«Cozinheiro-em-chefe»?

Alguns acertam

Se comandante-em-chefe é má tradução do francês, cozinheiro-em-chefe também é uma criação vocabular maculada de francesia: «Tanto mais que foi ele [Jamie Oliver] o cozinheiro-em-chefe da recente cimeira G-20» («E não se pode exterminá-lo?», Miguel Calado Lopes, Única, 9.05.2009, p. 68).
Correcto: «A cerimónia de despedida do vice-almirante Silva Santos como comandante-chefe do quartel-general da NATO em Oeiras, na tarde de 18 de Março de 2004, terminou de forma invulgar: junto ao portão, cumprimentando um a um os militares e civis que tinham formado duas alas desde a entrada principal do edifício de comando» («O almirante a quem a NATO ‘abriu alas’ na despedida», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 11.05.2009, p. 45)

Sobre «casual»

Depende do acaso

Apenas dicionários «pós-modernos» como o Houaiss, como há quem diga depreciativamente, registam no verbete referente ao adjectivo casual a acepção de «concebido para uso informal», a partir do inglês casual, «informal, desportivo», como em casual clothes. (Verbete que, de resto, neste dicionário precisa de ser revisto, pois contém incorrecções.) No excerto que se segue, o vocábulo é tratado como um verdadeiro estrangeirismo, o que é raro ver-se: «Talvez Wilbert Das, o director criativo da marca italiana de roupa “casual” Diesel, resuma o que pensam os seus camaradas de ofício (e não só) quando diz: “No universo da moda tudo é efémero e frenético. Alguns designers sentem o apelo de se envolverem em algo que dure mais do que uma estação”» («Eles também têm hotéis», Única, 9.05.2009, p. 56). Há muito tempo que o vocábulo casual, contra ventos e marés, se integrou na língua portuguesa. Esta integração revela-se na adaptação das vogais e das consoantes ao sistema fonológico do português sem qualquer alteração gráfica, como ocorreu noutros vocábulos. No caso, a adaptação deu-se também por deslocamento do acento, pois no original tem acento primário na primeira sílaba e passou para o léxico do português com acento na terceira sílaba (é um oxítono). Para muitos falantes, casual não é só o «que depende do acaso», mas (por ignorância? por opção?) o que é «informal».

Os limites da revisão

É pêra, mas não é doce

Foi alegria de pouca dura: na edição de sábado passado da revista Única, num texto assinado por Teresa Resende, lia-se «pêra-rocha», tal como eu perguntava aqui porque não se escrevia assim. Das oito ocorrências, só uma, na entrada, é grafada com hífen. Uma das ocorrências não vale, pois é o nome da associação de produtores: Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha (ANPPR). Ou vale? É que a autora do texto corrigiu, de qualquer modo, a grafia da designação da associação, já que no sítio da ANPPR o vocábulo «pêra» está grafado incorrectamente *pera. O que suscita a questão, que já uma vez aqui aflorei, da legitimidade de corrigir, num texto que se está a rever, o nome oficial de uma dada entidade. Imaginemos que no nosso texto se refere o Instituto Inter-Universitário de Macau. Ora, se o elemento de formação de palavras inter- apenas é seguido de hífen quando o segundo elemento tem vida própria e começa por h ou por um r que não se ligue foneticamente ao r anterior, correcto seria interuniversitário. O que acham os leitores? Talvez no dia 1 de Junho proponha a mesma reflexão na conferência integrada no curso de formação avançada em Revisão e Edição de Texto ministrado na Universidade Católica Portuguesa (UCP), para a qual fui convidado.

Léxico: «golada»

Ainda não aprenderam

«A erosão costeira em vários pontos do país, nomeadamente na Costa da Caparica, Setúbal, não pode ser combatida com a colocação de areia artificial nas praias, alertaram ontem especialistas. “Só o fecho da golada permitirá assegurar a protecção definitiva das praias da Costa, facilitar a navegação no Tejo e ganhar terrenos ao mar”, disse José Manuel Cerejeira, especialista em obras marítimas» («Erosão combatida sem areia artificial», Metro, 11.05.2009, p. 2). A única golada que o leitor comum conhece é a de uma cerveja Sagres em frente de um jogo de futebol, com goleada ou não. Embora as práticas estejam a mudar, é vezo antigo de alguns jornalistas ficarem tão maravilhados perante uma palavra nova, que a não explicam aos leitores, destinatários últimos daquilo que escrevem. No Diário de Notícias, o mesmo texto, «Combate a erosão da costa tem sido pouco eficaz», assinado por D. M. (p. 20 da edição de hoje) padece do mesmo mal. Golada, no contexto do texto citado, é o canal de navegação, nos extremos dos bancos de areia de uma barra, transitável por pequenos barcos.

Verbo «ruir»

Língua arruinada

«Fachada de prédio rui sem causar feridos» (Destak, 7.05.2009, p. 4). Está correcta aquela forma verbal, «rui»? O verbo ruir é defectivo, ou seja, raramente se conjuga em todas as formas do paradigma (quer dizer, do modelo de conjugação) a que pertence.
Na semana passada, uma consulente do Ciberdúvidas, Alda Durães, tradutora, quis saber se podia usar a forma verbal rui ou se devia substituí-la por está a ruir. Para espanto meu, o consultor, Carlos Marinheiro, afirmou que «de qualquer modo, a forma usual é “está a ruir” (“O prédio está a ruir”)». É? Esperava que o consultor, dada a pouca frequência do uso daquela forma verbal, aconselhasse o uso de outro verbo sinónimo não defectivo, como desmoronar-se. Conjugado da forma perifrástica que o consultor aconselha, dá ideia que o acto de ruir nunca se concretiza, é sempre apenas uma ameaça. Experimentem substituir «rui» por «está a ruir» na frase com que inicio este texto: «Fachada de prédio está a ruir sem causar feridos.» Isto tem algum sentido? Agora comparem a forma verbal aconselhada com o fecho da notícia: «A derrocada afectou um semáforo e barricou a estrada.»
A forma verbal rui, que pertence ao presente do indicativo, está por outra, ruiu, que pertence ao pretérito perfeito simples, habitualmente um marcador linguístico de valor perfectivo (o consultor errou). Ora, o valor aspectual transmitido pela perífrase verbal (verbo auxiliar + preposição a + verbo principal) veicula uma ideia de acção durativa que decorre num momento específico (o consultor está a dormir).

«Cruzar-se com»

Dispor em forma de cruz

«Autêntica estrela do programa que vai ser transmitido no início de Maio em 144 países, Kate disse a Oprah que sentia que Maddie ainda estava viva e que, apesar de não a reconhecer nas novas imagens, seria capaz de a reconhecer na rua se por acaso a viesse a cruzar, o que não deixou de arrancar alguns suspiros de emoção da plateia» («Kate não reconheceu a nova cara de Maddie», Duarte Levy, 24 Horas, 27.04.2009, p. 22). Ultimamente, vejo com alguma frequência este erro de regência, não apenas em traduções, mas em autores portugueses. Na acepção usada, a de duas ou mais pessoas se encontrarem quando caminham em direcções opostas, o verbo é pronominal e regido da preposição com: cruzar-se com. E também se pode dizer: «Kate e Maddie cruzaram-se na rua e não se reconheceram.»

Jargão médico II

Tac e tiques



      Falando sobre sexo na gravidez, Júlio Machado Vaz acaba de dizer no programa O Amor É… que alguns homens «fazem depressão» quando as mulheres estão grávidas. Como em relação ao género da sigla TAC, e ao contrário da opinião do leitor R. A., não creio que o falante comum lhe atribua o género masculino por analogia com as palavras «ataque» e «achaque», por exemplo, nem, como teorizam alguns consultores do Ciberdúvidas, por estar ali pressuposto o vocábulo «exame», mas simplesmente por ouvirem os médicos falar assim. Os erros são da classe médica, os falantes, sobretudo os pouco escolarizados, limitam-se a assimilar e a propagar os erros. Quanto a computorizado ou computadorizado, a influência inglesa é manifesta, e o povo não é para aqui chamado, e isso porque nunca ouvi qualquer falante desdobrar a sigla TAC. Nunca.


O verbo «parar»

Cartas ao director

      O leitor Elysio Correia Ribeiro mandou uma carta ao jornal Público e quis partilhar comigo o seu teor:

«Exmo. Senhor Director,
Ciclicamente mimoseia-nos o Público com novos disparates em português. Na edição de hoje li, por duas vezes, “páram” assim escrito, com acento agudo no “a”, uma delas logo na primeira página na notícia sobre touradas.
Talvez fosse bom dizer aos seus jornalistas que, no presente do indicativo do verbo parar, apenas a 3.ª pessoa do singular — pára — tem acento, para se distinguir de “para”. Não se escreve “páro”, “páras” nem “páram”!
PAREM — não párem — portanto de contribuir para a estupidificação das gentes, sim?
Cordialmente,
Elysio Correia Ribeiro».

     Convém recordar que, pelo Acordo Ortográfico de 1990, para (á), flexão de parar, e para, preposição, passam a deixar de se distinguir pelo acento gráfico.

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