Tradução: «half-proof»


Ao acaso

      Os Romanos diziam, e o brocardo alguma vez me deve ter passado pelos olhos, coniectura est semiplena probatio, isto é, a conjectura é metade da prova. Prova semiplena era a que, por si só, não era suficiente para fundar a decisão de uma causa. Havia mesmo, a partir de certa altura, um sistema de tarifamento das provas, pelo qual se sabia quantas provas semiplenas formariam uma prova plena. Estou agora a rever uma obra sobre como o acaso rege a nossa vida (The Drunkard’s Walk — How Randomness Rules Our Lives. Nova Iorque: Pantheon Books, 2008, a sair brevemente pela Editorial Bizâncio e com tradução de Luís Leitão), da autoria do físico Leonard Mlodinow, em que leio o seguinte: «A regra que acabámos de utilizar podia ser aplicada à regra romana das semiprovas: as probabilidades de duas semiprovas independentes estarem erradas é de 1 em 4, pelo que duas semiprovas constituem três quartos de uma prova, e não uma prova completa. Os Romanos somavam onde deviam multiplicar» (p. 49). Aposto que muitos leitores meus (e penso logo em Fernando Ferreira, Paulo Araujo e em R. A.) irão gostar desta obra, que acho excelente.
      Para justificar a classificação deste texto: sim, half proof (ou half-proof) traduz-se por semiprova e não, como se poderia afigurar, por meia prova, por exemplo.

      Eis um excerto da obra: «Qual é maior, o número de palavras inglesas de seis letras, sendo a quinta um n, ou o número de palavras inglesas de seis letras que terminam em ing? A maioria das pessoas escolhe o grupo de palavras que terminam em ing. Porquê? Porque é mais fácil pensar em palavras que terminam em ing do que em palavras genéricas de seis letras em que o n é a quinta letra. Mas não é preciso irmos vasculhar no Oxford English Dictionary — ou mesmo saber contar — para demonstrar que a resposta está errada. Com efeito, o grupo de palavras de seis letras contendo o n como quinta letra inclui todas as palavras de seis letras que terminam em ing. Os psicólogos chamam a este tipo de erro “enviesamento de disponibilidade” [availability bias], dado que, quando reconstituímos o passado, damos uma importância injustificada a recordações que são mais vivas e, por isso, mais disponíveis para a recuperação» (p. 42).

A moda dos «clusters»

No fundo, um grupinho

      «Fontes das construtoras Alstrom, Bombardier e CAF, bem como de empresas ligadas ao cluster da indústria de alta velocidade — contactadas pelo PÚBLICO durante o congresso da União Internacional dos Transportes Públicos (UITP), que se realizou esta semana em Viena (Áustria) — foram unânimes em afirmar que não será possível ter comboios prontos a circular em 2013, mesmo que o Governo lançasse hoje mesmo o concurso público para a aquisição de material circulante» («Portugal sem comboios TGV para arrancar com a linha Lisboa-Madrid em 2013», Carlos Cipriano, Público, 12.06.2009, p. 22). Ainda ontem a ministra da Saúde, Ana Jorge, falava em clusters: «Logo que as situações de gripe, o número de casos começa a aumentar, e o facto de ter aparecido numa escola um grupinho, que no fundo nós chamamos um cluster, de ter acontecido ali, essas podem, se não tomarmos as tais medidas de contenção, transmitir às outras pessoas.» É uma frase demasiado ziguezagueante, não é? O problema, porém, é o uso desnecessário do estrangeirismo. Ainda assim, a ministra teve o cuidado de explicar do que se tratava. O jornalista, pelo contrário, limitou-se a usar o termo sem ter os mesmos cuidados.
      No que respeita à indústria, e segundo Michael E. Porter (Competição, On competition, Estratégias Competitivas Essenciais. Rio de Janeiro: Campus, 1999, p. 211), um aglomerado ou cluster «é um agrupamento geograficamente concentrado de empresas inter-relacionadas e instituições correlatas numa determinada área, vinculadas por elementos comuns e complementares».

Verbo «colocar»

É assim mesmo

      «Um dos juízes de Braga que condenou o ucraniano, alegando sentir-se afectado na sua imagem profissional, colocou-lhe um processo judicial» («Aumentam arguidos estrangeiros, sobem despesas de tradução nos tribunais», Paula Torres de Carvalho, Público, 12.06.2009, p. 11). Nada mais errado. Senhora jornalista, deixe lá o verbo colocar em paz! Escreva: «moveu-lhe um processo judicial», «interpôs um processo judicial». Este uso anómalo do verbo colocar revela uma pobreza lexical subfranciscana, indigna de um jornalista.

Ortografia: «abstemia»

Propugnáculo

      «Estabelecimentos coloridos e muitas vezes icónicos, que conseguiram sobreviver a guerras civis, à severa abstémia vitoriana e a histórias de estarem assombrados, estão crescentemente a render-se às forças do mercado moderno, aos impostos mais elevados e à mudança de estilos de vida» («Os ingleses podem viver sem os “pubs”?», Henry Chu, Pública, 21.09.2009, p. 34). Não foi o pobre Henry Chu, que só saberá inglês e umas palavritas de mandarim, que assim escreveu, mas a tradutora portuguesa (Rita Veiga/Dito e Certo). Chu escreveu: «Colorful and often iconic establishments that managed to survive civil wars, frowning Victorian teetotalism and tales of being haunted are increasingly buckling under to modern market forces, higher taxes and lifestyle changes» («English villagers try to save struggling pubs», Los Angeles Times, 9.06.2009). Há abstémios e abstémias — mas todos propugnam a abstemia. Mas sei que há dicionários — hic, hic! — que registam a grafia abstémia.

Topónimo: Pedralvas


Apressados

      Já aqui disse que da janela da minha sala vejo Monsanto. Alguns jornalistas de aviário dizem que é «o Monsanto». Agora, com o caso das cinco crianças do externato de Lisboa que contraíram gripe A, ouve-se com grande frequência, na rádio e na televisão, que o colégio se situa na Pedralva. Aqui em Benfica são as Pedralvas, e só jornalistas desleixados não verificam o que escrevem. Tomou o nome da antiga Quinta das Pedralvas, doada pela proprietária no início da década de 1970 à Câmara Municipal de Lisboa com a condição de os terrenos serem utilizados para habitação e fins sociais. A habitação está à vista, quanto aos fins sociais, só se forem as hortas arrasadas pelas retroescavadoras para construírem a CRIL.
      Curiosamente, são dois casos de topónimos compostos por aglutinação: monte + santo e pedra + alvas, respectivamente. Em Minas Gerais, no Brasil, é que há um município chamado Pedralva. Até 1941, chamava-se Pedra Branca de Santa Catarina, pois na serra que divide este município do de Natércia abundam pedras muito brancas.

Ortografia: «calças-tubo»

Ver-se em calças pardas

      «Ele [Pep Guardiola] gosta de usar cabelo curto — aconselhável a quem cedo chegam as “entradas” — calças-tubo e gravata fininha, tudo de cores sóbrias que revelam a paixão pela vida mas sobretudo pela elegância e pelo comedimento» («Hugo Boss, Armani e gravatas fininhas», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 28). É mais provável terem já lido sem hífen, «calças tubo», mas correcto é com hífen. Calças-tubo são as calças justas em baixo. Foi na década de 1960 que o estilista francês, engenheiro civil de formação, André Courrèges (n. 1923) lançou esta moda feminina, o pantalon tube, depois adoptada também pelos homens. O inglês ficou a perder, pois é mais longa a expressão: tube-shaped trousers. E a propósito deste estilista também ter usado o corte em viés (isto é, contra o fio do tecido) nas calças, lembrei-me das calças de ganga com costuras torcidas: «E é o caso da Levi’s Engineered Jeans, um modelo da conhecida marca de calças de ganga com as costuras torcidas (twisted), que se inspirou no estilo suburbano do “Black Label Bicycle Club” (organização internacional de praticantes de saltos e duelos com bicicletas)» («Calças das costuras tortas promovem arte», P. B., Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 47).

Concordância

Não ouviu mal, não

      A expressão era human decision making, que o tradutor entendeu traduzir por «tomada de decisões humanas». Faz lembrar a expressão (deturpada diariamente, ainda anteontem a ouvi na Antena 1, por político e jornalistas) «armas de arremesso político». Como analisou com perspicácia Adriana Freire Nogueira no seu A Senhora Sócrates, «arremesso é o determinativo de armas e são elas que indicam o género e o número do eventual adjectivo ou o número do verbo». «Portanto, se haveria de haver uma concordância era com armas e não com arremesso.» Logo, armas de arremesso políticas. Logo, tomada de decisões humana. E, noutra ordem, para ver como está correcto: armas políticas de arremesso e tomada humana de decisões.

«Arrebatar», de novo

O licitador arrebatado

      «“The successful bidder can be proud to know that the 1973 Airbag Chevy Impala appeared on national television and at government hearings, and served as a catalyst for encouraging the mass adoption of airbags that have saved countless lives”» («Bonhams Brings World’s First Production “Airbag” Car to Greenwich in June», in www.bonhams.com). Como é que acham que na imprensa portuguesa se traduziu aquele bidder usando um verbo? Arrebatar, muito bem, já pensam como alguns jornalistas — mal. «“Por outro lado, quem arrebatar este artigo tornar-se-á o proprietário de um veículo que apareceu na televisão e foi o tema de debates governamentais, bem como um dos catalisadores da adopção dos airbags pela generalidade dos produtores automóveis”» («Um automóvel que marcou a história», Luís Filipe Rodrigues, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 70). A tontice está a alastrar.

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