Tradução

HERALDO.es


      A edição de ontem do Diário de Notícias tinha pelo menos mais um espanholismo. Nas páginas 6 e 7, mencionava-se a fortuna conhecida de algumas personagens que ficaram na História. Se, por um lado, fiquei satisfeito por ver que a minha fortuna se aproxima muito, se não a ultrapassa, do património deixado por Lewis Carroll, deixando muito para trás o pobre Karl Marx, por outro, não gostei de ler, também numa má tradução do espanhol, que o explorador polar anglo-irlandês Ernest Shackleton (1874–1922), «após más inversões», «perdeu parte da sua fortuna». Mal traduzido daqui — e sem indicação da fonte. Oh, vergonha! Este jornal costumava ser mais sério.

[Post 3780]

«Selecção aleatória»

Sem rumo nem ordem


      «O homem também desenvolveu novas espécies vegetais como o triticale (pelo cruzamento, há mais de 540 anos, de trigo e centeio, obtendo uma planta mais rústica que o trigo mas mais performante que o centeio) ou as nectarinas, pelo cruzamento entre o pêssego e a ameixa. Fê-lo pelo método tradicional de selecção, introduzindo genes ao azar. Nos organismos geneticamente modificados (OGM), por seu lado, apenas se transfere o gene pretendido, por processo controlado» («Biotecnologia na Agricultura», Gabriela Cruz, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 51).
      Se pensam que vou implicar com aquele performante, não se enganam muito — e afirmo mesmo que é uma vergonha que se usem estas palavras. Mas, na verdade, atraiu muito mais a minha atenção a locução ao azar, que não passa da má tradução da locução espanhola al azar.
      «Método tradicional de selecção» — por vezes, também numa má tradução, dita selecção randómica, vergonhosa e desnecessariamente decalcado do inglês random selection. Em espanhol é, já terão adivinhado, selección al azar.

[Post 3779]

Léxico: «rodofluvial»

Algo inédito


      «“O motorista travou, travou, travou, mas o autocarro não parava. Foi um terror. Pessoas pelo chão, outras a fugir e crianças aos gritos.” Foi este o cenário vivido ontem ao fim da tarde no terminal rodofluvial do Barreiro descrito por Anabela Militão, que testemunhou o momento em que a “carreira 7” abalroou várias pessoas que, pelas 18.20, se encontravam na paragem do autocarro à espera da “carreira 3”, tendo provocado a morte a um homem, na casa dos 50 anos, e ferimentos graves numa mulher. Há mais três feridos ligeiros que não correm perigo de vida.» («“Foi um terror, pessoas pelo chão, outras a fugir e gritos”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 11.08.2010, p. 16).
      Já aqui vimos mais de uma vez a grafia de rodoferroviário. Hoje, temos esta, também correcta, rodofluvial. Só não percebo é porque tão poucos dicionários registam estes vocábulos.

[Post 3778]

Becas e togas

Luxo e simples decoro


      «Disse-me, ontem, o jornal i: das reformas milionárias (de mais de 5 mil euros), do total das atribuídas desde Janeiro de 2008, “mais de metade corresponde a aposentações de magistrados, incluindo juízes e procuradores”. Calculo os que servem o Estado em lugares superiores, de simples licenciados em Direito e economistas a museologistas, cardiologistas e professores de física quântica, e vejo mal como eles, todos somados, sejam menos, em número, que os juízes e procuradores. Então, como é que as becas e togas se abarbatam com mais de metade das melhores reformas?» («Explicação de tanta manchete», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 11.08.2010, p. 52).
      Ferreira Fernandes parece vestir os juízes de becas e os procuradores de togas, é isso? Nesta questão, os dicionários de pouco ou nada nos servem, e, menos que todos, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a cujos responsáveis recomendo vivamente uma nova e cuidada redacção dos verbetes «beca» e «toga». Em relação ao traje profissional, o que o Estatuto dos Magistrados do Ministério Público estatui para cada figura da cadeia hierárquica é que usa o que compete ao magistrado judicial a que é equiparado. Se, de seguida, consultarmos o Estatuto dos Magistrados Judiciais, lemos que os «magistrados judiciais usam beca». Assim, juízes e procuradores usam beca. As togas são usadas pelos advogados. Os funcionários de justiça usam capa. Réus e arguidos só têm de observar o decoro na indumentária que usam em audiência.

[Post 3777]

Léxico: «paneiro»

Imagem tirada daqui

Seco ou enjoado, no paneiro

      Estão a ver as bases rectangulares onde o peixe está a secar? Como se chamam? Pois é, também eu, há uns anos, tive muita dificuldade em traduzir uma palavra espanhola para designar o mesmo. «Francelina sorri e continua a labuta. Tem vários paneiros (grandes rectângulos de madeira, onde é aplicada rede de pesca da arte xávega esticada, de modo a que o ar circule e seque o pescado), para preencher e o tempo escasseia» («Nazaré mantém viva a tradição da secagem do peixe», Alexandra Serôdio, Jornal de Notícias, 9.08.2010, pp. 24 e 41). E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que regista tantas acepções até caídas em desuso, como o regionalismo (alentejano?) com que se designava o rapaz que estendia panos (chamados toldos ou toldes — mais uma acepção ignorada pelos dicionários — feitos de ráfia) debaixo das oliveiras durante a apanha da azeitona, não regista o vocábulo nesta acepção.
      Vá, agora já podem pôr carapaus, salemas, sáveis e polvos a secar nos paneiros. Ao gosto de cada um: «[Francelina Quinzico] Explica que há quem goste do peixe seco, que demora dois a três dias a secar (dependendo das condições climatéricas e da temperatura), ou do enjoado[,] que “não é bem seco nem bem cru”» (idem, ibidem).

[Post 3776]

Unidades de massa

E isso dá?...


      Todos os dias se lê *graus centígrados, e, contudo, sabemos, e há leitores a lembrarem-nos, que correcto é graus Celsius. «Vladimir Ladyzhenskiy, o russo que participou no concurso da cidade de Heinola, morreu após resistir a 110 graus centígrados durante seis minutos» («Não haverá mais campeonatos de sauna», Jornal de Notícias, 10.08.2010, p. 23).
      Mas não é só na imprensa e não apenas com os graus: «Ao entrarem, já vários hóspedes se encontravam na sala, com revistas rasgadas pousadas sobre os joelhos, à espera como eles: um jovem sueco de estatura enorme, que tomava as refeições à mesa de Settembrini e que, ao que constava, chegara tão doente em Abril que já nem o haviam querido receber; entretanto, havia engordado oitenta libras e estava prestes a ter alta por se encontrar completamente curado; havia ainda uma mulher da mesa dos russos maus, de aspecto deplorável, com um filho feio e de nariz comprido, um rapazinho chamado Sascha de aspecto ainda mais deplorável do que a mãe» (A Montanha Mágica, Thomas Mann. Tradução de Gilda Lopes Encarnação e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Dom Quixote, 2009, 2.ª ed., p. 241). O original fala em «achtzig Pfund» («Sie waren nicht allein: mehrere Gäste hatten, zerrissene illustrierte Zeitschriften auf den Knien, schon im Zimmer gesessen, als sie eingetreten waren, und warteten mit ihnen: ein reckenhafter junger Schwede, der im Speisesaal an Settembrinis Tische saß, und von dem man sagte, er sei bei seiner Ankunft im April so krank gewesen, daß man ihn kaum habe aufnehmen wollen, nun aber habe er achtzig Pfund zugenommen und sei im Begriffe, als völlig geheilt entlassen zu werden; ferner eine Frau vom Schlechten Russentisch, eine Mutter, selbst kümmerlich, mit ihrem noch kümmerlicheren, langnäsigen und häßlichen Knaben namens Sascha»).
      O que é que a unidade de massa libra diz ao leitor médio português? Nada. Se quiser saber mais (e que remédio, nem sequer há nota de rodapé), terá de consultar um dicionário, e o facto de a definição afirmar que é uma unidade de massa utilizada no sistema inglês pode logo induzir em erro, e, neste caso, a diferença entre consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss é meramente de casas decimais: «equivalente a 453,6 gramas», diz aquele; «equivalente a 0,4535923 quilogramas», diz este.

[Post 3775]

Ortografia: «multiorgânico»

Semelhanças


      «O Hospital Dr. José de Almeida (Cascais) fez a sua primeira colheita multi-orgânica» («Colheita multi-orgânica no Hospital de Cascais», Correio da Manhã, 10.08.2010, p. 21).
      As palavras formadas com o elemento multi- não levam hífen. Logo, grafar-se-á multiorgânico, como também se grafa multiatómico e multiétnico.

[Post 3774]

Plural: «corta-ventos»

Pensar também é um hábito

      Os agentes da PSP vão ter novo fardamento. Em certas circunstâncias, vão parecer gaúchos — pois vão usar ponchos. «Identificação mais fácil. Blusões, anoraques, corta-vento, fatos de motociclista, pólos de manga curta ou comprida e ponchos têm bem visível atrás a palavra “polícia”» («Polícias pedem mais apoio», Carla Soares, Jornal de Notícias, 10.08.2010, p. 8).
      Esqueçam os ponchos, eu queria é falar daquele «corta-vento». Já aqui falei duas vezes deste vocábulo, mas por outros motivos. O plural é então, senhores revisores do Jornal de Notícias, «corta-vento», invariável? Não me parece. Por analogia, lembro-me logo de «guarda-vento», composto em que guarda também é uma forma verbal do verbo guardar, e o plural deste é guarda-ventos.

[Post 3773]

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