«Mal-encarado» e «malvisto»

Fale por si

      «Depois do Prós e Contras sobre o casamento homossexual, só tenho ouvido piadas e agravos contra juristas. Duas que já li foram: a melhor maneira de matar um debate interessante é convidar um jurista e; qual é a doença que leva os juristas a falar à jurista? Não sou corporativo e por mim estejam à vontade. Mas, como membro da tribo, há aqui um problema que claramente me interessa: porque é que os juristas são mal-encarados em Portugal?» («Os juristas, pobres coisas», Pedro Lomba, Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 7). Claro que o autor queria escrever outra coisa — mas não escreveu. Como jurista, vai ser exemplarmente escarmentado: o adjectivo «mal-encarado» significa o que tem má cara, carrancudo; o que revela maus instintos. Pedro Lomba havia de querer escrever «malvisto»: «que tem má fama; desacreditado; odiado; antipático».

Léxico: «suburbicário»

Em volta de Roma

«O Papa Bento XVI promoveu o cardeal português D. José Saraiva Martins à Ordem dos Bispos do Colégio dos Cardeais, atribuindo-lhe o título da igreja suburbicária de Palestrina» («Saraiva Martins promovido», Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 12). Igreja ou sé suburbicária é cada uma das sete dioceses cardinalícias localizadas em volta de Roma reservadas aos cardeais-bispos: Albano, Frascati, Óstia, Palestrina, Porto-Santa Rufina, Sabina-Poggio Mireto e Velletri-Segni.

Eufemismos e disfemismos

Oito ou oitenta

«Nascido a 19 de Outubro de 1936, numa família de 17 filhos, na América de Franklin D. Roosevelt, o afro-americano serviu duas vezes na Marinha antes de terminar o curso no Seminário Teológico Baptista de Nashville» («O conselheiro rebelde de Martin Luther King», Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 37). Eu já aqui disse que conheço mais africanos brancos do que negros? Não? Mas disse isto. A moda do politicamente correcto está para durar. Claro que, em paralelo, também vão sendo largados alguns disfemismos, como este: «Um minuto. Foi o tempo que demoraram os agentes da PSP a chegar ao local do crime e a apanhar o bandido em flagrante» («Homem-aranha apanhado na ‘teia’ da PSP», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 6.02.2009, p. 18).

Ortografia: «rulote»

Ficamos a meio?

«Incêndio consome armazém de roulotes e caravanas» (26.12.2008, Diário de Notícias, p. 21). Justamente como ocorre com os vocábulos «icebergue» e «basebol», que aqui vimos recentemente, o vocábulo «roulote» foi apenas parcialmente aportuguesado. Ter perdido apenas um troulotte — na passagem do francês para o português não é suficiente e revela como os lexicógrafos ficam muitas vezes nas meias-medidas. Não nos esqueçamos que quase todos os dicionários são, em alguma medida, tão descritivos como prescritivos.

Léxico: «esteiro»

Soeiro Pereira Gomes (1909–1949)

Que a efeméride sirva também para lembrar o que são esteiros — título do seu romance com ilustrações de Álvaro Cunhal publicado em 1941 —, pois é a palavra que logo ocorre quando se fala deste escritor neo-realista. Esteiros são braços estreitos de rio ou mar que se estendem pela terra dentro. No caso, são canais abertos pelo Tejo na margem do concelho de Alhandra e de onde se retirava barro para fazer tijolos e telhas. O étimo é o latino aestuariu-, «lugar onde a água ferve». É palavra divergente de «estuário», parte de um rio, próxima da sua foz no mar, onde a água doce se confunde com a salgada.

Abuso de estrangeirismos


Mostras de cosmopolitismo

Cake Parade, em Portalegre? Deve ser para competir com as Gay Parades por esse mundo fora. Só pergunto se não arranjavam um nome português para esta iniciativa, uma mostra de arte pública, integrada na IX Feira da Doçaria Conventual de Portalegre, a decorrer no Mosteiro de S. Bernardo, em Portalegre, de 24 a 26 de Abril. Calma, não se abespinhem! É verdade: já me esquecia de algo mais parecido e igualmente digno: a Cow Parade. Os organizadores, próvidos e cosmopolitas, devem ter pensado que seria menos artístico ter um nome português e, sobretudo, que nem toda a gente perceberia se estivesse escrito nesta língua assaz obscura.

Léxico: «navalha do tipo “borboleta”»

Imagem: http://testex.com.sapo.pt/

No fio da navalha



      «O caso está em apreciação no Tribunal da Relação de Lisboa (TRL). Na primeira instância, Bruno foi condenado, entre outros crimes, por detenção de arma proibida. Uma navalha tipo “borboleta” que lhe foi apreendida» («Tamanho da lâmina de uma navalha conta», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 11).
      A discordância em casos semelhantes centra-se no facto de o Ministério Público entender que esta arma tem disfarce, ou seja, um mecanismo, borboleta, que permite a ocultação da lâmina no seu corpo, de modo a não ser reconhecida por terceiros como arma branca quando está fechada, à semelhança da navalha de ponta-e-mola, ao passo que a defesa nega que a borboleta configure um disfarce. Há também quem entenda que não se trata de uma navalha, mas sim de uma faca.

«Conta-quilómetros» e «celerímetro»


Mas então?...


      «Fonte próxima do processo disse ao DN que o ponteiro do conta-quilómetros estava partido, devido à violência da colisão, admitindo as autoridades que o carro circulasse a uma velocidade perto dos 240, o que ajuda a explicar que a viatura entrasse desgovernada na berma da estrada onde andou ao longo de cem metros e se tivesse partido ao meio, antes de se incendiar, ficando irreconhecível» («Condutor ia a 220 km/hora mas não tinha álcool», Robert Dores, Diário de Notícias, 6.01.2009, p. 21). Não é raro os falantes confundirem conta-quilómetros com celerímetro, mas lamentável que um jornalista o faça. Isto pensava eu, até ter lido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conta-quilómetros nome masculino 2 números aparelho que indica a velocidade e o número de quilómetros percorridos por um veículo (De contar+quilómetro).» Mas afinal o instrumento que serve para determinar a velocidade de um veículo não é o celerímetro (speedometer em inglês)? Não se tratará de mais uma cedência dos dicionaristas aos erros do senso comum?

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