Prefixo «hiper-»

Para isso pagamos

Chamem-me Júlio Verne ou chamem Júlio de Matos — acredito que chegará um dia em que um chip implantado no nosso cérebro nos comandará a mão a escrever segundo a norma ortográfica então vigente. Nessa altura, só os vírus (ou quem controlar um poderosíssimo computador central que enviará informação para o chip) nos impedirão de escrever bem. Entretanto, sobretudo quando se trata de palavras menos vulgares, convém que todos — mas sobretudo os jornalistas, que escrevem para milhares e milhões — consultemos dicionários e prontuários. Os leitores não pedem mais nem muito.
«Hiper-protegido, o pequeno Nuno não frequentou a escola, não brincava na rua com as outras crianças, no futebol só podia jogar a guarda-redes para não se aleijar e tinha sempre consigo a mãe preocupada com as correntes de ar» («Um filme para redescobrir “o homem que dava pulos”», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 20.1.2009, p. 24). A consulta a um prontuário diria que o prefixo hiper- só tem hífen antes de h e de r.

À volta de «non-believers»

Medievo, acho

Vi parte do discurso de posse de Barack Obama na Sic Notícias. Detenho-me nesta frase: «For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus—and non-believers.» Pois na legenda pôde ler-se, e não sustive um frouxo de riso, «incréu» a traduzir «non-believers». Vamos lá, há formas mais terra-a-terra, mais modernas, de o traduzir. A mais colada ao original, como a tradução divulgada no Público (e subscrevo o reparo quanto ao crédito da tradução que Rui Oliveira faz no Super Flumina): «Porque nós sabemos que a nossa herança de diversidade é uma força, não uma fraqueza. Nós somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e não crentes.» Ou, mais do meu agrado, como traduziu Luiz Roberto Mendes Gonçalves: «Pois sabemos que nossa herança de colcha de retalhos é uma força, e não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e de descrentes.»

Escreva: «faixa de Gaza»

Imagem: http://www.estadao.com.br/

Franjas, bandas, faixas e tiras

«Ban Ki-moon prepara visita à Faixa de Gaza», titulava ontem o Diário de Notícias um artigo assinado por Lumena Raposo. Vejam como os Espanhóis escrevem: «Los palestinos intentaron ayer volver a la normalidad tras el alto el fuego y, después de 22 días de ataques israelíes, se enfrentaron a la situación de la franja de Gaza con los rostros marcados por la tristeza, desesperación y rabia» («Gaza intenta volver a la normalidad tras los duros ataques de Israel», 20 Minutos, 20.1.2009, p. 8). Ou os Franceses: «La ministre israélienne des Affaires étrangères Tzipi Livni a réaffirmé aujourd’hui à Paris qu’Israël déciderait “ le moment venu ” d’arrêter ses opérations militaires contre la bande de Gaza, estimant que la situation humanitaire y était “ comme elle doit être ”» («Gaza: “ pas de crise humanitaire ” (Livni)», Le Figaro, 1.1.2009).
Sem ser um termo reconhecida e especificamente geográfico, como «cabo», península» ou «ilha», por exemplo, não deixa de significar «pedaço longo e estreito de terra», como regista o Dicionário Houaiss. Assim, é também a designação de um acidente geográfico, e estes, como sabem, grafam-se com minúscula inicial. Logo, faixa de Gaza.

Uso das aspas

Indocíveis

Não é a primeira vez que aqui refiro esta questão: as aspas desnecessárias. Na edição de anteontem do Global, uma chamada de primeira página, que remetia para a página 8, referia que a Marinha passou a ter mais um salva-vidas, este «inafundável». Já a página 8 titulava inequivocamente: «Salva-vidas inafundável reforça frota nacional». Quase todos os jornais acolhem este tipo de incoerência. Porque tem a palavra aspas numa ocorrência e as não tem noutra? O salva-vidas é ou não é inafundável? A leitura da notícia não nos deixa dúvidas: «O navio consegue fazer a rotação por si próprio no caso de se virar no mar, voltando à tona da água e mantendo em simultâneo a segurança dos náufragos que transporta.» Ou quem escreveu assim pensou que estava a inventar uma palavra? Só se não frequenta dicionários, pois estão registados vocábulos como estes: inaclimável, inacumulável, inacusável, inafiançável, inafável, inagitável, inalisável, inamável, entre dezenas de outros.

Léxico: «disna»

Imagem: http://www.defdave.com/

De África

O leitor Júlio Correia quer saber que nome se dá às casas africanas circulares e de telhado cónico. «Será cubata? Será senzala?», pergunta. Não é. Cubata é a designação genérica das habitações de povos africanos. Senzala, por sua vez, é a residência de um soba (ou o alojamento destinado aos escravos numa fazenda no Brasil). A uma casa como a da imagem, circular e com telhado cónico, dá-se o nome de disna.

«Paralelepípedo»

Imagem: http://theparallellines.blogspot.com/

Simplesmente paralelo


      Nunca presenciei, mas já ouvi que algumas pessoas têm dificuldade em pronunciar a palavra. João de Araújo Correia fala mesmo de um professor que era simplesmente incapaz de a pronunciar. Também Tomaz de Figueiredo desfaz na palavra: «Paralelepípedo, palavra má de pronunciar, palavra enrodilhada, já o povo a ia desbotando em “paralelo”… Pois que deixassem o povo! As leis da linguagem, ao menos, era ele quem as sabia: deixassem-no legislar» (Uma Noite na Toca do Lobo. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 75).

Léxico: «empaste»


Artes e ofícios

Alguns dicionários registam o termo. Empaste: «Acto ou efeito de o encadernador aplicar as capas de um livro.» Sendo um termo menos vulgar, não podia deixar de dar nota dele aqui. Em espanhol também existe, e com o mesmo sentido, o termo, um substantivo deverbal, isto é, formado a partir de um verbo: «Encuadernar en pasta los libros.»
Fica também, porque algum leitor poderá precisar, a morada completa da oficina referida na reportagem do Público:

Invicta Livro — Encadernações, Restauros e Dourados, Lda.
Praça da República, 180-r/c
4050-498 Porto
Tel.: 222 004 774 Fax: 222 004 771

Tradução: «legal requirement»

Sem rasto de português…


      Na série Sem Rasto, no canal AXN, um jovem foi detido por suspeita de violação de uma rapariga que depois se suicidou. No interrogatório, afirmou cinicamente (o que o agente especial Jack Malone, da Brigada de Pessoas Desaparecidas do FBI de Nova Iorque, recompensou, enfiando-lhe mais tarde a cabeça numa sanita) que não sabia que o final feliz era um «legal requirement». A tradutora, Susana Bénard, da Dialectus, verteu para «requerimento legal». Já tínhamos visto aqui a tradução de technical requirement. A argumentação é a mesma.

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