Sobre «Amish»

Essa é que é essa

      «No Spectator de 7 de Novembro, Sarah Churchwell chamava a atenção para a moda dos romances Amish e das virgens castas da série Twilight» («Antes assim», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.11.2009, p. 37). Pois é, mas numa notícia («Atirador mata três alunas numa escola amish dos Estados Unidos») do mesmíssimo Público de 3 de Outubro de 2006, assinada pela jornalista Isabel Leiria, lia-se: «A escola tinha apenas uma sala, frequentada por 27 alunos, do 1.º ao 8.º ano, da comunidade amish — cristãos evangélicos que vivem da forma mais simples e austera possível.» Se não está aportuguesado, não deveremos escrever como Miguel Esteves Cardoso — com maiúscula inicial, porque se trata de um adjectivo próprio, categoria que não existe na nossa gramática? No texto citado por Miguel Esteves Cardoso, a autora usou quinze vezes a palavra, sempre, naturalmente, com maiúscula.

[Post 2809]

Rectificação de erros no «Diário da República»

Não havia papel que chegasse

      José Manuel Meirim, docente de Informação e Documentação Jurídicas da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, escreve hoje no Público sobre erros e rectificação de erros no Diário da República e da lei que disciplina as rectificações. «Trata-se da Lei n.º 74/98, de 11 de Novembro, já objecto de alterações, a última das quais concretizada pela Lei n.º 42/2007, de 24 de Agosto. No n.º 1 do artigo 5.º afirma-se que as rectificações são admissíveis exclusivamente para correcção de lapsos gramaticais, ortográficos, de cálculo ou de natureza análoga ou para correcção de erros materiais provenientes de divergências entre o texto original e o texto de qualquer diploma publicado na 1.ª série do Diário da República» («A legislação a que (não) temos direito», José Manuel Meirim, Público, 15.11.2009, p. 37). Alguma vez terá sido publicada uma rectificação relativa ao erro legis artis, por exemplo? Duvido.


[Post 2808]

Tradução: «suponer»


Suposições

      A Junta da Estremadura espanhola lançou uma campanha, financiada pelo Governo, sobre educação sexual. «As sessões de formação», lê-se na notícia do Público, «são itinerantes e incluem demonstrações com uma série de “brinquedos sexuais”, incluindo vibradores e bolas chinesas» («Extremadura quer ensinar jovens a masturbarem-se», Susana Almeida Ribeiro, Público, 15.11.2009, p. 20). Escreve a jornalista: «Também as associações de pais Cofapa e Concapa já denunciaram que a campanha supõe uma intromissão no direito das famílias à formação sexual dos seus filhos.» «Supõe»? Má tradução do espanhol: «Las asociaciones de padres de alumnos COFAPA y CONCAPA han denunciado hoy que la campaña “El placer está en tus manos”, promovida por el Consejo de la Juventud y el Instituto de la Mujer de Extremadura, supone una intromisión en el derecho de las familias a la formación sexual de los hijos» («COFAPA y CONCAPA denuncian intromisión de Extremadura en educación sexual», 15.11.2009, ADN, aqui). A jornalista devia ter visto o verbete «suponer» num dicionário de língua espanhola e o verbete «supor» num dicionário de língua portuguesa. Chegaria a uma conclusão muito simples: são tantas as semelhanças quanto as diferenças. Sim, o étimo, supponĕre, é o mesmo. Suponere, no contexto, traduz-se por «representar».


[Post 2807]

Luisiana e Louisiana

Como calha

      «O antigo congressista democrata do estado do Louisiana, William Jefferson, foi condenado a 13 anos de prisão num processo de corrupção que as autoridades descreveram como o “mais extenso de sempre” no Congresso norte-americano» («Antigo congressista do Louisiana condenado a 13 anos por corrupção», Público, 15.11.2009, p. 15). Porque não Luisiana? Até no Público, quando calha, escrevem assim: «Barack Obama obteve vitórias esmagadoras nos caucus nos estados de Washington, Nebrasca, Ilhas Virgens Americanas e nas primárias da Luisiana, ultrapassando Hillary Clinton em número de delegados» («Obama ultrapassa Hillary em número de delegados», Público, 11.2.2008, p. 1). Sim, o leitor atento reparou: «do Louisiana»/«da Luisiana».

[Post 2806]

Tradução: «to design»

Esboços

      «O custo de 5,3 mil milhões de dólares das eleições de 2008 (Casa Branca e Congresso) foi um recorde absoluto nos EUA e um sinal de como a lei do financiamento se tornou obsoleta. “Esse sistema não está a cumprir nenhum dos objectivos para que foi desenhado”, diz John Stamples, do think-tank libertário Cato Institute» («Campanhas americanas financiadas em exclusivo por privados», Rita Siza, Público, 15.11.2009, p. 4). Ainda que, em sentido figurado, desenhar seja «conceber, idear», a verdade é que é sempre mais conveniente usar um sentido próprio. Então, dir-se-ia: «Esse sistema não está a cumprir nenhum dos objectivos para que foi concebido.» Nas traduções do inglês, abusa-se desta acepção quando se traduz o verbo to design. Outro exemplo da edição de hoje deste jornal: «Mas a questão mantém-se: como reagirá se Obama não lhe der as tropas que precisa para pôr em prática a sua estratégia que desenhou?» («McChrystal, o guerreiro furtivo que quer ganhar o Afeganistão», Ana Fonseca Pereira, Público, 15.11.2009, p. 18). Claro que algo mais está mal na frase: ou sobra o pronome «sua» ou a forma verbal «desenhou».

[Post 2805]

Paralelo 38

Um paralelo

      Cara Luísa Pinto: recomendo que se escreva com minúscula inicial, como já tive oportunidade de dizer em relação aos pólos. Logo, paralelo 38. É também a opção tomada numa obra que estou a ler: «Cerca de dois meses e meio depois de as bem treinadas divisões da Coreia do Norte, armadas pelos soviéticos e pelos comunistas chineses, terem atravessado o paralelo 38 e entrado na Coreia do Sul, no dia 25 de Junho de 1950, e de terem começado os horrores da Guerra da Coreia, entrei eu em Robert Treat, pequena universidade do centro de Newark que recebeu o nome do homem que no século XVII fundou a cidade» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 15).

[Post 2804]

«Questões domésticas»?

Muito lá de casa

      «Num discurso que abarcou as questões domésticas americanas e a política externa, Rahm Emanuel garantiu que a Administração Obama continua comprometida e esperançosa num “final feliz” para o processo de paz no Médio Oriente e corrigiu as leituras dos que encaram a abertura de Obama ao mundo árabe como um remoque a Israel» («Judeus dos EUA frustrados com relação entre a América e Israel», Rita Siza, Público, 12.11.2009, p. 16). Domésticas, só tarefas e animais. Para questões, é melhor internas. Claro que alguns jornalistas deliram com domestic flights, que traduzem por voos domésticos…

[Post 2803]

«Aos bochechos»

Expressões correntes     


      A propósito do processo «Face Oculta», Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, disse ontem à RTP: «Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado, digamos, é um pouco às bochechas, digamos, aos bocadinhos.» Nunca saberemos, nem isso interessa, se foi lapso ou se Noronha do Nascimento acha que é assim que se diz. O Público de hoje teve o bom senso de corrigir: «O presidente do STJ, Noronha Nascimento, disse à RTP que estranha que as certidões relativas ao processo Face Oculta lhe estejam a chegar aos “bochechos”. “Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado tem sido aos bochechos, aos bocadinhos, não percebo por que é que não se envia tudo ao mesmo tempo”, afirmou» («Noronha estranha chegada de certidões aos “bochechos”», Público, 12.11.2009, p. 5).

[Post 2802]

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