Como se escreve nos jornais

Mau exemplo


      Antropónimos com dupla grafia? Hum... «Depois de Terreblanche ter sido assassinado no passado sábado por dois trabalhadores negros, os responsáveis do Movimento de Resistência Afrikaner (AWB) juraram vingança, mas ontem vieram serenar os ânimos. “O AWB não se vai envolver em nenhuma forma de retaliação violenta para vingar a morte de Terreblanche”, disse Pieter Steyn, um dos responsáveis pelo movimento» («Racismo põe FPF em alerta», Filipe António Ferreira, Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 34).
      Eu sei: mesmo na imprensa internacional ora se lê Terreblanche ora Terre’Blanche — mas com os erros dos outros damo-nos nós bem. No sítio do Afrikaner Weerstandsbeweging (AWB) usa-se apenas Terre’Blanche, e é de supor que conheçam bem o nome do líder. E quanto à tradução do nome do movimento? Por sugestão da leitora S. C., vou dizer algumas palavras sobre a questão. Sem qualquer hesitação, traduziria por Movimento de Resistência Africâner. Palavra que, comprovo com estupefacção, não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Ambos registam, contudo, africânder — facto suficiente para tecer o comentário que pretendo. Como é que no Correio da Manhã não usam um dos vários vocábulos (há mais variantes), mais afeiçoados à nossa língua, para traduzir afrikaner?

[Post 3317]

Epicenos

Nada de novo


      Recentemente, abordei aqui a questão dos substantivos epicenos, tendo então recomendado que se não usasse o hífen a ligar o epiceno ao lexema «macho» ou «fêmea». Afinal, não se trata de um facto linguístico novo, e em gramáticas publicadas há décadas é assim que vemos grafado: mosquito fêmea, mosquito macho... Hoje, um consulente do Ciberdúvidas quis confirmar se «esquilo» era um substantivo epiceno. O consultor respondeu: «De fa{c}to, a palavra esquilo é um substantivo epiceno. Por esse motivo, a diferença deve ser feita usando: esquilo-macho e esquilo-fêmea.» Com o Ciberdúvidas, porém, dependendo do consultor que nos calha, pode ter hífen, ou não ter, ou ter, ou não ter...

[Post 3316]

Traduzir «bullying»

Vale a intenção?


      Há invenções, tanto técnicas como linguísticas, condenadas desde logo ao fracasso. Hoje, um consulente do Ciberdúvidas, A. Gonçalves, tradutor, propôs que se use o termo «intimilhação» (inti-, de «intimidar» + -milhação, de «humilhação») para nos referirmos ao bullying. Não se sabe o que leva a que certos vocábulos, neologismos, sejam aceites pelos falantes e outros não. No início de Janeiro, o jornalista Fernando Madaíl, num artigo sobre Malaca Casteleiro, propunha que se substituísse carjacking por carro-assalto. «Uma política de vernáculo, além das áreas da informática, biotecnologia e medicina, poderia já ter substituído e-mail por correio-e ou carjacking por carro-assalto» («O linguista que explica porque há facto e fato», Fernando Madaíl, Diário de Notícias/DN Gente, 9.1.2010, p. 5). O que me parece é que não passa por propostas — passa pelo uso. Que o jornalista use carro-assalto e o tradutor, intimilhação, e depois logo se vê. Como também acontece com as pessoas, mais vale cair em graça do que ser engraçado.

[Post 3315]

«Mass media»

Nada de trapalhadas


      «Gostaria de saber a sua opinião», escreve-me um leitor, «sobre a eterna questão que paira sobre a palavra media/média/mídia e, mais propriamente, sobre a expressão mass media. Como muita gente, sempre fui ensinado a acentuar o e, /média/, dado que é uma palavra latina e que a nossa língua daí descende (embora, pessoalmente, tenha por hábito grafá-la “media”). Entretanto, li também o seu artigo de 2006, onde clarifica esta questão da grafia. No entanto, a minha dúvida prende-se com a expressão inglesa mass media, não querendo embirrar com pessoas que serão, certamente, mais eruditas que eu mas sim perceber a lógica por detrás da coisa. […] É certo que, em inglês, seja por que razão for, a palavra é proferida /mídia/. É, também, certo que, em português, a palavra deve ler-se /média/. No entanto, visto estar a utilizar uma expressão inglesa, não deverei dizê-la (e não escrevê-la) como os seus falantes o fazem, “mass /mídia/”?»
      Não vale a pena estarmos com rodeios: se é altamente recomendável que se diga e escreva meios de comunicação social ou média, quando tivermos de usar a locução inglesa mass media, temos de a ler como tal — à inglesa. Nesse caso, não distinguiremos que media vem do latim e (particularidades à parte) pode ser aportuguesado para média.

[Post 3314]

Léxico: «oxodegradável» e «oxobiodegradável»

Mete gregos


      «De um lado, estão os promotores dos sacos oxo-biodegradáveis, que se fragmentam sob a acção de um aditivo, e que já estão em força em Portugal — por exemplo, na cadeia Continente e Jumbo/Pão de Açúcar. […] Quanto aos oxo-degradáveis, “apenas devem ser utilizados em situações muito pontuais”, diz [Rita Meneses, administradora da Cabopol]» («Sacos de plástico em guerra pelo título de “mais amigo do ambiente”», Ricardo Garcia, Público, 3.4.2010, p. 6).
      O elemento de composição antepositivo é ox(i/o)-, pelo que também se poderia escrever oxidegradável e oxibiodegradável — sem hífenes. Quanto ao primeiro, é assim mesmo que se vê na imprensa: «Os sacos produzidos em plástico oxodegradável, distribuídos em vários hipermercados como sendo biodegradáveis, ao fim de 10 meses continuavam sem se degradar nos destinos mais prováveis, verificou a Quercus. Esta constatação foi agora confirmada por um estudo do Ministério do Ambiente inglês» («Quercus diz que sacos não se degradam», Destak, 19.3.2010, p. 8). «Os sacos “oxodegradáveis” podem ser mesmo uma maravilha, mas eu senti-me enganado. E não foi por causa dos dois cêntimos. Hoje em dia já nem os arrumadores se dão ao trabalho de apanhar do chão as moedas escuras e pequeninas» («O problema dos sacos de plástico», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.10.2008).
       Quanto à grafia usada no artigo do Público, há-de dever-se à influência — eufemismo para imitação acéfala e acrítica — do inglês oxo-degradable. Vade retro!

[Post 3313]

«Maca», uma acepção

Fala ainda o marinheiro


      Quando ouvimos a palavra «maca», quase sempre nos vem à memória a imagem de uma espécie de cama, assente numa armação móvel e articulada, com ou sem rodas, para transportar doentes, feridos ou mortos. No entanto, vejam: «Na manhã seguinte toca o clarim a alvorada às 7h00. Chegou a altura de forrar as macas... para leigos no assunto, como nós, era um trabalho impossível de fazer; pendurar a maca pelas aranhas, dobrar os cobertores[,] os quais[,] juntamente com o travesseiro[,] tem o seu lugar apropriado dentro da maca. Um cabo com cerca de 3 metros (o cabo de tomadouro) tinha que dar 5 voltas à maca, esta ficava com a configuração de um chouriço gigante e depois de ferrada era pendurada na tarimba[,] que[,] por sua vez[,] era alçada na vertical. Depois de várias tentativas éramos quase mestres na arte. A Maca de Marinheiro era usada em quase todas as Marinhas do Mundo e a sua origem remonta aos tempos dos navios de vela» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, pp. 49-50).
      No início, pensei — até porque a incompetente revisão (mais um curioso a fingir que é revisor) de António Costa autorizava-me tal pensamento — que o autor teria escrito ou queria escrever hamaca. A verdade, porém, é que uma das acepções, dicionarizada, de maca é cama de lona, suspensa, em que dormem os marinheiros a bordo, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E maca vem de... hamaca. E mais: nenhum dicionário, ao contrário do que eu supunha, regista hamaca.

[Post 3312]

Variante «alcaxe»

Fala o marinheiro


      Quando um dia aqui disse, a pedido de um leitor, como se chama a gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, outro leitor, Alfredo Caiano Silvestre, escreveu num comentário que estava convencido de que era alcaxe. Eu tinha referido três variantes, as que encontrei dicionarizadas: alcaxa, alcaixa e alcachaz. Hoje encontrei um texto em que se usa a variante indicada pelo leitor: «Numa caserna, depois do banho de chuveiro foi a vez de envergarmos o uniforme, para isso tivemos que ser auxiliados com o “alcaxe” e a “manta de seda”. Pronto! Estávamos em uniforme. Não aquele uniforme azul ou branco, consoante a época do ano, mas sim o uniforme de cotim cinzento, nada elegante[,] conhecido pelo “Fato de Alumínio”» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, p. 49).

[Post 3311]

Verbo «haver»

Sr. presidente


      A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Sernancelhe (APAES) defende nota máxima para metade dos alunos de Ciências Naturais do 3.º Ciclo, que estiveram sem professora desde o início do ano. João Aguiar, presidente da associação, afirmou ao repórter Jorge Bastos, da Antena 1: «Não acha também que é muito injusto no século XXI haverem crianças que não tenham aulas durante o 1.º período e 2.º período de Ciências Naturais?» O repórter tinha perguntado: «Se dar 3 e 4 não se justifica porque não houve aulas, dar nota máxima justifica-se?» O entrevistado usou ainda seis vezes a palavra «crianças» para se referir aos alunos. Aposto que nenhum dos alunos, e não me refiro apenas aos que vão armados de pistolas, facas e soqueiras para a escola, gostaria de ser assim considerado. Com a definição de bebé também os falantes, mesmo os jornalistas, não se entendem.

[Post 3310]

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