Acordo ortográfico

Trapalhadas


      Num texto de Leonel Moura na edição de fim-de-semana do diário Negócios, aconteceu o que eu já temia: uma trapalhada sobre a interpretação das novas regras ortográficas. Em rodapé, lê-se: «Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.» O texto fala da «megacidade» de São Paulo e de «arquitetos», «projetar», «projeto», de «atividade», de uma «atriz», etc. Agora leiam dois breves excertos: «Daí a separação social. Que não é só de carácter econômico, mas também e muito evidentemente física» («Paulista acidental — 2», p. 19). E mais: «Mas a influência da megacidade nos indivíduos vai muito para lá da condição econômica. Afeta sobremaneira os comportamentos.» Resultado da interpretação das famigeradas duplas grafias? Não seria melhor, neste período de transição, proceder-se ao estudo das novas regras ortográficas, em vez de aplicá-las tão impensadamente?


[Post 3745]

«Tigre-de-bengala»

Despedido



      Por causa atendível. «Tem 17 meses, pesa cerca de 120 quilos e foi notícia um pouco por toda a África do Sul. Panjo, o tigre-de-benguela que desapareceu na segunda-feira enquanto era levado pelo dono a uma consulta veterinária, reapareceu ontem a 50 quilómetros de Pretória, segundo a rádio 702» («‘Panjo’ reaparece após dois dias», Diário de Notícias, 29.07.2010, p. 29).
      Como tudo aconteceu na África do Sul, o jornalista, na sua suprema inconsciência geográfica, achou que o tigre não podia ser da asiática Bengala, mas da província angolana de Benguela. No Ciberdúvidas dizem que Bengala e Benguela são parónimos. Eu acho que não.

[Post 3744]

Nome de entidades

Pensem


      «“Sabemos que uma grande quantidade de petróleo se dispersou e biodegradou”, revelou a directora da agência de investigação oceânica e atmosférica (NOAA)» («Maré negra dispersa-se rapidamente no golfo do México», Ana Fonseca Pereira, Público, 29.07.2010, p. 17).
      Este é um erro para o qual já aqui chamei a atenção: o nome, traduzido ou na língua original, de qualquer entidade é grafado com maiúsculas iniciais. Creio que são trapalhadas que vêm da Lusa e que alguns jornais aceitam acriticamente. No Público, também se deviam recordar que já lhe chamaram Administração Nacional Oceânica e Atmosférica.

[Post 3743]

Castelhanismos

Imagem daqui.

Tapas e gringos


      «A cidade mais violenta do mundo, actualmente, é Ciudad Juárez (191 homicídios por 100 mil habitantes em 2009). De Juárez aos Estados Unidos são cinco minutos a pé, pela ponte sobre o rio Bravo (ou rio Grande, como lhe chamam os “gringos”)» («A violência no México não passa para os Estados Unidos», Alexandra Lucas Coelho, Público, 29.07.2010, p. 6). «No programa do concurso é também definido que produtos deverão ser “preferencialmente” comercializados em cada um dos espaços: no primeiro chocolates, gelados, crepes, chás e cafés, no segundo saladas, frutas e sumos naturais, no terceiro vinhos, queijos e enchidos, no quarto cervejas e petiscos, no quinto tapas e o sexto tem “tema livre”» («Crepes, frutas, queijos e enchidos chegam à Av. da Liberdade em 2011», Inês Boaventura, Público, 29.07.2010, p. 25).
      Daria que pensar este critério de grafar «gringo» entre aspas e «tapas» sem aspas. Daria, se não se soubesse que nos jornais não há muito tempo para pensar — nem sequer sobre o que se fez de mal na edição da véspera. O primeiro uso do vocábulo gringo na língua portuguesa regista-se ainda no século XIX. Tapa tem entre nós um currículo de uma década. Ambos castelhanismos, ambos registados nos mais vulgares dicionários da língua portuguesa. Levado aos limites, seria precisamente ao contrário: «tapas» com aspas e «gringo» sem aspas.

[Post 3742]

Sobre «mina»

Uma acepção quase perdida


      Os dicionários vão ficando cada vez mais pobres. Onde pára a acepção do vocábulo mina relativo à galeria subterrânea que se abre nos sítios das praças, pondo no fim dela uma recâmara cheia de pólvora ou outro explosivo para que, dando-lhe fogo, arruíne as fortificações? Só no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas muito mal explicado e redigido: «Fortif. Cavidade que (cheia de pólvora) faz ir pelos ares o que há por cima.» Bem, também, admito, o Dicionário Houaiss, e, aliás, com uma redacção suspeitamente semelhante, e por isso igualmente mal explicado.

[Post 3741]

Verbos pronominais

Decidir-se por


      O revisor antibrasileiro voltou ontem a afirmar pernóstica e categoricamente que a forma como os Brasileiros escrevem e falam tem contribuído decisivamente para a degradação da língua portuguesa. Há ali, nada me desconvence, qualquer trauma, e menos latente que efervescente. Pouco falta, se algo falta, para negar a existência de verbos pronominais na língua portuguesa. «Veja aqui: “O presidente decidiu-se pela dissolução do clube.” “Decidiu-se”! Já não é “decidiu pela”.» Não me mostrei bisonho e disse-lhe que eu me decidia pela pronominalização. Amochou. («Retraiu-se», diria, se ele não se melindrasse com o se inerente.)

[Post 3740]

Sobre «esguízaro»

Vejam lá


      Levado por semelhanças e fiado nas aparências, o tradutor do espanhol até pode traduzir esguízaro por janízaro. Já vi... O contexto e a raridade do vocábulo podem levar a isso. Ora, se os modernos dicionários de espanhol só lhe fazem corresponder o sinónimo «suíço», é preciso lembrar que é algo mais do que isso. O DRAE di-lo provindo do alto alemão médio Swîzzer. A verdade é que provém de sguizzero, «da Suíça». Sguizzero é vocábulo dialectal romanesco por svizzero, «suíço». O termo, contudo, e isto é, a meu ver, o mais importante, utilizou-se sobretudo em referência aos elementos da Guarda Suíça Pontifícia, o corpo de guarda encarregado, desde 1506, de escoltar e proteger o papa.

[Post 3739]

Sobre «bisonho»

Quase, quase


      Abram aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 240. Bisonho. «inexperiente; inábil; (soldado) não exercitado); principiante; acanhado; tímido». Vem do castelhano bisoño, «inexperiente», do italiano bisogno, necessidade».
      Actualmente, em termos de uso, prevalece a última acepção, «acanhado; tímido». Interessa-me agora, porém, a etimologia. Na época de Cervantes (1547—1616), era um dos muitos italianismos em castelhano. Era o termo, que designava de facto o soldado novo e inexperiente, com que os italianos se referiam, ironicamente, aos soldados espanhóis recém-chegados a Itália — o que mais tarde se chamou Itália, pois só no século XIX Massimo D’Azeglio (1798—1866), destacadíssimo dirigente do Reino unificado de Itália, pôde afirmar: «L’Italia è fatta, ora van fatti gli italiani.» Ora em 1502, os Reis Católicos enviaram o exército espanhol (o mais numeroso e heteróclito da Cristandade, com espanhóis, italianos, alemães, valões, etc.), comandado pelo grão-capitão Gonzalo de Córdoba, a Itália. Quando precisavam de qualquer coisa, os soldados do exército espanhol dirigiam-se aos italianos com um escasso «io bisogno», «preciso»...

[Post 3738]

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