Para a troca
Como nos acontece em relação às pessoas, também há palavras que nos parece já termos encontrado alguma vez. «Macaréu» é uma delas. Na crónica de Nuno Rogeiro no Jornal de Notícias de ontem («Águas profundas», p. 9), fui encontrá-la: «Parece natural que, face a terramotos e macaréus, incêndios e vendavais, a primeira reacção seja a da ajuda, pura e simples.» Está a falar do Paquistão, um país com «vida tribulada» (mais antigo e próximo do étimo latino que «atribulada»). Se estivesse em amena conversa com o autor, agradecer-lhe-ia as palavras, e sobretudo «macaréu», mas também lhe perguntaria se queria mesmo manter esse disparate de «catástrofes humanitárias»; perguntar-lhe-ia se as primeiras estimativas para a reconstrução do Paquistão apontam mesmo para «15 biliões de euros» ou se não será um valor com uns zeros a menos; dir-lhe-ia que se não escreve «as referidas vinte milhões de almas», mas «os referidos vinte milhões de almas».
Macaréu. Dos três dicionários aqui mais citados, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o que apresenta a melhor definição: «Onda de maré formada pelas grandes massas de água acumuladas na preia-mar, à entrada de certos estuários, e que avança, em forma de muralha, pelo rio, após ter vencido a força da corrente deste.» O verbete do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa claramente de ser revisto.
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