«Multirreligioso» ou «multi-religioso»?

Estávamos em 1998

      «No aniversário destas violências, a Igreja na Índia promoveu tempos de oração, vigílias e encontros culturais para defender a liberdade dos cristãos e para incitar a Índia a voltar a ser o país multi-religioso e multicultural que foi no passado.»
      O prefixo multi- não foi previsto no Acordo Ortográfico de 1945, logo, só por analogia poderemos dizer como se deve grafar. José Neves Henriques analisou bem a questão quando escreveu, em 1998, que «dos terminados em i, essa reforma menciona [na Base XXIX] anti, arqui, semi, seguidos de hífen, quando o elemento seguinte tem vida à parte e começa por h, i, r ou s, como por exemplo anti-infeccioso, arqui-irmandade, semi-interno. Por analogia com estes, embora não saibamos o que nos dirá uma futura reforma, podemos concluir que os prefixos maxi, bi, midi, mini, multi, poli [e pluri, por exemplo] são seguidos de hífen, quando o elemento seguinte tem vida à parte e começa por h, i, r ou s.» Logo, deveria escrever-se, não se esqueçam, multi-racial, multi-religioso, multi-riscos, multi-sectorial, etc. Infelizmente, em 1999, Neves Henriques já escrevia: «Para soar como o r de rua e de carro, temos de escrever multirracial e multirracionalidade.» O que nem sequer é verdade. O consultor aqui deixou-se enredar na pergunta, que era se se devia escrever «multiracial».
      No Acordo Ortográfico de 1990, contudo, este prefixo é expressamente referido (Base XVI, «Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»), e o vocábulo continuará a escrever-se da forma como agora os dicionários a registam, dobrando a consoante. Até se inventou uma regra a partir do uso: com hífen «quando o segundo elemento possui vida própria e começa por h ou i: mega-híbrido, multi-idiomático» (sim, eu também não percebo o que está ali a fazer aquele «mega-híbrido»). Assim, nunca se erra: fazemos como nos parece e depois inventamos uma regra.

[Post 2902]

Tradução: «pregnant»

Quem é o pai?

      «In a pregnant phrase...», lia-se no original. O tradutor não se deteve em grandes raciocínios e verteu assim: «Numa frase grávida de sentido...» O problema é quase sempre o mesmo: o tradutor julga saber perfeitamente o que a palavra da língua de partida significa, ignorando outras possíveis acepções. Quem sabe se não traduziria também (e não era mais grave) por «grávida» se a frase se referisse a uma vaca... Em sentido figurado, pregnant é «fértil», «fecundo», «sugestivo», «significativo», como se pode ver no Dicionário de Inglês-Português, da Porto Editora, que também regista a locução, usada em Linguística, pregnant construction, «frase densa de significado, frase com mais sentido que aquele que as palavras parecem significar», recomendando a tradução «pleno de sentido», e a locução pregnant events, «acontecimentos de grande alcance».

[Post 2901]

Falsos cognatos

Mal precatados

      «Confesso que o meu pobre latim tropeçava até mesmo na tradução de “auri sacra fames”, pois me inclinava por traduzir “sacra” como “sagrada”, até descobrir, com a ajuda do dicionário latino, que Virgílio usou a palavra com o sentido de abominável, execrável, infame. Convertida a “sagrada fome de ouro” em “execrável fome de ouro”, munia-se o articulista de uma epígrafe honrosa para fustigar a corrupção pretérita e presente» («A eterna corrupção», Sérgio da Costa Franco, Zero Hora, 13.12.2009). Mesmo que seja somente para brincar, o que Sérgio da Costa Franco, historiador, advogado, promotor público, jornalista, professor brasileiro, afirma leva-nos aos falsos cognatos ou falsos amigos, contra os quais nem todos os tradutores se precatam. O verso em causa pertence à Eneida, de Virgílio. Na epígrafe, o autor cita dois versos deste poema épico e a respectiva tradução:

«... Quid non mortalia pectora cogis
Auri sacra fames!
A que não obrigas os corações humanos,
Ó execranda fome de ouro!»
(Virgílio, Eneida. Livro III)


[Post 2900]

Sobre «entorno»

Extravagâncias

      Pedro Sinde assina hoje no blogue Cadernos de Filosofia Extravagante um texto sobre ortografia. Um excerto: «Nem de propósito e a propósito do artigo mais recente de António Carlos Carvalho, ia eu hoje a passar numa livraria na baixa do Porto quando vejo um livro intitulado: “Casas em entornos naturais”. Voltei a olhar, pensando que lera mal o “em” por “en”, um erro de simpatia com a língua portuguesa perfeitamente justificável. Não. Era mesmo português porque estava escrito depois “naturais” e não “naturales”, como deveria ser se fosse castelhano.
      Na dúvida, perplexo, cheguei a casa e procurei nos meus dicionários: No Lello, o meu amado Lello, não existe nada a não ser derivados de “entornar”; no Dicionário da Academia (ouço já os apupos… não, eu não gastei um tostão com este “dicionário” — é assim que se auto-intitula esta coisa — foi uma generosa oferta): nada, a não ser o mesmo “entornar”. Em desespero, consulto um dicionário prestigiado de português do Brasil, o “Novo Dicionário Aurélio”: aí está! Num dicionário de português do Brasil existe a palavra “entorno”. Afinal não é castelhano, é “português”! Talvez seja apenas uma coincidência e se trate de um “castelhanismo” que existe no português do Brasil, mas não no de Portugal. O que é perfeitamente aceitável, naturalmente.»
      Se procurarmos nos corpora, «entorno», nesta acepção, tem uma presença pouquíssimo expressiva. Também o Dicionário Houaiss o regista, dando-o como «regressivo de entornar, por influência do espanhol entorno ‘território ou conjunto de acidentes ou paragens que rodeiam um lugar’». No caso, julgo estarmos perante uma extensão de sentido: todo o espaço, a área, que rodeia uma edificação. Os castelhanismos passaram, em diversas épocas, para o português — e poucas vezes temos perdido alguma coisa com o facto. Este é apenas um dos mais recentes, mas o que interessa é saber se nos faz falta. A minha opinião é que sim, e os Brasileiros apenas se nos anteciparam neste entendimento, como sempre. Pedro Sinde não diz isto, mas afirma que é «perfeitamente aceitável». No parágrafo que se segue é que nos desentendemos logo, pois faz uma afirmação que só posso qualificar como um disparate (e que apenas tem a atenuante de ser repetida por outros): «Esta palavra [«entorno»] não foi definida pelo acordo, mas muitas outras foram e, isso sim, é de todo inaceitável.» Mas que palavras é que foram «definidas» pelo Acordo Ortográfico de 1990? E o que é que é inaceitável: esta não ter sido ou o acordo ter «definido» outras? Desde quando um acordo ortográfico serve para esse fim?

[Post 2899]

Regência do verbo «cumprir»

Maus exemplos

      A propósito do acidente de ontem em Santa Maria da Feira, dizia o jornalista da Antena 1 Nuno Rodrigues no noticiário das 11: «Paulo Sérgio Pais, responsável pela produção do espectáculo [Terra dos Sonhos] enquanto administrador da empresa municipal Feira Viva, dizia ontem não compreender os motivos do acidente, até porque o local cumpria com todos os requisitos de segurança.» Nos meios de comunicação, o verbo cumprir vai sendo usado apenas regido de preposição. A autora do blogue Em Bom Português escreve que este verbo não rege preposição, mas essa é uma afirmação incorrecta. Em nota ao verbete deste verbo, Francisco Fernandes cita Laudelino Freire e a sua obra Verbos Portugueses: «Tanto é correto dizer-se cumprir com quanto dizer-se cumprir o: Cumpri com o dever, ou cumpri o dever» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 176). A distinção que muitos autores fazem é a de o verbo se usar sem preposição quando se trata de algo que é imposto, como se vê aqui: «Quando se trata, porém, de algo que é imposto, então se usa o verbo cumprir sem a preposição. Aí o sentido é de “sujeitar-se a”, “submeter-se a”. Então dizemos “cumprir os prazos”, “cumprir uma pena”, “cumprir mera formalidade”, “o time joga apenas para cumprir a tabela”.»

[Post 2898]

«Pandam»


Tcharam!


      «É mesmo “pandam” em português?», pergunta-me um leitor, que tece seguidamentre algumas considerações. «A palavra “parelha” (do francês pendant) não encaixa muito bem, por exemplo, neste anúncio que tem surgido na imprensa. Também não gostava de ver: “Faz pendant!”A alternativa “Alinha cores connosco!” não era má... mas estes publicitários gostam de palavras sonantes...» Ainda não está dicionarizado assim, pandam, mas nada impede que venha a estar. Por outro lado, a verdade é que não precisamos da expressão francesa, adaptada ou não, faire pendant, consideração que, todavia, não impedirá que os falantes a usem. No caso, embora a palavra remeta claramente (pela semelhança da cor do cabelo do rapaz e da garrafa) para esse conceito de conjunto, a minha interpretação é a de que se pretendeu criar, ao mesmo tempo, uma onomatopeia.


[Post 2897]

Dissimilação

Escrever como se fala

      «Por outras palavras, não se deixe obcecar por bactérias nem vírus, nem, por favor, se encante com aqueles anúncios a produtos de limpeza doméstica que agora se multiplicam e, invariavelmente, usam a mais vergonhosa das armas para vender: ameaçam-na com a saúde do seu filho, como se a vida dele estivesse dependente de um pano encharcado de uma lexívia qualquer. Ou no teste do algodão. Prefira antes, e mil vezes, aqueles que garantem lavar a roupa que ele suja enquanto brinca lá fora!» («Pela sua saúde deixe-o sujar-se», Isabel Stilwell, Destak, 11.12.2009, p. 4). Devido à dissimilação (como em «ministro» e «vizinho», por exemplo), o i pré-tónico transforma-se em e, mas continua a escrever-se com i: lixívia. Quanto ao preferir antes, já vimos aqui.

[Post 2896]

Ascendência/descendência II

Sem abdicar de raciocinar

      Se se diz que alguém nasceu numa «prosperous, emancipated Jewish family of German descent», quem traduz não se pode deixar levar pelas palavras, abdicando de reflectir, e escrever «com descendência alemã», quando é precisamente o contrário — de ascendência alemã. Now we can descend to particulars (agora podemos tratar de pormenores): na frase, descent é substantivo e pode traduzir-se por «origens; raízes; ascendência». Se sabem, porque é que erram tanto, hã?
[Post 2895]

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