«Antirreeleição»


Para espantar?

Escreve o leitor Paulo Araujo que tem notado que os jornais brasileiros, parece que propositadamente, estão agora a usar palavras que sofreram alteração ortográfica com o Acordo Ortográfico de 1990, «talvez até por pedantismo», suspeita «mas isto tem um sentido educativo muito importante; as pessoas acabam aprendendo sem se preocuparem de estudar o assunto». A imagem mostra uma manchete de uma notícia no Estadão de hoje, em que se pode ler «um palavrão (apenas no tamanho), mas recomendo ao leitor malévolo para buscar a acepção correta de “racha” para esse contexto». Já aqui tínhamos visto a mesma acepção para esta palavra: cisão de um grupo político, de um partido. Para os Brasileiros como para nós, «racha» também é a vagina, mas é vocábulo que quase não vejo ser usado.
A imprensa pode ter realmente um papel muito importante na rápida assimilação das novas regras ortográficas, muitas vezes até forçando a nota. É pedagógico, sim.

Nomenclatura científica


Ainda não é desta

      No texto principal, «Penas e dinossauros evoluíram juntos» (Diário de Notícias, 19.03.2009, p. 31), a jornalista, Susana Salvador, nunca deixou de grafar correctamente os nomes científicos dos dinossauros: Sinosauopteyx prima e Tianyulong confuciusi. No texto de apoio, que se reproduz acima, o nome científico do dinossauro referido nunca é bem grafado. Não é nenhuma excepção, senhora jornalista: escreve-se Tyranossaurus rex. T-rex, para os amigos.

Acordo Ortográfico

Não ficamos em branco

Um acordo ortográfico, qualquer que seja, não é uma lei que se destine a ter vigência temporária, pelo que só deixa de vigorar se for revogado por outra lei. Ora, se o Acordo Ortográfico de 1990 não contém nenhuma norma revogatória expressa, a revogação das regras ortográficas que ainda nos regem só pode resultar ou da incompatibilidade com as novas disposições ou da circunstância de a nova lei regular toda a matéria da lei anterior. As perguntas que se impõem são: o novo acordo ortográfico regula toda a matéria anterior? Se não regular, e creio que não regula, que podemos fazer? Em meu entender, como acontece noutros domínios regulados juridicamente, continuarão em vigor as disposições precedentes. Ainda não li nenhuma opinião neste sentido.

Ortografia: «fotobiobibliografia»


Não queriam mais nada

Vamos ver se nos entendemos. Há o vocábulo «biobibliografia», não é assim? Também há o vocábulo «fotobiografia», não é verdade? Então parece que temos de escrever «fotobiobibliografia». Parece-me que os responsáveis pela concepção deste cartaz deviam saber, pois as bibliotecas municipais de Lisboa têm, por exemplo, a obra Miguel Torga: fotobiobibliografia, da autoria de José de Melo e publicada em 1995 pela editora Estante, de Aveiro. Mais um caso de amnésia linguística...

Léxico: «marca»

Passar das marcas

O vocábulo «marca» é — já tinham reparado? — um dos mais polissémicos na nossa língua. Aprendi agora que no século XIX se dava o nome de marcas à horda de maltrapilhos que aproveitavam para dormir na tarimba dos quartéis, e que a troco de dinheiro faziam o serviço em lugar de gente graúda que pretendia eximir-se a ele.

Uso de estrangeirismos. «Vocal»

E instrumental?

      E o autor escrevia que «o grupo dos “ordeiros” se tornava cada vez mais vocal». Já vimos este vocal aqui. Nem sempre o contexto ajuda o leitor a perceber de que se trata, o que parece não tirar o sono aos autores. Vocal, escrevi então, poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se faz ouvir»: «o grupo dos “ordeiros” que se fazia cada vez mais ouvir». Isto é português, é compreensível.

Léxico: «chamorro»

Bons ventos...

Voltemos ao século XIX, em que ficámos ontem. Como sempre acontece quando há confronto, inventam-se e refrescam-se termos com que se pretende ofender os adversários. Com a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1798-1834) e a sua vinda para Portugal, em pleno «reinado da frase e do tiro», como lhe chamou o historiador Oliveira Martins, à volta do primeiro imperador do Brasil juntaram-se vários homens, os chamados «amigos de D. Pedro», mais tarde apodados de chamorros. O termo «chamorro» já tinha sido usado pelos Castelhanos no século XIV para referir depreciativamente os portugueses, por estes usarem a cara rapada e o cabelo curto. Chamorro significa, em espanhol, «tosquiado», e aplica-se mais facilmente a uma ovelha do que a homem.

Os prefixos co- e re-


Como se comporta a ABL



      Salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. É sobre esta questão que versa o artigo acima do Prof. Evanildo Bechara. A questão é tanto mais importante quanto a 1.ª edição do dicionário escolar da própria Academia Brasileira de Letras (ABL), lançado em Outubro, «agasalhou» o erro, de que saiu uma errata no sítio da ABL. A 2.ª edição deste dicionário corrigiu, mas errou, conforme escreve o leitor Paulo Araujo, «o que estava certo (cri-crilar e zi-ziar em vez de cricrilar e ziziar, mas cri-cri e zi-zi-zi continuam, sob a justificativa de que os nomes onomatopeicos têm hífen, tradicionalmente), ou seja, a errata acertou mas errou. Devia haver o termo “acertata”, para nomear esse tipo de barbeiragem [erro cometido por profissional, decorrente de descuido, inabilidade ou incompetência, no exercício do seu trabalho]». Agora, o Volp não acolhe este erro, que também alguns dicionários portugueses difundem.

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