«Mestra» e «superiora»

Ignorância atrevida


      «Alexandra Paula Monteiro Pessanha, assistente e Mestra em Direito Público, foi o elemento do CJ [Conselho de Justiça] que não renunciou ao cargo» («Relatora do Sporting-Benfica não se demitiu», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 47). Mais uma delatora da «violência de género», decerto. Mestra não é menos que risível, como, fora dos conventos, superiora: «O cenário de rota de colisão entre os investigadores do caso Freeport e a sua superiora, Cândida Almeida, está afastado mas os dois magistrados ponderam pedir a cessação imediata da comissão de serviço no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP)» («Procuradores de saída do DCIAP», Eduardo Dâmaso/Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 12.08.2010, p. 28). Não me surpreendia nada que em ambos os casos tivesse havido mão de revisor — ou revisora. Uma desta espécie me aspou há dias o c de «héctico». Antes tivesse levado também o h, e teríamos ficado sãos. Saint-Esprit, sain d’esprit.

[Post 3987]

Latim

Pedra angular


      O pai do protagonista de uma obra que não posso, por ora, identificar (sem deixar de dizer, contudo, que é o melhor romance que li nos últimos anos, brevemente em tradução portuguesa), «insisted that without Latin nobody could write clear English». O que diria se, em vez de escocês emigrado no Canadá, fosse português. De importância fundamental, sem dúvida, o deveria reputar. Já uma personagem de Cervantes (e um cão, nada mais) dizia que «no tempo dos Romanos, todos falavam latim como sua língua materna, algum parvo deveria haver entre eles a quem o facto de falar latim não desculparia o de deixar de ser néscio».

[Post 3986]

Léxico: «bipolarismo»

Lacuna incompreensível


      «“Os distúrbios psicóticos como a esquizofrenia e o bipolarismo (que afecta aproximadamente 6% da população) surgem no final da adolescência, início da idade adulta. E, como na maior parte das vezes as pessoas ainda não iniciaram a sua vida profissional, é-lhes muito difícil habituarem-se a uma rotina, ao horário e às regras”, explica Manuel Abreu, presidente da ReCriar Caminhos, associação que fundou em 2008, por causa da esquizofrenia da filha» («Há 100 mil portugueses com esquizofrenia», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 25).
      Não estou menos que espantado por comprovar que nenhum dicionário que eu conheça regista o termo. E mais: mesmo bipolar só na versão digital do Dicionário Houaiss: «caracterizado pela alternância de estados maníacos e depressivos».

[Post 3985]

Nome de instituições

Então expliquem-me


      São nomes próprios, sim senhor, mas é tradição, e respeitável, traduzir a designação de estabelecimentos de ensino estrangeiros — se for possível. Assim, para mim e para milhões de falantes de português, José Sócrates discursou na Universidade de Columbia (ou mesmo Colúmbia), e não na Columbia University. É por isso com estranheza que vejo que J.-M. Nobre-Correia, que tem uma crónica sobre os meios de comunicação social no Diário de Notícias (que, de resto, gosto muito de ler), se diga professor na «Université Libre de Bruxelles». Então escrever que era na Universidade Livre de Bruxelas redundava em menos precisão ou desprestígio? Não percebo.

[Post 3984]

Topónimos

Aprovado


      «À hora de fecho desta edição, a gigantesca grua onde foi pendurada a Fénix, uma cápsula metálica de 54 centímetros de diâmetro, quatro metros de altura e 460 quilos de peso, já tinha começado a trabalhar para içar de volta à superfície os 33 homens que ficaram presos no interior da mina de ouro e cobre de San José. Eles trabalhavam nas galerias mais profundas quando o colapso de um muro de sustentação, uns 300 metros mais acima, cortou a ligação ao mundo exterior» («“Não sei se me vai dar para as lágrimas”», Rita Siza, Público, 13.10.2010, p. 2).
      Em quase toda a imprensa portuguesa, era assim que se podia ler. No Diário de Notícias, porém, foi sempre assim: «Os mineiros mais hábeis, capazes de fazer face a qualquer problema, serão os primeiros a sair da mina de São José, na quarta-feira, anunciaram as autoridades chilenas» («Mineiros mais hábeis serão os primeiros a sair na quarta-feira», Susana Salvador, Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 22). E, no sábado, algo inesperadamente, isto: «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

[Post 3983]

Nomes próprios

Língua impolítica


      Casos políticos. «Esta semana, o protagonista foi o deputado Vítor Baptista, recandidato derrotado ao PS-Coimbra. Escreveu uma carta aos seus camaradas acusando um dirigente do partido — André Figueiredo, chefe de gabinete de Sócrates no PS e secretário nacional adjunto — de tráfico de influências (dizendo que este lhe ofereceu um cargo de gestor público em troca de assistência). Figueiredo já disse que está de consciência tranquila e admite recorrer à justiça. A acusação é grave, embora desvalorizada por muitos (a começar por alguns deputados do PS, que só quiseram reparar nos erros de português da carta)» («Um olho no burro, outro no cigano», Teresa Dias Mendes, Diário de Notícias, 16.10.2010, p. 21).
      A carta está aqui, podem lê-la. Pena é que os deputados do PS só se lembrem de erros de português nestas alturas. Reparem também no facto de o signatário se assinar Victor e não Vítor. A consultora do Ciberdúvidas Teresa Álvares, certa vez, à pergunta de uma consulente sobre se podia dar o nome Victor, o mesmo do marido, ao filho, começou por dizer: «Não sei se a Conservatória de Registo Civil aceitará tal grafia, mas mesmo que aceite não é a correcta.» Aceita — e bastava ter perguntado ou pesquisado. Depois de outras considerações, a meu ver improcedentes, remata: «Não sei que idade tem o seu marido, mas “Victor”, “Tereza”, “Mello”, “Thomaz” não são ortograficamente aceitáveis desde a revisão de 1911.» Pois é, mas vá lá tentar persuadir quem tem tais nomes a mudá-los.

[Post 3982]

Disparates

Língua violentada


      Em toda a parte há ignorantes, e por vezes são ministros. Em Espanha, a ministra da Igualdade, Bibiana Aído, falou certa vez, e defendeu depois a calinada, em «miembros y miembras de la comisión» (de que aqui demos conta), e insiste em usar o feminino de «jóven», que não existe e é uma aberração, «jóvena». Temos cá algo semelhante, e até trazido por espanhóis. Para agravar, nos últimos tempos, aqui como em Espanha, a imprensa tem dado eco de algo a que chamam «violência de género». Agora só falta falarem do sexo das palavras.

[Post 3981]

Falsos amigos. italiano

Lavata di testa


      É mesmo: Monaco di Baviera é o nome italiano para... Munique! Mais um falso amigo, este raro, no âmbito dos topónimos. Nos substantivos e verbos, são mais que muitos: abbonato não é «abonado», mas «assinante»; accattare não é «acatar», mas «mendigar»; accordare não é «acordar», mas «afinar; conceder»; additare não é «juntar», mas «apontar; indigitar»; agguantare não é «aguentar», mas «agarrar»; appostare não é «fazer uma aposta», mas «armar uma cilada»; attirare não é «lançar algo», mas «atrair, aliciar»; a battuta não é o «bastão delgado com que os regentes dirigem as orquestras», mas «compasso musical»; burro não é o simpático animal, mas «manteiga»; carpire é «surripiar»; carta é «papel»; cattivo é «mau»; sigaro é «charuto»; consulente é «consultor»; enfiare é «inchar»; subire é «sofrer»; tasca é «algibeira», testa é «cabeça»; trincare é «beber muito»... Basta. E quantas obras italianas se traduzirão para português anualmente?

[Post 3980]

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