«Passagem-de-ano»?

Poupem-nos


      E a propósito de Rio de Janeiro. Na edição de ontem do Correio da Manhã, escreveu Domingos G. Serrinha, correspondente no Brasil: «Nas 14 horas de chuva mais intensa caíram 178 mm de água, o dobro do esperado para todo o mês, que era de 90 mm. Esta tragédia supera a ocorrida na passagem-do-ano em Angra dos Reis, onde o desmonoramento [sic] de várias encostas fez 53 mortos» («Dilúvio mata dezenas», Correio da Manhã, 7.4.2010, p. 30).
      Já anda por aí há anos este aborto da passagem-de-ano. Estes jornalistas andam a hifenizar o mundo e a infernizar a língua — ou será ao contrário? Ninguém, como ainda ontem desabafava o revisor antibrasileiro, tem mão nisto.

[Post 3325]

«Mundo», acepções

Deste mundo


      A propósito de mundo. Ontem — já disse que voltei ao jornal? Há quem vá para o Rio de Janeiro de férias, eu vou para o jornal trabalhar — um jornalista escreveu: «Jamais lhes indiquei que tomassem substâncias proibidas, nem sabia que as tinham. Para mim, foi uma surpresa, mas no Mundo do ciclismo há muitos que se automedicam.» Porque estão convencidos de que expressa melhor o conceito ou porque são obrigados, muitos jornalistas escrevem com maiúscula inicial o vocábulo «mundo». A significar parte do Universo e os seres que nele habitam, Terra, vá que não vá. Mas há mundos e mundos. O mundo do ciclismo é mais pequeno, muito mais pequeno. É mais um erro de todos os dias.

[Post 3324]

«Têm mais é de»

Suspensão da convivência


      No Portugal dos Pequeninos de ontem, Sónia Morais Santos foi «esmiuçar» os medos das crianças. Os dois primeiros miúdos tinham medos realistas. O terceiro, porém, só temia vampiros e lobisomens. Incitado, espremido, puxado, lá disse que também receava que uma bomba atómica «arrebentasse com a cidade» (e o mundo que se foda) e temia ser obrigado a trabalhar. Comentário final da jornalista: «E tem muita razão. As crianças não foram feitas para trabalhar. Têm mais é de brincar, para o trabalho há muuuuito tempo.» São gostos, decerto — mas eu embirro solenemente com aquele «têm mais é de». Deveria mesmo figurar, entre as faltas ao respeito, à fidelidade, à coabitação, à cooperação e à assistência, como motivo para divórcio. Ou para despedimento.

[Post 3323]

«Êxito de vendas»

Estão a curar-se


      «A biografia do jornalista Ryszard Kapuscinski tornou-se um êxito de vendas na Polónia, seis semanas após a publicação, com mais de 130 mil exemplares distribuídos graças ao conteúdo polémico do livro, que coloca em dúvida a veracidade de algumas reportagens do escritor» («Vida de Kapuscinski é ‘best-seller’», Diário de Notícias, 7.4.2010, p. 53).
      Com o tempo, está a abandonar-se o uso do anglicismo best-seller. Felizmente. Contudo, neste caso, no corpo do artigo lê-se êxito de vendas e no título best-seller. É pena esta incoerência, mas temos de ter noção das restrições de espaço nos títulos. E mais: frequentemente, o jornalista não é o autor do título, que foi atribuído ou alterado por um editor.

[Post 3322]

Léxico: «asa»

Monomania


      «Desde a manhã, quando se inicia o julgamento em que está acusado de homicídio qualificado e de profanação de cadáver, o arguido ia ouvindo os depoimentos sempre com a mesma postura. E quando a magistrada que preside ao colectivo (Maria João Roxo Velez, que tem como “asas” os magistrados Nélson Fernandes e Ana Raquel Pinheiro) lhe pergunta se quer dizer algo no fim das alegações Abel Ribeiro quase sussurra: “Não quero acrescentar mais nada.”» («Filho que matou e congelou a mãe pode ter pena atenuada», Paula Carmo, Diário de Notícias, 7.4.2010, p. 19).
      Não estará na hora de os dicionários registarem esta acepção de asa? As aspas são monomania dos jornalistas. Temem que os pobres leitores pensem que eles se estão a referir ao apêndice membranoso do coleóptero conhecido por magistrado. Os tribunais colectivos, como se sabe, são compostos por três juízes, dois juízes de círculo, um dos quais presidirá ao colectivo, e o juiz do processo. Assim, a definição poderia ter a seguinte redacção: cada um dos dois juízes dos tribunais colectivos que auxiliam o juiz-presidente.

[Post 3321]

Como se escreve nos jornais

Quem borrou a pintura?


      Nunca saberemos quem foi lá mais vezes, se eu se Domingos Amaral. O director da GQ, porém, num artigo publicado ontem, em que celebra o anúncio da reabertura, agora pela mão da Leya, desta livraria, escreveu onze vezes (conto também a ocorrência do destaque) mal o nome, acrescentando-lhe um t e suprimindo-lhe um h: Bucholtz. Como é que alguém se fia na memória para escrever um nome assim? Eduardo Pitta, no Da Literatura, pergunta se o Correio da Manhã deixou de ter revisores.

[Post 3320]

Sobre «mupi»

Não inventem


      «“Reserva o teu lugar entre os melhores do mundo” é o mote da campanha de comunicações das Escolas do Turismo de Portugal, que decorre de Abril a Dezembro, na Internet, mupies e outdoors, imprensa, cinema e acções específicas em todo o país» («Turismo de Portugal lança maior campanha», Diário de Notícias, 5.4.2010, p. 46).
      De todos, é o meu texto mais visto. Nele explico que mupi é um acrónimo. Senhores jornalistas, não inventem, pesquisem.

[Post 3319]

«Acelera», duas acepções

Mas não estão a ver?


      «As aceleras, com menos de 50cc têm sido penalizadas» («Venda de ‘aceleras’ a cair», D. R., Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 25).
      Vejam bem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista só uma acepção, que é a de pessoa que gosta de conduzir a alta velocidade. Pois é, mas no texto é usada outra acepção: veículo de duas rodas accionado por um pequeno motor de explosão. Esta acepção está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que só regista esta acepção. Agora já sabem: têm de passar a registar ambas as acepções. Troquem verbetes.

[Post 3318]

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