Infinitivo flexionado

Também movediças


      Mais uma vez a questão do infinitivo e da sua flexão. Leiam esta frase: «Mas também ouvimos pessoas rejubilar com essa mesma erosão […].» Com verbos sensitivos, defendem alguns estudiosos da língua, não se flexiona o infinitivo. Mas há excepções, alertam outros: se o sujeito vier antes do verbo no infinitivo, a flexão do infinitivo já é obrigatória. É o que eu também defendo. Ora, é justamente o caso da frase que cito acima. Logo, eu escreveria (e corrijo, porque sou revisor e tenho de tomar decisões, que, por vezes, sou chamado a justificar): «Mas também ouvimos pessoas rejubilarem com essa mesma erosão […].»
      É este caso idêntico ao dos dragões? Não é: a de hoje tem uma estrutura diferente, estão em causa dois verbos e dois sujeitos. Mas vale a pena compará-las. Gostava de conhecer a opinião dos meus estimados leitores.

[Post 3721]

Diâmetro da areia

Areias movediças


      «Leva tempo — muito tempo, milhares de anos —, mas a acção da água e do vento é muito eficaz a destruir as rochas para criar os minúsculos grãos que, por definição, têm mais de 0,062 milímetros e menos de dois» («Fazer castelos com fragmentos de quartzo e conchas», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 56).
      As dimensões devem ter sido indicadas à jornalista pelo geólogo Pedro Pimentel, que foi entrevistado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que cada partícula, cada grão de areia, tem um diâmetro que varia entre 0,07 mm e 2 mm. Além disso, no artigo o limite superior fica abaixo de 2 mm, e na definição do dicionário esse limite é inclusivo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não se mete nestas areias, contas miúdas, nem o Dicionário Houaiss. Em coisas pequenas, porém, as mínimas discrepâncias importam, e 0,062 mm não são 0,07 mm. Algum geólogo que nos leia nos ajude.

[Post 3720]

Sobre «cotar»

Não em português

      «“Para traçar um perfil psicológico, eram necessárias várias baterias de testes para apurar se há patologia mental. Mas algumas características cotam imediatamente uma série de items da avaliação de psicopatia”, refere a especialista [psicóloga forense Maria Francisca Rebocho]» («Egocentrismo e excentricidade podem revelar traços de psicopatia», Sónia Simões, Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 2).
      Podia ser uma acepção rara do verbo cotar, «apreciar; avaliar», mas suspeito que há aqui anglicismo. To quote é «referir, indicar», e creio que é o que está por detrás daquele verbo. De resto, temos um indício logo a seguir: estão a ver como está grafado aquele «items»? Então, não é difícil imaginar como foi pronunciado. Em português, o plural é «itens». Quanto ao «cotam» talvez não houvesse nada a fazer, mas já o «items» a jornalista tinha obrigação de corrigir.

[Post 3719]


Léxico: «tubo arterial»

Embalsamamento


      «A Leslie Hindman Auctioneers vai leiloar no próximo dia 12 de Agosto os instrumentos usados na autópsia e na embalsamação do cantor Elvis Presley, além de outros artigos, como a etiqueta colocada no corpo para sua identificação, luvas de borracha, fórceps e tubos arteriais. Os artigos foram guardados durante todos estes anos por um técnico de embalsamamentos da funerária Memphis Funeral Home que prefere manter o anonimato» («Instrumentos da autópsia a leilão», Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 33).
      Os dicionários não registam a locução tubo arterial, e bem o podiam fazer. Ora vejam quantas locuções regista o Dicionário Houaiss no verbete «tubo». Pois é. No Embalming Online Glossary, em linha, vemos que antigamente em inglês se dizia canula, e nós também temos o vocábulo, cânula.

[Post 3718]

Léxico: «palhaça»

Outra lacuna


      «Ver as palhaças é um bom motivo para uma visita a esta terra [Santana, Madeira]. Palhaças são as casas cobertas de colmo, de duas águas, sobre estruturas de madeira» («A ilha renascida», Francisco Mangas, «Verão»/Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 7).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem uma palavra. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, não omite o verbete: «Palhaça, s. f. Ant. Dizia-se das habitações feitas de palha.» Dizia-se e diz-se, pelo que se vê.

[Post 3717]

Léxico: «de levante»

Erros levantinos


      «A PSP de Leiria e a ASAE apreenderam roupa, CD, DVD, óculos e perfumes contrafeitos no mercado do Levante. Três feirantes foram detidos» («Leiria. Material contrafeito», Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 12).
      O revisor antibrasileiro estava ao meu lado, pelo que lhe perguntei, como quem não quer a coisa, o que entendia da notícia e, especialmente, quanto ao local. Que tudo tinha acontecido, afirmou, no mercado de Levante, provavelmente alguma localidade, uma aldeia, de Leiria. Vê, senhor jornalista? Vê, senhora revisora? Dois erros em duas palavrinhas. Não é do, mas de; não é Levante, mas levante. A locução é de levante. Alguns dicionários registam-na, mas sem a referirem de forma explícita aos mercados. Habitualmente, nos regulamentos municipais, os mercados são classificados em permanentes ou de levante conforme disponham ou não de instalações próprias e fixas e se destinem essencial e predominantemente à venda a retalho de produtos alimentares. Dezenas de localidades têm, ainda hoje, mercados de levante. De levante porque são provisórios, se levantam. Com maiúscula inicial, Levante, é coisa bem diversa: é o conjunto dos países do Mediterrâneo Oriental (Turquia, Síria e Egipto) e Ásia Menor, como o define o Dicionário Houaiss.
      O revisor antibrasileiro não deixou de afirmar, e eu acredito, que, se tivesse sido ele a rever a notícia, não deixaria de pesquisar, pois desconhecia a locução. É a atitude certa.

[Post 3716]

«Aparentamento de listas»?

Parentes desavindos


      Que o desculpassem se era um termo jurídico, disse anteontem à noite, na Sic Notícias, Henrique Monteiro, director do semanário Expresso, mas que ele não entendia o que é «aparentamento dos partidos». E estava flanqueado por dois constitucionalistas, Bacelar Gouveia e Reis Novais. Mas estes fingiram não ter ouvido, apesar de Henrique Monteiro ter repetido a dúvida e ter assegurado que estava a falar a sério. Confesso que também não sei, mas se se citar fielmente o que parece ser a proposta do PSD, alguma luz se faz. O que se lê e ouve em todos os lados é que, no que respeita à eleição dos deputados, o PSD quer admitir «o aparentamento de listas para efeito de combinação de votos nos círculos locais». Ainda assim, não me atrevo a formular qualquer explicação. É claro que não é termo jurídico. Há-de ter sido inspiração do momento de algum porta-voz daquele partido. Se não foi, como tantas vezes é, resultado de incompreensão dos jornalistas.

[Post 3715]

Léxico: «submersível»

Avance a Marinha


      «A Procuradoria Geral da República (PGR) anunciou ontem a abertura de um inquérito para apurar se a relação pessoal entre a procuradora-adjunta, Carla Dias, e José Felizardo, que foi perito no processo dos submarinos e é presidente da INTELI, prejudicou a investigação à compra dos submersíveis ao German Submarine Consortium (GSC)» («PGR investiga relações pessoais», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 21.07.2010, p. 52).
      «Adjunto», já aqui o vimos, nunca se liga por hífen a outros elementos de locuções. (O hífen deve ter caído da primeira linha, de «Procuradoria-Geral».) Mas não é disso que quero agora falar. Nem daquela inconcebível pontuação depois de «procuradora adjunta». Antes sobre o vocábulo submersível. Talvez não passe de escusado galicismo, mas vejamos o que registam os dicionários.
       Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o faz equivaler a «submarino» (tal como o Dicionário Houaiss, que acrescenta que é pouco usado), já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define assim «submersível»: «Espécie de torpedeiro que, em caso de necessidade, pode navegar submerso.» Em francês, por exemplo, sous-marin e submergible remetem para conceitos diferentes — e, pelo que posso ver, também em português. Logo, optar por um ou por outro vocábulo não é nunca uma questão estilística.

[Post 3714]

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