Género de «dengue»

Simples casmurrice?


   O Diário de Notícias continua a atribuir o género masculino ao vocábulo «dengue»; os dicionários continuam a registá-lo somente como sendo do género feminino. «A Holanda identificou uma colónia de mosquitos Aedes aegypti, responsáveis pela transmissão do dengue e da febre-amarela» («Portugal atento ao regresso do mosquito da febre-amarela», Ana Maia, Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 14).

[Post 3812]

«Dobrar os óculos»

Idiomático, sim, mas


      «“Já estava a dobrar os óculos com as mãos”, contou ontem ao CM o professor, que pediu para não ser identificado, lembrando que não é a única vítima do rapaz com necessidades educativas especiais. Há pelo menos cinco casos. O aluno ataca sobretudo os óculos de docentes e funcionários» («“Professor, vou-te partir os óculos!”», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 23.05.2008).
      Não, não vou falar de rufias mentecaptos. Reparem naquela forma peculiar de dizer: «dobrar os óculos». Será mesmo peculiar? «He took off his glasses and folded them on his lap...» «Tirou os óculos e dobrou-os no regaço...» Podia pensar-se que se adequaria mais o verbo «fechar», por exemplo: «Já estava a fechar os óculos com as mãos.» Não, não: o rufiazinho já estava a dobrar, para partir, os óculos.

[Post 3811]

Sobre «câmara-de-ar»

Imagem tirada daqui

Pensemos nisto


      Os Brasileiros grafam câmara de ar e nós, câmara-de-ar. O problema, porém, não é nem podia ser esse. Vejam a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Tubo circular de borracha que, cheio de ar, se ajusta à volta do aro das rodas das bicicletas, dos automóveis, etc.» Ora bem, e como se diz «câmara-de-ar» em inglês? Justamente: inner tube. E que nome se dá ao compartimento que, nas naves espaciais, permite a passagem de pessoas e objectos de uma área com um nível de pressão para outra com diferente nível? Em inglês, airlock. Em português, muitas vezes câmara de ar. E sala estanque. E sistema de saída para o espaço. E escotilha de despressurização... Supondo que a primeira é a designação mais usada, falta acrescentar uma acepção no verbete dos dicionários. E mais: não há compartimento destes somente nas naves espaciais.  É verdade que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista, além da definição do dicionário da Porto Editora, esta: «Cavidade que contém ar.» Contudo, não me satisfaz.

[Post 3810]

Tradução: «levelly»

Desnivelado


      Conheciam-se mal, era a segunda vez que se encontravam. Estavam agora num cafezinho. «She watched him levelly», dizia o original, e fez-lhe outra pergunta relacionada com o pai dele. «Ela observou-o com equanimidade», complicou o tradutor. «Equanimidade» é uma palavra demasiado pesada e, ao mesmo tempo, demasiado etérea. «Equanimidade» é, e sigo a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «igualdade de espírito perante a prosperidade e a adversidade; serenidade de espírito; imparcialidade; rectidão». Estavam sentados, pelo que aquele «levelly» até pode referir-se à posição que ela adoptou: observou-o de frente. Fitou-o olhos nos olhos. Ou, até, olhou-o de igual para igual, mas só um contexto mais alargado permitiria dizer se se adequava. Que acham?

[Post 3809]

Tradução: «deck»

Imagem tirada daqui


Proponham


      Uma casa junto do mar, assente em palafitas (stilts), com um deck à volta. Um deck... Talvez uma plataforma, uma coberta... Não, «coberta» não, faz lembrar demasiado um navio, que, apesar de tudo, a casa não é. É difícil encontrar a palavra certa. Sim, com certeza, um promotor imobiliário diria, presunçoso, «deck». Nós não podemos exprimir-nos assim.

[Post 3808]

Léxico: «macaréu»

Para a troca


      Como nos acontece em relação às pessoas, também há palavras que nos parece já termos encontrado alguma vez. «Macaréu» é uma delas. Na crónica de Nuno Rogeiro no Jornal de Notícias de ontem («Águas profundas», p. 9), fui encontrá-la: «Parece natural que, face a terramotos e macaréus, incêndios e vendavais, a primeira reacção seja a da ajuda, pura e simples.» Está a falar do Paquistão, um país com «vida tribulada» (mais antigo e próximo do étimo latino que «atribulada»). Se estivesse em amena conversa com o autor, agradecer-lhe-ia as palavras, e sobretudo «macaréu», mas também lhe perguntaria se queria mesmo manter esse disparate de «catástrofes humanitárias»; perguntar-lhe-ia se as primeiras estimativas para a reconstrução do Paquistão apontam mesmo para «15 biliões de euros» ou se não será um valor com uns zeros a menos; dir-lhe-ia que se não escreve «as referidas vinte milhões de almas», mas «os referidos vinte milhões de almas».
      Macaréu. Dos três dicionários aqui mais citados, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o que apresenta a melhor definição: «Onda de maré formada pelas grandes massas de água acumuladas na preia-mar, à entrada de certos estuários, e que avança, em forma de muralha, pelo rio, após ter vencido a força da corrente deste.» O verbete do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa claramente de ser revisto.

[Post 3807]

Tradução: «stepping-stone»

Também é dramático


      Já duas personagens diferentes passaram sobre stepping-stones para chegar aonde queriam. Bem, no primeiro caso, as pedras do jardim eram como stepping-stones. No segundo, sim, eram mesmo stepping-stones. Das duas vezes, o tradutor, ignorante da palavra portuguesa, diz que a personagem «pulava pela correnteza de pedras que serviam de trampolins». Estão a ver como há sempre quem não saiba?
      Há quatro anos já que aqui referi que a tradução correcta desta palavra inglesa é alpondra. Entretanto, já nasceram novas fornadas de tradutores.

[Post 3806]

Tradução: «dramatically»

É claro que é dramático


      Eurico de Barros escreveu um texto todo catita sobre as recomendações do organismo nacional de turismo britânico, o VisitBritain, sobre os Jogos Olímpicos de 2012, mas com os erros que qualquer tradução descuidada tem. Segundo aquele organismo, a Espanha era até há pouco tempo muito machista, mas mudou «dramatically». «Dramaticamente», traduziu o jornalista. Quando tiver de a usar num contexto que a exija, a palavra terá perdido eficácia. O texto («Como lidar com os estrangeiros», Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 44) começava com uma «listagem de sugestões para consumo interno e conformes às características nacionais dos muitos turistas que acorrerão às Olimpíadas de 2012». «Listagem», pois.

[Post 3805]

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