Verbo «deter»


Horresco referens


      «Don’t let him do this, l’ll tell you what you want to know!», gritou o guarda-livros de Al Capone na cena da escadaria da Chicago Union Station no filme Os Intocáveis (Brian De Palma, 1987), que anteontem passou no canal Hollywood. Na legenda lia-se: «Se os deter[,] conto-lhe tudo o que sei.» O tempo usado é o infinitivo pessoal; o tempo adequado é o futuro simples do conjuntivo. Deter é um derivado de ter; logo, conjuga-se como este. O tradutor não dirá, suponho: «Se o senhor ter tempo, passe lá pelo escritório.» Como é que um tradutor escreve desta forma?

Sobre «curatelar»

Use-se

«Gostava que comentasse a palavra “curatelado” que está no Artigo 48.º (*) do Decreto-Lei n.º 6/96, de 31 de Janeiro (Código do Procedimento Administrativo) e provavelmente noutros sítios. Havendo curatela (substantivo) e não havendo curatelar (verbo) como aparece esta forma? Curatela e curatelado estão no Houaiss e no Grande Dicionário da SLP mas não no da Academia!», escreveu o leitor Rosalvo Almeida.
Não seria o único caso em que temos um adjectivo sem termos o respectivo verbo. Contudo, os Brasileiros, que também usam o vocábulo «curatelado», registam no Aulete Digital o verbo «curatelar», «atuar como curador». Do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é melhor não falarmos.

Verbo «ir»+«a»

Se ela o diz… engana-se!

«Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta» (Machado de Assis, D. Casmurro, Capítulo III). Por vezes, como pode ver, caro M. L., o infinitivo que se segue ao verbo ir é regido pela preposição a. É, creio, elementar. Qualquer pastor da serra do Marão o sabe — a sua professora não o pode ignorar! Ou vai ela para a serra e pagamos ao pastor para nos ensinar.

Prefixo «hiper-»

Para isso pagamos

Chamem-me Júlio Verne ou chamem Júlio de Matos — acredito que chegará um dia em que um chip implantado no nosso cérebro nos comandará a mão a escrever segundo a norma ortográfica então vigente. Nessa altura, só os vírus (ou quem controlar um poderosíssimo computador central que enviará informação para o chip) nos impedirão de escrever bem. Entretanto, sobretudo quando se trata de palavras menos vulgares, convém que todos — mas sobretudo os jornalistas, que escrevem para milhares e milhões — consultemos dicionários e prontuários. Os leitores não pedem mais nem muito.
«Hiper-protegido, o pequeno Nuno não frequentou a escola, não brincava na rua com as outras crianças, no futebol só podia jogar a guarda-redes para não se aleijar e tinha sempre consigo a mãe preocupada com as correntes de ar» («Um filme para redescobrir “o homem que dava pulos”», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 20.1.2009, p. 24). A consulta a um prontuário diria que o prefixo hiper- só tem hífen antes de h e de r.

À volta de «non-believers»

Medievo, acho

Vi parte do discurso de posse de Barack Obama na Sic Notícias. Detenho-me nesta frase: «For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus—and non-believers.» Pois na legenda pôde ler-se, e não sustive um frouxo de riso, «incréu» a traduzir «non-believers». Vamos lá, há formas mais terra-a-terra, mais modernas, de o traduzir. A mais colada ao original, como a tradução divulgada no Público (e subscrevo o reparo quanto ao crédito da tradução que Rui Oliveira faz no Super Flumina): «Porque nós sabemos que a nossa herança de diversidade é uma força, não uma fraqueza. Nós somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e não crentes.» Ou, mais do meu agrado, como traduziu Luiz Roberto Mendes Gonçalves: «Pois sabemos que nossa herança de colcha de retalhos é uma força, e não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e de descrentes.»

Escreva: «faixa de Gaza»

Imagem: http://www.estadao.com.br/

Franjas, bandas, faixas e tiras

«Ban Ki-moon prepara visita à Faixa de Gaza», titulava ontem o Diário de Notícias um artigo assinado por Lumena Raposo. Vejam como os Espanhóis escrevem: «Los palestinos intentaron ayer volver a la normalidad tras el alto el fuego y, después de 22 días de ataques israelíes, se enfrentaron a la situación de la franja de Gaza con los rostros marcados por la tristeza, desesperación y rabia» («Gaza intenta volver a la normalidad tras los duros ataques de Israel», 20 Minutos, 20.1.2009, p. 8). Ou os Franceses: «La ministre israélienne des Affaires étrangères Tzipi Livni a réaffirmé aujourd’hui à Paris qu’Israël déciderait “ le moment venu ” d’arrêter ses opérations militaires contre la bande de Gaza, estimant que la situation humanitaire y était “ comme elle doit être ”» («Gaza: “ pas de crise humanitaire ” (Livni)», Le Figaro, 1.1.2009).
Sem ser um termo reconhecida e especificamente geográfico, como «cabo», península» ou «ilha», por exemplo, não deixa de significar «pedaço longo e estreito de terra», como regista o Dicionário Houaiss. Assim, é também a designação de um acidente geográfico, e estes, como sabem, grafam-se com minúscula inicial. Logo, faixa de Gaza.

Uso das aspas

Indocíveis

Não é a primeira vez que aqui refiro esta questão: as aspas desnecessárias. Na edição de anteontem do Global, uma chamada de primeira página, que remetia para a página 8, referia que a Marinha passou a ter mais um salva-vidas, este «inafundável». Já a página 8 titulava inequivocamente: «Salva-vidas inafundável reforça frota nacional». Quase todos os jornais acolhem este tipo de incoerência. Porque tem a palavra aspas numa ocorrência e as não tem noutra? O salva-vidas é ou não é inafundável? A leitura da notícia não nos deixa dúvidas: «O navio consegue fazer a rotação por si próprio no caso de se virar no mar, voltando à tona da água e mantendo em simultâneo a segurança dos náufragos que transporta.» Ou quem escreveu assim pensou que estava a inventar uma palavra? Só se não frequenta dicionários, pois estão registados vocábulos como estes: inaclimável, inacumulável, inacusável, inafiançável, inafável, inagitável, inalisável, inamável, entre dezenas de outros.

Léxico: «disna»

Imagem: http://www.defdave.com/

De África

O leitor Júlio Correia quer saber que nome se dá às casas africanas circulares e de telhado cónico. «Será cubata? Será senzala?», pergunta. Não é. Cubata é a designação genérica das habitações de povos africanos. Senzala, por sua vez, é a residência de um soba (ou o alojamento destinado aos escravos numa fazenda no Brasil). A uma casa como a da imagem, circular e com telhado cónico, dá-se o nome de disna.

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