Pontuação

Antes que seja tarde

      «Parece-me por isso exemplar o caso relatado pelo PÚBLICO no domingo passado em que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu não levar a julgamento o jornalista do Açoreano Oriental, Estêvão Gago da Câmara, processado por difamação pelo deputado socialista Ricardo» («Uma imprensa robusta e desinibida», Pedro Lomba, Público, 22.12.2009, p. 32).
      Este cronista precisa de rever urgentemente as regras da pontuação. A pontuação que usou só estaria correcta se Estêvão Gago da Câmara fosse o único jornalista do Açoreano Oriental. Não é. Ainda ontem Fernando Mora Ramos, no artigo que aqui citei, escreveu: «E às perguntas “Como nasce um analfabeto?”, “Quando é que começa a sê-lo?”, Tullio di [sic] Mauro, o pai dos estudos linguísticos italianos, diz: “O facilitismo dos docentes provocou danos enormes, promovendo todos e não barrando o caminho a quem não está à altura. Mas o desprezo da língua italiana está também em certos romances de novos autores, cheios de palavrões e abreviaturas, e na linguagem cada vez mais desleixada dos jornais, de onde quase desapareceu a riqueza da pontuação”.»

[Post 2926]

Iliteracia

E cá?

      «Segundo dados do Centro Europeu de Educação [CEE]», escreve hoje no Público o encenador Fernando Mora Ramos, «oito por cento dos licenciados não consegue na Itália usar a escrita convenientemente. Em Portugal, qual será a percentagem? Será sequer possível vir a saber? Mais grave do que isso, 21 licenciados em 100 não atingem o nível mínimo de decifração de um texto. O mais longe que vão, lendo instruções de uma bula, é intuir as contra-indicações da aspirina. Mas não mais. E acrescenta o estudo: um licenciado em cinco não é capaz de resolver uma ambiguidade lexical e os cem livros que tem em casa serviram-lhe apenas para tirar o diploma» («Por que é que não tenho aulas de Português?», Público, 21.12.2009, p. 31).

[Post 2925]

Ortografia: «siquismo»

Mais um pouco     


      Ainda não há muita gente a escrever sique e siquismo, mas nas traduções vai sendo habitual: «Os líderes que vieram depois, como o guru Nanek, fundador do siquismo, e o Mahatma Gandhi, ressuscitaram o ideal da concórdia e unidade das oposições sectárias e sociais» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 356). Digam lá o que disserem, aportuguesamentos pela metade não me convencem: sikhismo?

[Post 2924]

Léxico: «transcurar»

Não transcurem as obrigações

      Sem falsas modéstias: muito raramente aprendo um novo termo. Uma vez que conheço largos milhares, só quer dizer uma coisa: já houve um tempo em que os aprendia diariamente às catadupas. Sempre que isso acontece, porém, a alegria é a mesma. Hoje, na tradução de um texto de Bento XVI, encontrei o termo «transcurado». Os dicionários registam o verbo transcurar, «não curar de; descurar; não cuidar de», e «esquecer-se de; preterir». Parece um verbo camiliano. O Dicionário Houaiss data a sua entrada na língua em 1817―1819.

[Post 2923]

Religiões e crentes

Vamos ver

      «Os Judeus estavam proibidos de pronunciar o nome de Deus, numa forte chamada de atenção de que qualquer tentativa de exprimir o divino era tão inadequada que era potencialmente blasfema» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 378). «Servindo de ponte entre dois mundos, estava convencido de que tinha uma missão junto dos goyim, as nações estrangeiras: Jesus fora o messias para os Gentios, tanto quanto para os judeus» (idem, ibidem).
      Incoerência, sem qualquer dúvida, mas como deve ser? Carmo Vaz, no Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1 (2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983), escreve que se deve usar maiúscula inicial: Judeus, Cristãos, Muçulmanos, etc. Já as religiões, como também se lê em Rebelo Gonçalves, não merecem tal distinção: cristianismo, judaísmo, islamismo, etc. Qual é, contudo, o uso? O mais desvairado. Ainda assim, diria, caricaturando um pouco, que os ateus, os jornalistas, os cronistas e os tradutores preferem grafar com maiúscula inicial, ao passo que os clérigos preferem grafar com minúscula inicial. Uma amostra: «E o senhor Arcebispo, vindo propositadamente para cerimónia de tanto fausto, falava sa fidelidade que os esposos se devem, de como fora o Cristianismo a definir que também as mulheres tinham alma, o que só a filósofos palpitara» (Procissão dos Defuntos, Tomaz de Figueiredo. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 228). «Por vezes, pensa-se que o género autobiográfico sempre existiu. Mas a primeira obra a, como tal, ser concebida data do século IV, tendo sido escrita por um convertido ao Cristianismo, Santo Agostinho, o qual tão obcecado andava com a salvação da sua alma que teve necessidade de registar o seu percurso» (Bilhete de Identidade, Maria Filomena Mónica. Alêtheia Editores, Lisboa, 4.ª edição, 2006, p. 12). «Existem variadíssimas religiões nas nossas vidas, não apenas as que começam por R maiúsculo como o Zoroastrismo ou o Judaísmo» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 76). «Afegão convertido ao Cristianismo apontado como exemplo de coragem» («D. José Policarpo critica intolerância», Público, 15.4.2006, p. 19). «Com a guerra que se tem vivido nos últimos anos, também o turismo, o comércio e as peregrinações aos lugares santos do Cristianismo ficaram estrangulados» («Cristãos podem desaparecer da Terra Santa», António Marujo, Público, 28.06.2006, p. 22). «Já nos primeiros séculos do cristianismo, alguns pensadores vincaram certas e perigosas correspondências: assim como Israel é um único povo mediante a fé num único Deus, também a humanidade dividida, agora, em muitas nações e línguas, voltará a ser uma única humanidade sob o império de um único senhor na terra: como existe um único Deus, também deve imperar uma única realeza e uma única monarquia» («Trindade: mística de olhos abertos e mística de olhos fechados», frei Bento Domingues, Público, 7.06.2009, p. 38). «João Paulo II observou que só há choque quando Islão e Cristianismo são manipulados para fins políticos ou religiosos» («Samuel Huntington», José Cutileiro, Expresso, 24.01.2009, p. 39). «Além de deixarem claro que “desaprovam” e “reprovam” a cantora enquanto pessoa, os líderes da Igreja Ortodoxa da Bulgária não poupam críticas à diva da pop: “Madonna mantém uma atitude de desrespeito e intolerância pelos símbolos sagrados da fé cristã e de todo o Cristianismo”» («Madonna também irrita ortodoxos», Dina Gusmão, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 37).


[Post 2922]

Infinitivo, sim, mas qual?

É igual

      «Esforçamo-nos sempre por melhorarmos a nossa natureza e aproximarmo-nos de um ideal» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 14). Nesta frase, em vez de se ter usado o infinitivo pessoal, não era obrigatório usar o infinitivo impessoal, pois a marca da pessoa já está no primeiro verbo? Não, não era: se for regido de preposição (por, na sua frase) o infinitivo pode ser flexionado ou não. Ambas as construções estariam correctas.

[Post 2921]

«Fazer filhos» e «caderno de encargos»

Insensibilidade e seguidismo

      «Eu não acredito que tenha desaparecido entre os Portugueses o entusiasmo por trazer novas vidas ao mundo», disse Cavaco Silva, que falou em «inverno demográfico», mas a jornalista Natália Carvalho, no noticiário das 2 da tarde de ontem na Antena 1, disse, à bruta: «Os Portugueses fazem cada vez menos filhos. Este ano nasceram pouco mais de cem mil crianças.»
      No mesmo noticiário, o jornalista Jorge Correia disse: «Cavaco Silva apresentou um caderno de encargos ao Governo para apoiar o nascimento de mais crianças no País.» É a expressão da moda, «caderno de encargos». Os jornalistas apenas vão atrás dos políticos. Creio que foi nas últimas eleições legislativas que começou a ser usada recorrentemente. E é claro que não é naquele sentido que os dicionários a registam: «articulado com regras técnicas, jurídicas e administrativas que devem ser respeitadas na elaboração de um estudo ou na execução de qualquer obra» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 2920]

Incoerências onomásticas

Falta de memória?

      «Luís Inácio Lula da Silva também terá arrancado sorrisos à audiência ao anunciar estar disposto a apoiar financeiramente os países mais pobres» («Líderes garantem saber o que tem de ser feito para chegar a um acordo global... mas pelos outros», Helena Geraldes, Público, 19.12.2009, p. 4). Todos sabemos, porém, que o nome é Luiz. A verdade é que todos os jornais, uns mais, outros menos, são pródigos em incoerências. No Público, ora escrevem Raul Castro, ora Raúl Castro. «Durante mais de três décadas, Juanita Castro geria discretamente uma farmácia em Miami, e poucos já tinham ouvido falar dela. Mas a sua história tinha tudo para dar nas vistas. E deu, agora que foi publicada numa autobiografia: a irmã de Fidel e Raúl Castro foi agente da CIA em Havana de 1961 a 1964, anos de alta tensão entre Cuba e os Estados Unidos» («Irmã de Fidel Castro colaborou com a CIA», Francisca Gorjão Henriques, Público, 27.10.2009, p. 6). «O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder cubano Raul Castro estarão ausentes, e há chefes de Estado que faltarão à cimeira por estarem a decorrer processos eleitorais nos seus países. São os caso do boliviano Evo Morales, e do Presidente uruguaio Tabaré Vasquez, cujo sucessor é escolhido hoje» («Chefes de Estado são hoje recebidos na Torre de Belém», Isabel Gorjão Santos, Público, 29.11.2009, p. 5).
[Post 2919]

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