Ortografia: «Tetuão»

Vendidos


      Acabei de ouvir no noticiário da Antena 1. Nos jornais, não se lê outra coisa: «Em Tetouan encontram-se onze passageiros do paquete Funchal que ficaram feridos no acidente, que provocou nove mortos» («Corpos das vítimas transladados esta tarde para Portugal», Diário de Notícias, 9.09.2010). Por um lado, escrevem Duisburgo e Magaliesburgo — e acho bem, já aqui o afirmei —, sem tradição entre nós, por outro, optam pela grafia francesa, Tetouan, em detrimento da que se usou durante séculos em Portugal, Tetuão. Haja paciência.
      Trata-se, mais uma vez, de opções de transcrição. Actualmente, as autoridades marroquinas preferem, por razões políticas óbvias, Tetouan, mas, como para Espanha continua a ser Tetuán, para nós não deixa de ser Tetuão.

[Post 3861]

História/história

Voluntariosos


      «Quando em 1957 se voluntarizou para frequentar uma escola que até à data só aceitava alunos brancos, Jefferson Thomas estava longe de imaginar que o seu nome iria ficar para a história» («O homem que lutou pelo fim das barreiras raciais no ensino», C. R. F., Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 41). «Mas Adelino Granja não está satisfeito com algumas mudanças encetadas. Até as que implicam pormenores, como o símbolo ou o hino da bicentenária Casa Pia. “Acho que a maioria dos ex-alunos não concordaram com a ideia de mudar o símbolo ou o hino. Fazem parte da História da Casa Pia» («Quem viveu a Casa Pia por dentro teme pelo seu futuro», Rute Coelho, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 2).
      «Voluntarizou»! Perdão: «se voluntarizou», que o verbo é pronominal e eu estou perplexo. Nem voluntariar-se, que chega e sobra, está dicionarizado em todos os dicionários. E história vs. História? O calor continua a atacar-lhes as meninges.

[Post 3860]

Debrum, orla, vivo, cairel...

Imagem tirada daqui


Bela peça


      Num jornal, não me perguntem qual, li que estavam cerca de 800 mil pessoas «isoladas no Paquistão devido às inundações provocadas pelas moções»... mas isso foi há uma semana, na edição 11 460 (grande pista). Angelina Jolie está agora no Paquistão. Vejam como no Diário de Notícias de ontem era descrita a indumentária da actriz e embaixadora da Boa Vontade: «A actriz percorreu a área usando uma longa túnica preta e um lenço também preto na cabeça com uma fina lista vermelha, indumentária usada por muitas mulheres muçulmanas no Paquistão» («Vestida dos pés à cabeça Angelina Jolie comoveu-se com vítimas do Paquistão», Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 48).
      Não direi que é um vivo, que é o nome que se dá a tira de tecido que forma o debrum em peças de vestuário, nem debrum, mas talvez lhe pudéssemos chamar orla. Só para não empobrecermos a linguagem.

[Post 3859]

Como se escreve nos jornais

Humildade

      «Ao abrir a porta, Cidália deparou com as luzes acesas e o apartamento todo remexido. Foi encontrar a vítima no quarto, caída em cima da cama, cheia de sangue. Eugénia Madeira estava nua da cintura para baixo, mas, segundo o CM apurou, não terá sido vítima de sevícias sexuais» («Médica assassinada a golpes de faca», Paula Gonçalves e Gonçalo Silva, Correio da Manhã, 8.09.2010, p. 4).
      «Sevícias sexuais»... Deve ser assim que os polícias falam. Os repórteres estavam atentíssimos e apanharam tudo. Estariam mesmo? Hum... O jornalista Alfredo Teixeira, do Diário de Notícias, também lá foi e formou outra convicção: «Uma médica do Centro de Saúde Norton de Matos, em Coimbra, foi ontem, de manhã, encontrada morta em casa. Eugénia Madeira, de 55 anos, estava deitada na cama, degolada, nua e com sinais de ter sofrido sevícias sexuais» («Médica degolada na cama e vítima de sevícias sexuais», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 16). Por outro lado, acredito mais na dupla do Correio da Manhã, que pelo menos não maltratou a gramática, ao contrário do jornalista do Diário de Notícias: «Ao mesmo tempo a PJ procurou todos os indícios do crime, confirmando ter-se tratado de um homicídio. A médica tinha o pescoço degolado, havia também sido asfixiada com uma almofada e haviam ainda indícios de sevícias sexuais» («Médica degolada na cama e vítima de sevícias sexuais», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 16). Mais: os repórteres do CM apuraram mal os factos e a vista, pois o jornalista do DN garante que «na cama, completamente nua e com um golpe perfurante no pescoço estava Eugénia Madeira».
      Há mais alguma coisa a dizer sobre isto? Sim: nada como ler dois (ou três ou quatro) jornais para termos consciência de que não sabemos nada.

[Post 3858]

Pontuação: quer... quer...

Distinga-se


      «Por exemplo, quer nos homens, quer nas mulheres, o sexo oral é mais frequente nesta última geração do que na mais jovem.» É verdade que a vírgula antes da locução conjuntiva alternativa ou disjuntiva quer... quer..., quando liga elementos da mesma oração, é facultativa, mas, na minha opinião, não se deve usar nestas circunstâncias, reservando-se para os casos em que liga orações.

[Post 3857]

Sigla OTAN


Muito bem!


      Não somos todos carneiros: há quem siga o que sabe ser o mais correcto, independentemente de maiorias acéfalas: «Os militares portugueses integram ainda outros contingentes internacionais no âmbito da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e da ONU (Organização das Nações Unidas), em diversos pontos do mundo, como o Líbano, Timor, no Congo. Afeganistão ou Kosovo (ver mapa)» («GNR abandona missão militar da UE na Bósnia», Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 9).

[Post 3856]

Léxico: «mockumentary»

Amálgamas e confusões


      «É claro que, no final, subsiste a dúvida se será um documentário ou um ‘mockumentary’ (documentário fictício)» («Phoenix reinventado», P. P., Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 41).
      Recentemente, no Jornal de Notícias, podia ler-se isto sobre o mesmo termo: «O termo junta “mock”, que significa burlesco, e a abordagem do documentário, com o objectivo de reforçar a espontaneidade da narrativa, veracidade ou realismo da história» («A moda dos “mockumentary”», Dina Margato, Jornal de Notícias, 23.08.2010). Essa é uma das acepções, mas nesta amálgama mock transmite a ideia de imitação, falsificação. E por isso já o vi traduzido para «falsumentário».

[Post 3855]

Sobre «dinossauro»

Entendam-se


      «Manuel Gonçalves Silva, 72 anos, advogado de Gertrudes, é o ‘dinossauro’ da advocacia em Elvas, com quase 48 anos de actividade» (Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 7). Para que raio estão ali as aspas? Bem, esqueçam isso agora. Esta é uma derivação por metáfora, regista, e muito bem, o Dicionário Houaiss. Mas vejam agora as diferenças. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a acepção. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é de uso figurado e significa a «pessoa ou instituição considerável, com vasta experiência». O Dicionário Houaiss, por seu lado, assevera que é a «pessoa ou instituição considerada ultrapassada, mantida pela tradição», e que o uso é pejorativo. Que acham os meus leitores?

[Post 3854]

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