«Atajadores de la costa»

Torre usada pelos atajadores de la costa. Tirada daqui

Na costa espanhola


      «Atajadores de la costa traduzido em português numa só palavra?» Ahn, hum, bem, não me parece, cara Luísa Pinto. São muito referidos por Cervantes, no D. Quixote e não só. Eram também conhecidos por gínetes de la costa, atalayas e caballería de la costa. Estavam encarregados de velar pela segurança das costas contra os desembarques e pilhagens turcos. Relacionado, mas a designar algo diferente, temos em português o vocábulo costão, que era o nome que se dava ao soldado de vigia a presídio nas costas de mar, como o castelão nos castelos.

[Post 3900]

Tradução: «religious art»

Arte é arte


      Se há alguma diferença entre arte sacra e arte sagrada, e na minha memória há umas reminiscências de ter lido algo a este respeito, os dicionários não a acolhem. Por isso, caro M. L., religious art traduzir-se-á por arte sacra — pelo menos enquanto ninguém nos explicar bem em que consiste aquela suposta diferença nos conceitos.

[Post 3899]

Selecção vocabular

Fill a gas tank


      A crónica de hoje de Rui Tavares no Público começa bem: «Na linguagem de todos os dias, escolhemos as palavras apenas pela casca» («Princípios/valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40). Depois, porém, e como já aqui vimos, há uns deslizes. Mais um exemplo: alguém diz que vai encher o tanque do carro? Rui Tavares, ao que parece, diz e escreve: «Se desejamos que nos entreguem um documento ou encham o tanque de gasolina, tanto se nos dá que seja a Ana ou o Sérgio a fazê-lo.» Parece a interferência do inglês, gas tank, a fazer-se sentir.

[Post 3898]

«Tequila» e outras coisas

Para rir


      Ao ler no Público uma notícia relativa ao encontro entre o rei de Marrocos, Mohamed VI, e o primeiro-ministro espanhol em que debateram os vários conflitos que opuseram, neste Verão, as autoridades dos dois países, vi que, era inevitável, um dos pontos de discórdia foi a cidade autónoma de Melilla. Lembrei-me então de um erro muito comum: pronunciar a palavra espanhola tequila como se tivesse dois ll. Não tem. Este vocábulo não tem a letra, ou dígrafo, melhor dizendo, ll (elle, em espanhol), que faz parte do alfabeto espanhol desde 1803, mas a letra l. Em 1994, no X Congreso de la Asociación de Academias de la Lengua Española, convencionou-se que os dígrafos ll e ch (che, em espanhol) deixariam de figurar como letras independentes na ordenação alfabética de dicionários e bibliografias. Claro que não estou à espera de que estes falantes apressados de todas as línguas saibam isto. Como decerto gostam de informação mais ligeira, aqui vai: o nome da letra q é cu: «cu de queso». Última anedota: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «tequila» e «tequilha».

[Post 3897]

«Replicar», de novo

Vamos ver


      Não se trata propriamente de um uso espraiado, mas, depois de já aqui o termos visto num artigo do Diário de Notícias, ei-lo no Público: «O secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, defendeu mesmo, na apresentação do projecto, que esta “solução inovadora” deve ser replicada pelo país» («Autarquia da Amadora e imobiliária vão fazer do Dolce Vita Tejo um interface de transportes», Inês Boaventura, Público, 22.09.2010, p. 27).
      Talvez valha mais a pena dizer duas coisas de interface. Primeira: neste momento, é consensual que o género de «interface» é feminino. Segunda: há muito que é assumida, decerto que devido aos elementos latinos por que é formada, como palavra portuguesa. Logo, é dispensável o itálico.

[Post 3896]

Ortografia: «picuinhas»

Coisas de galinhas


      «Mas “princípios” e “valores” transportam consigo metáforas muito diferentes (não querendo ser picuínhas, “metáfora” quer já dizer “transporte”: é o que os gregos escrevem nos camiões de mudanças)» («Princípios/Valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40).
      Não quero ser picuinhas, mas é picuinhas que se escreve, sem acento agudo, porque não precisa dele, pois a semivogal i vem seguida do dígrafo nh da sílaba seguinte, que a anasala, levando-a a formar por si só uma sílaba. De qualquer modo, devo dizer que, estranhamente, o FLIP 7 deixa passar assim com o acento.
      Tanto quanto sei, os Brasileiros ignoram este vocábulo. Têm e usam, isso sim, o vocábulo picuinha: o primeiro piado das aves; dito picante, mordaz, malévolo; remoque; piada, piqueta, piquetada; atitude ou dito cujo intuito é contrariar, aborrecer outrem; pirraça, provocação; hostilidade um tanto gratuita, desconfiança, implicância, cisma».

[Post 3895]

Sigla SIV

Mais um trabalho


      A propósito do RIP, lembrei-me de mais uma sigla equívoca que anda agora por aí nos jornais: «Uma conclusão a partir depois de um estudo genético ao vírus da imunodeficiência símia (SIV) encontrado em macacos na ilha africana de Bioko e que ficou separada do continente depois da glaciação. Há mais de 10 mil anos» («Vírus da sida tem 32 mil a 75 mil anos», Diário de Notícias, 20.09.2010, p. 27).
      Foi preciso anos até os jornalistas escreverem VIH em vez de HIV. Agora, vão ser necessários outros tantos para que escrevam VIS em vez de SIV. É um trabalho, não hercúleo, mas infindável.

[Post 3894]

Tradução: «pallbearer»

Imagem tirada daqui
RIP

      Nascem, vivem, morrem — tal como os seres vivos. E tal como sucede em relação a estes, por vezes só os apreciamos devidamente quando já não estão entre nós. Numa revisão, dou-me conta de que não temos uma palavra para traduzir o vocábulo inglês pallbearer. «Transportador de caixão», regista, de forma equívoca, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Contudo, já tivemos uma palavra que correspondia de forma unívoca: corpoferário. Caiu, é claro, em desuso. (Não, é verdade, para o Dicionário Houaiss.) Puxando pela memória e pelos apontamentos, vejo que já encontrei pallbearer por gato-pingado. Contudo, este termo serviu para designar o indivíduo pago para acompanhar enterro a pé, empunhando uma tocha. Por extensão de sentido, em Portugal, mas creio que não no Brasil, gato-pingado passou a designar também o agente funerário, o papa-defunto. Ora, o pallbearer, o corpoferário, é muitas vezes uma pessoa da família do defunto.

[Post 3893]

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