Acordo Ortográfico


Há quem discorde


      Alguns leitores da Visão insurgiram-se com a decisão de a revista adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Nada de especial, isto acontece muitas vezes. Na nota da redacção, argumentam: «A norma ortográfica até há pouco tempo em vigor, e que vários leitores pensam ser um património porque a confundem com a língua, contava só 99 anos, e teve ainda pontualmente alguns ajustes.» Só 99 anos... E a ortografia não é um património? (Só nas línguas ágrafas...) Quem está contra o AO90 discorda: «O Acordo Ortográfico de 1990 — que não pedimos, não queremos, e de que não precisamos — é, objectivamente, um atentado contra o nosso património, contra o nosso povo e contra o nosso desenvolvimento» («Acordo ortográfico: pareceres ignorados, deveres do Estado e direitos dos cidadãos», António Emiliano). E porque é que se afirma que as novas regras ortográficas aproximam a língua escrita da língua falada?

[Post 3677]

Sobre «tecto»

Vão acertando


      «Trata-se da fixação de tectos a algumas prestações sociais, como o rendimento social de inserção, marcada já para o próximo Orçamento do Estado, em Outubro» («Tectos para prestações sociais abrem ruptura no PS», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 2).
      Perfeito: esqueceram-se do inconcebível plafond e já não caem na redundância do «tecto máximo». Só é pena que ainda não tenha entrado na cabeça de toda a gente.

[Post 3676]

Léxico: «estanteirola»

Não será fácil


      Foi expungido de todos os dicionários o termo estanteirola. Só numa edição de 1831 do velho Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais o encontro: «Coluna de pau ao princípio da coxia, a qual sustinha o tendal, e junto a ele assistia o capitão mandando.» E abona com uma citação de Diogo do Couto. Mas a definição devia dizer mais: que era um posto elevado coberto de um toldo. Se estivermos a ler uma tradução do Dom Quixote e não houver uma nota a explicar o vocábulo (em espanhol é estanterol), não saberemos de que se trata.

[Post 3675]

Sobre «ethos»

É pena


      Habitualmente, em obras de filosofia, pelo menos as editadas em Portugal, só se usa ethos. Que ethos é este? É, ou pode ser, o vocábulo grego ἔθος, que os Romanos transliteraram por ĕthos, «hábito, costume, tradição», e raiz de «ética». Já ἦθος foi transliterado para o latim como ēthos, e é habitualmente traduzido por «morada, residência, domicílio», e, por extensão de sentido, «carácter, natureza habitual». O Dicionário Houaiss menciona-os, respectivamente, como éthos e êthos, dois grecismos. Mas, no aportuguesamento, é apenas etos que consta neste mesmo dicionário para os dois vocábulos. Lá se evolou a univocidade, ideal e necessidade de toda a ciência.

[Post 3674]


Actualização em 5.10.2010

      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).


«Dar/tirar residência»

Actualizar os clássicos


      «Señor gobernador, de muy buena gana dejáramos ir a vuesa merced, puesto que nos pesará mucho de perderle; que su ingenio y su cristiano proceder obligan a desearle; pero ya se sabe que todo gobernador está obligado, antes que se ausente de la parte donde ha gobernado, a dar primero residencia: déla vuesa merced de los diez días que ha que tiene el gobierno, y vayase a la paz de Dios» (El Ingenioso Hidalgo Don Quijote De La Mancha, Cervantes. Cap. LIII).
      Podemos perguntar-nos o que faz hoje mais sentido. A tradução dos viscondes de Castilho e de Azevedo diz: «mas é sabido que todo o governador deve, antes de se ausentar, dar primeiro residência». Daniel Augusto Gonçalves traduziu: «mas já se sabe que todo o governador está obrigado antes de se ausentar do lugar onde governou a prestar primeiro contas».
      Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista tirar residência, «examinar o procedimento e serviço de alguém, sindicar». Só um juiz podia tirar residência, mas, no excerto do Dom Quixote, fala-se de quem tem de dar residência, neste caso, os governadores. Falta, pois, nos dicionários, esta locução. Nos dicionários de espanhol, não apenas está registada a acepção correspondente do substantivo residência, «processo ou auto formados a quem foi residenciado», como o próprio verbo residenciar: «Dito de um juiz: tomar conta a outra pessoa da conduta que observou no seu desempenho que exerceu cargo público.»

[Post 3673]

Entidade certificadora

Anjinhos


      A abertura de hoje do Ciberdúvidas é um elogio à iniciativa do YouTube de atribuir um selo de qualidade que atesta a correcção linguística das legendas em inglês dos vídeos carregados pelos utilizadores. E não têm dúvidas em afirmar que «esta é uma iniciativa que se apresenta como um bom exemplo a seguir (e a generalizar) para o português: uma certificação de qualidade tipográfica e linguística para todos os produtos dos media (imprensa incluída), traduzidos para ou criados em português».
      «Qualidade tipográfica e linguística»... Bem, como utopia não está mal, mas resta perguntar que entidade seria essa e se o selo seria atribuído à peça ou por tradição. Sim, por tradição: a empresa x é muito boa, podem pôr selos em tudo quanto produzirem. Isto é que é atestar a qualidade? Ou, mais democraticamente, o selo seria atribuído em função da satisfação e segundo critérios dos leitores? Como um leitor da Visão Júnior: «Olá! Adoro a vossa revista. Compro-a todos os dias, sem falta, no dia de lançamento. Nas vossas revistas, desde a trigésima, nunca detectei um erro.» Bem, acho que só se pode detectar um erro quando sabemos que o é. Esperem: «Mas na VISÃO Júnior passada, n.º 73, na página 27, no artigo Dentro de um farol, no sexto balão de fala que tinha o título de «Lâmpada de Farol», escreveram “okm” em vez de “km”. Mas pronto, foi uma pequeníssima gralha.» Logo no agradecimento ao leitor (que também lê a «VISÃO normal»), eis um erro: «Tens toda a razão Guilherme.»

[Post 3672]

«Igualação, igualização»

Desorientando o orientando


      O orientador perguntava, numa grande nota a vermelho, se «igualização» e «igualação» existem. Se sim, não tinha nada a opor. Escrever isto, calculo, demora tanto como pesquisar na Internet. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, edição em linha, por exemplo, o verbete «igualização», remete para «igualação», o «acto ou efeito de tornar igual ou nivelar». No de papel, pode ver-se aqui.
      Nestes casos (e com contornos que não posso divulgar), é de ponderar fazer directamente o doutoramento, sem passar pelo mestrado. Com outro orientador.

[Post 3671]

Como se escreve nos jornais

Parece-me simples


      Todos os dias fico estupefacto com as incongruências e erros que saem nos jornais. Na era da informática, seria facílimo ser disponibilizado, a revisores e jornalistas, na intranet das redacções, não um livro de estilo, mas algo mais específico e exaustivo: uma lista dos vocábulos que habitualmente suscitam dúvidas e de opções da publicação. A lista teria de resultar, naturalmente, de um consenso informado, não do capricho de um só indivíduo. Ainda ontem assisti a uma longa discussão das chefias da redacção porque, depois de anteontem o jornal se ter referido ao clube italiano como Génova, ontem havia quem quisesse (e conseguisse) que fosse Genoa. Mas já se tinha tido a mesma discussão semanas antes. O mesmo se passa com outras, bem mais ponderosas, questões linguísticas. Por vezes, pode nem sequer saber-se de onde parte a directiva. Pode vir um malabruto e lançar: «A partir de hoje, não se escreve “rioavista”, mas “vila-condense”. Anda aí um parvalhão a inventar essa merda.»

[Post 3670]

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