Acordo Ortográfico

AO à la carte


      Agora que a irreversibilidade da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 me parece uma evidência, vamos ter outros dois problemas: o desconhecimento das suas regras e a aplicação à la carte. «Quase todas as outras atividades», escreveu ontem Francisco José Viegas na coluna que mantém no Correio da Manhã, a única, recorde-se, neste jornal segundo as novas regras ortográficas, «pedem às câmaras que os contratem para espetáculos ou ao Estado que lhes pague o que acham.» De fora ficava a edição de livros, que, segundo FJV, não se lamuria nem pedincha nada ao Estado. Umas linhas antes, tinha escrito: «Através das câmaras, o Estado tem financiado a “indústria musical” no Verão — da “música pimba” ao rock e ao hip-hop.»
      Ora, a Base XIX, 1.º, b), do Acordo Ortográfico de 1990 é claro ao estabelecer o uso da minúscula: «Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera.» Já agora, há publicações que, depois de terem, de acordo com a nova ortografia, escrito «espetáculo» e «espetador», recuaram, a pedido, para «espectáculo» e «espectador». Não por vontade própria o fizeram, antes por pressões de vontades alheias. Outra grande fonte de equívocos são as duplas grafias. Malaca Casteleiro afirmou uma vez que serão cerca de 500 vocábulos os que ficarão com dupla grafia e acentuação. Também veio comparar, o que me pareceu pouco avisado, a dupla grafia permitida pelo AO1990 com variantes que a língua já regista, como ouro/oiro e outras semelhantes.
      Faltam, a meu ver, duas coisas para se aplicar cabalmente o Acordo Ortográfico de 1990: discernimento e um vocabulário ortográfico comum.

[Post 3669]

Sobre «quadruplicar»

Barbarismos


      Um jogador, não sei agora qual, vai ganhar quatro vezes mais no novo clube. E o que escrevem os jornalistas? Sim, porque não podem escrever de uma forma tão terra-a-terra. Boa! Mais alatinado: «quadriplicar». (Já que raramente pode ser mais grecizado, como sucedeu com a «sépsis», de que aqui falei hoje.) «O jogador vai quadriplicar o ordenado.» Vão ao dicionário e lá está: quadri- é o elemento de formação de palavras que exprime a ideia de quatro, quádruplo, quatro vezes, quadrado. E na página 1314 do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) encontram em quadru- a remissão para quadri-. Perfeito, pensa o jornalista. No entanto, a única forma correcta é quadruplicar, vinda directamente do latim. É um erro que se repete. Haverá pior? Bem, erro é erro. Ainda ontem, um jornalista escreveu que certo clube «infringiu uma pesada derrota» a outro. Afinal, foi ele, jornalista, o único a infringir as regras e a infligir um duro golpe na nossa paciência.
  (Claro que amor com amor se paga, e eles agora escorraçaram-me do clube deles. Só a hiperligação, porque fisicamente não me apagam.)

[Post 3668]

Sobre «mal-estar»

Não custa lembrar


      No Jogo da Língua, na Antena 1, o locutor prometeu oferecer um exemplar da obra 10 Passos para Chegar ao Topo, de João Garcia e Rui Nabeiro, ao ouvinte que respondesse «com correcção». A pergunta era sobre se se diz e escreve «mau-estar» ou «mal-estar». O ouvinte respondeu «com correcção» e até correctamente. A Prof.ª Sandra Duarte Tavares explicou então que é mal-estar e não *mau-estar porque se trata de um advérbio, como quem diz «estar mal», pois ainda lembra a forma verbal. Também se diz «bem-estar», argumentou. Pois aí é que está: lembra, mas já não é. E se não é, menos estranho seria que fosse «mau-estar», ou não? Mas não é, não. Todos os dias os falantes — entre eles talhantes, jornalistas, professores, tradutores, polícias — se esquecem disso: «Isabela não tinha por hábito impressionar-se com facilidade, mas havia neste homem qualquer coisa que lhe causava mau-estar, acrescido ainda pela sensação de náusea proveniente do seu bafo avinhado, e que era quase insuportável» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, pp. 227-28).

[Post 3667]

Sobre «sépsis»

Será assim mesmo?


      «A implementação da via verde da sépsis, cuja mortalidade é de cerca de 40% no mundo, está a reduzir os casos mortais pelo menos em três hospitais portugueses, onde esse valor é de 22%» («Via verde da sépsis reduz mortalidade em Portugal», Diário de Notícias, 29.06.2010).
      Começamos por nem sequer ter o vocábulo na maioria dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009), por exemplo, não o regista. Regista sepse, que remete para sepsia: «invasão de um organismo por microrganismos» (p. 1450). Mas, porque já houve tempo em que sepsia e septicemia foram considerados, mesmo pela comunidade médica, como sinónimos, vejamos o que diz aquele dicionário sobre septicemia: «estado grave, produzido pela invasão microbiana do sangue, que depois se espalha pelo organismo» (p. 1450). Sendo assim e salvo melhor opinião, não me parece que tenha sido criada uma via verde para a sépsis — mas para a septicemia. Por outro lado, porque é que na definição de «septicemia» não consta a palavra «doença»? Veja-se esta definição: «Doença sistémica associada à presença de microrganismos patológicos ou toxinas no sangue (bactérias, vírus, fungos ou outros) (daqui). Sépsis é a síndrome de resposta inflamatória sistémica (SRIS) devida à infecção.
      Sépsis é o mais próximo do étimo grego. Nesta língua, significava a decomposição de matéria orgânica animal ou vegetal em presença de bactérias. O primeiro registo do vocábulo foi encontrado nos poemas de Homero.

[Post 3666]

Tradução: «nourricier»

Não abdiquem


      «Ces pères nourriciers...» «Estes pais nutritivos...» É um erro imperdoável em qualquer tradutor, e muito mais comum do que se possa pensar. «Nutritivo» é a primeira acepção que surge quando se consulta um dicionário de francês-português, pelo que se abdica inconscientemente de reflectir. Nutrítico, nutritício, nutritivo... No caso, não é defeito dos dicionários, mas dos tradutores. «Estes pais alimentadores...»

[Post 3665]

Tradução: «morbidité»

Com escolha


      O original diz que aquela acção (que não posso identificar) é «responsable d’une diminution de la morbidité et de la mortalité». O tradutor verteu «morbidité» como «morbidez», provavelmente a única correspondência dada pela generalidade dos dicionários de francês-português. Salvo melhor opinião, porém, morbidez é somente a qualidade ou estado de mórbido.
      Em várias línguas, é aos pares que nos surgem os termos relativos. Espanhol, morbilidad ou morbididad. Em inglês, morbidity e morbility. Em alemão, morbididät e morbilität. Em português, morbidade e morbilidade. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista as duas variantes. Vejam as diferenças: «Morbidade: relação entre o número de casos de enfermidade e o número de habitantes, num determinado lugar e momento.» «Morbilidade: relação entre os casos de doença e o número de habitantes de um aglomerado populacional.» Ora, é precisamente nestes casos que não valorizo nada os esforços de redigir verbetes diferentes. E pergunto-me, já que perguntar-lhes seria em vão, se os termos não deviam remeter um para o outro. Se não quisermos perder de vista o étimo latino, escolheremos morbidade.

[Post 3664]

Infinitivo impessoal

Sem escolha


      «No século XVIII, Rousseau, os médicos e os moralistas souberam fazer vibrar esta corda para convencer as mães a consagrar-se inteiramente aos seus filhos, a amamentá-los, a cuidar deles e a educá-los.» Neste caso, já o infinitivo não pode ser — nunca — flexionado, pois, com o verbo («convencer») regido da preposição, funciona como complemento. Efectivamente, ninguém diz ou escreve (melhor: ninguém deve escrever ou dizer) *Os alunos estão dispostos a competirem, ou *Consegui convencê-los a aceitarem. Antes Os alunos estão dispostos a competir, e Consegui convencê-los a aceitar.


Nota: aceitei a sugestão de um leitor de assinalar de cor diferente (escolhi o fundo branco) o que está correcto e a vermelho somente o que está incorrecto. É o que farei doravante.

[Post 3663]

«Rinos»?

Menos sofisticados


      ... e por isso recomendam que os bebés com menos de um ano não vão para a creche. E porquê? «Il atrappe les virus des copains avec leur cortège de rhinos, bronchiolites, etc.» O problema é a tradução: como incluir, sem notas de rodapé, todas as inflamações e outras afecções em que entra como elemento de formação rin(o)? «Cortejo de rinos»? Ao contrário da língua francesa, e já aqui lembrámos mais de uma vez esta característica, o português é um pouco avesso a reduções vocabulares.

[Post 3662]

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