo Cunhal Sendim («parente afastado de Álvaro Cunhal, do ramo rico da família», disse a voz off), que tem feito um trabalho exemplar na Herdade do Freixo do Meio, com 1900 hectares, sobretudo no que diz respeito à preservação do meio ambiente. Assim, mostrou uma casa de banho seca: os dejectos, que caem para um alçapão em cima de serradura, transformam-se, ao fim de seis meses, depois de um tratamento térmico, em adubo. Lembrei-me de Fr. Gaspar da Cruz: «Até o esterco do homem aproveitam e é comprado por dinheiro, ou a troco de hortaliça, e o levam das casas; de maneira que eles dão dinheiro, ou coisa que o valha, por lhe[s] deixarem limpar as privadas» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 144). E quem é que, actualmente, usaria a palavra «esterco» para designar os dejectos humanos?

[Post 4037]

«Determinar-se»

Que cada um diga (III)


      «Advierte, Cristinica, y está cierta de una cosa: que la mujer que se determina a ser honrada, entre un ejército de soldados lo puede ser» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «E alta noite, quando nisto se acabam de determinar, mandam logo ao tronco para que os façam prestes para irem a padecer» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4036]

«Com ser»

Que cada um diga (II)


      «Confieso también que me engañaba, y que podría ser que hacer ahora la experiencia me pusiese la verdad delante de los ojos el desengaño; y, estando desengañada, fuese, con ser honesta, más humana» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «E porque el-rei tem tanto cuidado do governo de seu reino e o traz tão bem regido, com ser tão grande como é, o sustenta e conserva unido em paz há muito número de anos, sem nenhuns reinos estranhos entrarem a possuir nada na China, antes a China sujeitou e teve muitos reinos e muitas gentes sujeitas pelo seu singular governo» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4035]

«Sem falar palavra»

Que cada um diga (I)


      «Todo esto estaba mirando Leonisa, que ya había vuelto en sí; y, viéndose en poder de los corsarios, derramaba abundancia de hermosas lágrimas, y, torciendo sus manos delicadas, sin hablar palabra, estaba atenta a ver si entendía lo que los turcos decían» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «Foi isto coisa que pôs os loutiás em grande admiração, e como atónitos e fora de si estiveram um grande espaço olhando um para o outro sem falarem palavra» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4034]

Pronúncia: «Rousseff»


«Ruzefe», dizem eles


      Temos aqui um problema, mas desses que se resolvem da noite para o dia: alguns dos nossos jornalistas da rádio, como Alexandre David, da Antena 1, não pronunciam correctamente o apelido da nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff. «Ruzefe», diz ele. Quem sabe se o apelido original, que o advogado búlgaro Pétar Russév, pai de Dilma, mudou para Rousseff, se pronunciava dessa forma. Na escrita, também temos um problema: na mesma edição de certos jornais, como no Público de hoje, ora se lê Rousseff ora Roussef.

[Post 4033]

Instrumentos de tortura

Boa têmpera

      Embora Fr. Gaspar da Cruz refira algumas formas e instrumentos de tortura, como a canga, falemos de torturas mais actuais, como aquelas que sofreu a recém-eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff: «E pouco depois Dilma é presa. Passa três anos na prisão, com torturas várias. Espancam-na e dão-lhe choques eléctricos. A pedagoga Maria Luiza Belloque, que esteve na mesma cela, contou à Piauí: “A Dilma levou choque até com fios de carro. Fora ‘cadeira do dragão’ [uma cadeira de metal que a cada choque faz com que as pernas do preso batam numa placa], ‘pau-de-arara’ [uma barra onde o preso fica pendurado pelos punhos e pelos joelhos] e choque para todo o lado. Ela levantava o meu astral quando eu chegava arrebentada da tortura.” Leslie Belloque, sua cunhada, reforçou: “Ela não era nada chorona. Falávamos como se não tivesse tortura. A Dilma é um tenente, é muito forte”» («A mulher a quem Lula deu o Brasil», Alexandra Lucas Coelho, Público, 1.11.2010, p. 4).

[Post 4032]

«Ali faziam seus feitos»

Escatologia


      «Assim comiam e bebiam, e ali faziam seus feitos, o que lhes não era pequeno tormento e pena» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 230).
      Há dias ouvi a humorista Maria Rueff dizer que humor negro e escatologia não eram com ela (ao contrário do mestre e patrono), e, pelo menos no que respeita a esta última, é uma atitude quinhentista. Ali faziam seus feitos — parece, até pela circularidade, o eufemismo consumado. E quem fala de feitos fala de obras, e não diz o povo também obrar? Diz, e ainda ontem o ouvi no Alentejo.

[Post 4031]

«À primeira face»

Alatinado


      «E para que lhe não desagrade à primeira face a leitura, parecendo-lhe ter falta, pareceu-me bem mostrar-lhe aqui a ordem de proceder nesta obra» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 69). Agora dizemos à primeira vista, mas aqui ainda era a tradução mais próxima da locução latina prima facie.

[Post 4030]

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