Regência verbal

Conversa de café


      «Teve “um problema de droga”. Esteve preso. Saiu da cadeia. Apaixonou-se. Juntou-se à namorada — já lá vão sete anos. Tornou a receber. Desde Maio, bolsa, passe, senhas de almoço» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 7).
      Esta forma reflexa do verbo juntar (e ajuntar), de uso popular, significa, como se sabe, amasiar-se, amancebar-se. O problema também é, não vale a pena fingirmos, de registo de linguagem, pois parece a transcrição de uma conversa de café com os entrevistados, com a jornalista a «encarar de frente» Paulo, o «avermelhado homem de 42 anos», a beber um favaios (derivação imprópria, senhora jornalista). Mas quero abordar outra questão. Será mesmo «juntar-se a»? É verdade que o Dicionário Houaiss só em relação à acepção pôr(-se) junto, unir(-se) [coisas diversas ou uma coisa a outra(s)]; reunir(-se) recomenda o uso da preposição com para indicar companhia, mas eu estenderia a recomendação à acepção usada no texto.

[Post 2994]

Pleonasmos

Então?


      «A professora Ana Luísa tenta apagar a memória que tanta revolta causa em Vítor: “As pessoas têm de mostrar empenho, responsabilidade.” O homem de cabelos curtos, pele curtida, encara-a de frente: “É sempre bom aprender mais qualquer coisa. Não digo é que fazer o curso de jardinagem me faça usufruir dessa arte”» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, pp. 6-7).
      Nem todos os pleonasmos — até as gramáticas o dizem, porque há sempre implicantes que não sabem distinguir — conspurcam a língua. Não é o caso deste. Como é que a jornalista Ana Cristina Pereira queria que se encarasse seja o que for: de esguelha? Às avessas? Vá lá, mais cuidado a escrever.

[Post 2993]

Ortografia: «subsidiodependente»

Vão-se escoando os anos


      «Há quem fale de subsídiodependentes. E quem defenda que é preciso acabar com o estereótipo do beneficiário preguiçoso. Há mais de 380 mil pessoas a receber uma prestação destinada a atenuar a pobreza. Sete mil estão em formação, com os olhos no mercado de trabalho. Vítor, ex-ajudante de construção civil, está a aprender jardinagem» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 4).
      Já aqui o escrevi uma vez: nunca o acento gráfico (e a sílaba tónica) pode recuar para lá da pré-antepenúltima sílaba. E esta já é uma excepção à designada «janela de três sílabas». Já temos sorte que a jornalista não tenha usado hífen — *subsídio-dependente —, como se vê muito. Não tem, parece-me, qualquer dificuldade: segundo o Acordo Ortográfico de 1945, a regra geral na composição de palavras é a aglutinação dos seus componentes. Logo, eurozona, subsidiodependência, subsidiodependente...
      O Acordo Ortográfico de 1990 não veio mudar significativamente, nesta questão do emprego do hífen nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, o que fora estatuído em 1945, e a própria Nota Explicativa do acordo o realça. O período de transição, contudo, é de seis anos, tempo que seria suficiente se entretanto fosse publicado o vocabulário ortográfico comum. Realço «comum», pois interpretações unilaterais, e muitas vezes ao arrepio do texto do acordo, já temos que cheguem.

[Post 2992]

Adjectivo invariável «recorde» II

Uns meses depois...


      «“Não podemos continuar assim”, reagiu David Cameron, acusando os governantes de passarem demasiado tempo “a pensar no seu futuro”. “Hoje mais do que nunca o país precisa de uma liderança forte e de um governo unido”, sublinhou o líder dos conservadores, lembrando a guerra no Afeganistão e o défice-recorde» («Luta interna no Labour leva oposição a exigir a antecipação das eleições», Ana Fonseca Pereira, Público, 8.1.2010, p. 12).
      Pois é, vocês não estão desmemoriados, mas os jornalistas, sim. «Recorde» também é adjectivo, logo, não é necessário o hífen.

[Post 2991]

Léxico: «reiseiro»

Cantadores dos Reis

      «D. Alzira tem um altifalante na mão, já comeu as febras quentinhas e está pronta para começar a descer a rua da aldeia do Avenal parando à porta de cada casa para cantar os Reis. Este ano, a tradição teve uma inovação: a gente da aldeia desceu até a uma rotunda no caminho para o Cadaval para ver o monumento que, no ano passado, foi criado para homenagear os reiseiros, os cantadores dos Reis — uma porta aberta e um rio de água que corre através dela» («Como se protege esta festa?», Alexandra Prado Coelho, P2/Público, 8.1.2010, p. 9).
      Alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam o termo: «reiseiro: figurante de reisadas».

[Post 2990]

VOLP x 3

Talvez nunca


      Cara Luísa Pinto: é como leu, vamos mesmo ter três VOLP! Bem, não sendo nenhuma marca registada, todos podem ter esse título. Só com o tempo poderemos estabelecer quais são os «apócrifos» (entre aspas, é claro, até porque, etimologicamente, significa «secreto, oculto, escondido», e estes serão tudo menos isso). Falta o principal: o vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa que a lei manda publicar. Suspeito que só daqui a muitos anos o iremos ter, e talvez não já para traduzir as regras deste acordo.

[Post 2989]

Acordo Ortográfico

Estaca zero


      «Eu», escreve Francisco Miguel Valada na edição de hoje do Público, «autor de livro contra o AO 90 [Demanda, Deriva, Desastre — os três dês do Acordo Ortográfico. Alcochete: Textiverso, 2009], sou favorável a uma reforma ortográfica (sob forma de acordo ou sob outra forma), desde que se respeitem os princípios de uma ortografia de base alfabética e que se não limite a sua base teórica a um “critério de pronúncia” vago, errado e ambíguo.
      Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945, com críticas a opções de pormenor, mas não aos seus princípios gerais. Não sou favorável a um Acordo publicitado como “uma das medidas mais urgentes para a unificação da língua portuguesa”, como afirmou Solange Parvaux, em 2004, na Fundação Calouste Gulbenkian, esquecendo que as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano. Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua e não a qualquer documento nem a qualquer processo que se baseie exclusivamente em relações de poder, em questões que envolvam “locomotivas” e “inevitabilidade”, quando as razões da ortografia são linguísticas, devendo estas ser escutadas e analisadas por quem de direito e não ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram» («Os ii do Acordo Ortográfico, ponto por ponto», p. 31).
      Vale a pena ler o artigo todo. Quanto a mim, é o artigo de opinião sobre esta questão mais denso e que mais reflexões propõe. Cito-o, também, a propósito do meu texto «Cada cabeça», em que refiro um artigo de Desidério Murcho. Também eu sou, já há muitos anos que o afirmo, favorável a uma reforma da ortografia, também para aspectos pontuais do Acordo Ortográfico de 1945.

[Post 2988]

Pentaritrol, pentaeritritol...

Chega!


      «O passageiro nigeriano com ligações à Al-Qaeda de quem tanto se fala, Abdul Muttalab, conseguiu voar de Amesterdão para Detroit levando consigo um químico conhecido pelo nome de pentaritrol. Não perguntem por mais detalhes, mas sabe-se, segundo peritos do FBI, citados pelo New York Times, que a substância em causa é altamente explosiva e já tinha sido usada em 2001 numa tentativa de explosão aérea que também fracassou» («Os suspeitos do costume», Pedro Lomba, Público, 7.1.2010, p. 32).
      Eu pergunto por mais «detalhes»: por exemplo, porque é que o Público ora escreve pentaritrol ora pentaeritritol? Que mais para aí virá? Não seria mais sensato procurarem um sinónimo pronunciável e usarem-no sempre? Pelo que vi, o Exército brasileiro dá-lhe o nome de nitropenta.

[Post 2987]

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