Tradução: «shame»

É vergonhoso, é

É como nas normas jurídicas que são julgadas inconstitucionais ou ilegais em três casos concretos: passa-se da fiscalização concreta para o controlo abstracto. É a quarta vez este ano que vejo o vocábulo inglês shame mal traduzido. «That is, in some respects, a shame, as nice quick fixes are always useful, but there you go.» Tradução: «De certa forma, esta situação é vergonhosa, uma vez que as soluções rápidas mas inadequadas são sempre úteis, mas lá voltamos ao mesmo.» Os tradutores não podem pegar na primeira acepção do verbete nos dicionários bilingues: têm de analisar todo o verbete e ponderar qual a acepção que se adequa ao contexto. Claro que, no caso, eu não posso dar um contexto maior, mas é óbvio que a acepção que de adapta é «pena, lástima».

A divisão silábica de «sublinhar»

Oh, que surpresa!...


      No jornal, chamei a atenção de dois revisores para o facto de o programa de paginação dividir incorrectamente, era o que me parecia, a palavra «sublinhar»: su-bli-nhar. Só depois consultei o Ciberdúvidas. Na resposta a uma consulente brasileira, em 2000, afirmava-se que, «segundo o Michaelis, a palavra sublinhar separa-se desta forma: su-bli-nhar». Na resposta a outra consulente brasileira, em 2005, já se garantia que sub-li-nhar é que é correcto. Quando prevenira os meus colegas, tinha na memória algum fragmento, ou pelo menos o que interessava no caso em apreço, da sequência pl bl tl dl cl gl fl vl pr br tr dr cr gr fr vr. Sabe o que é, não é assim? São os grupos considerados indivisíveis na translineação: grupos formados por uma consoante oclusiva (p, b, t, d, c, g) ou fricativa (f, v) seguida por l ou r. Vejo agora que o Dicionário Houaiss, das poucas vezes em que se mete em questões de translineação, contempla o vocábulo «sublinhar», registando poder-se translinear de ambas as formas. Mas o vocábulo «sublinear», por exemplo, só se pode, segundo o mesmo dicionário, translinear mantendo a sequência bl unida. A MorDebe indica que a translineação é sub-li-nhar, o mesmo registando o Míni Aurélio. Conclusão? Faça (eu farei) como eu aprendi e como decerto o leitor também aprendeu.

Léxico: «quadrat»

Imagem: http://labradorpark.files.wordpress.com/


Lamento, mas…


      «In biology fieldwork, you throw a wired square called a ‘quadrat’ at random out onto the ground, and then examine whatever species fall underneath it.» Tradução? «No trabalho de campo biológico, atira-se uma estrutura com uma rede de arame, chamada “quadrado”, ao calhas para o solo, e examinam-se depois as espécies que ficaram lá por debaixo.» Toda a pesquisa que fiz me levou à conclusão de que quadrat não tem correspondência em português, sendo usado o estrangeirismo.

«Solarengo» e «soalheiro»

In Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 21


Vamos manter

      Das editoras, já me vão dizendo: «Estivemos aqui a consultar o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, e “soalheiro” e “solarengo” aparecem como sinónimos. Assim, se não se importa, vamos manter.» Temos assim de acreditar piamente quando Mega Ferreira afiança que «o Dicionário da Academia é geralmente tido como a mais importante referência moderna da língua portuguesa»…

Pontuação

Caprichos pontudos


      Outro revisor não deixa escapar uma vírgula que se intrometa entre o advérbio «agora», se se lhe seguir imediatamente um verbo («Agora, é óbvio que sou diretor-desportivo do Sporting e não do Paulo Bento.»), ou entre um complemento circunstancial de tempo e o verbo que se lhe siga («Terça-feira de manhã, parte para Praga a formação leonina.»). E porquê?, perguntei a um colega (porque ele não é mudo mas não fala). Ora, porquê…

«Confundimento»?

Para quê?     



      «They can confuse an apparently causal relationship, and you have to think of ways to exclude or minimize confounding variables to get the right answer, or at least be very wary that they are there.» «Podem confundir uma relação à primeira vista causal, e é necessário encontrarmos formas de excluir ou minimizar as variáveis de confundimento, por forma a obtermos a resposta certa, ou pelo menos termos muito cuidado devido à presença das mesmas.» Nos milhares de vocábulos com o sufixo –mento, formador de substantivos derivados de verbos, não figura «confundimento», excepto no Dicionário Houaiss, em que até o antónimo, desconfundimento, figura. Mas dizem-me que sim, que nos estudos epidemiológicos se usa a locução variáveis de confundimento.

Sob o/a

Não fica melhor?


      «O Zenit prepara, sob a orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.» Esta frase concretamente fica mais elegante omitindo-se o artigo. Noutras frases, pode até ser apenas correcto estando omisso o artigo. Outra vez: «O Zenit prepara, sob orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.»

Pontuação

Pausa menor


      «Já Pires, lesionou-se na boca no jogo com o Lagoa, após ter sido atingido por uma cotovelada, mas ontem já trabalhou sem limitações e está apto para a partida com o Estoril, no próximo domingo.» Na minha experiência, o que vejo é que em cada dez vezes que aparece a construção «já X», relativamente abundante, oito estão mal pontuadas. Separar o sujeito do predicado quando aparecem seguidos? Deve ver-se aqui o que alguns gramáticos de trazer por casa chamam «valor melódico da vírgula». Infelizmente, nem todos os jornalistas lêem o jornal para que escrevem. Assim, é óbvio que todas as convicções que tiverem se manterão fortes.

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