«Paralelepípedo»

Imagem: http://theparallellines.blogspot.com/

Simplesmente paralelo


      Nunca presenciei, mas já ouvi que algumas pessoas têm dificuldade em pronunciar a palavra. João de Araújo Correia fala mesmo de um professor que era simplesmente incapaz de a pronunciar. Também Tomaz de Figueiredo desfaz na palavra: «Paralelepípedo, palavra má de pronunciar, palavra enrodilhada, já o povo a ia desbotando em “paralelo”… Pois que deixassem o povo! As leis da linguagem, ao menos, era ele quem as sabia: deixassem-no legislar» (Uma Noite na Toca do Lobo. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 75).

Léxico: «empaste»


Artes e ofícios

Alguns dicionários registam o termo. Empaste: «Acto ou efeito de o encadernador aplicar as capas de um livro.» Sendo um termo menos vulgar, não podia deixar de dar nota dele aqui. Em espanhol também existe, e com o mesmo sentido, o termo, um substantivo deverbal, isto é, formado a partir de um verbo: «Encuadernar en pasta los libros.»
Fica também, porque algum leitor poderá precisar, a morada completa da oficina referida na reportagem do Público:

Invicta Livro — Encadernações, Restauros e Dourados, Lda.
Praça da República, 180-r/c
4050-498 Porto
Tel.: 222 004 774 Fax: 222 004 771

Tradução: «legal requirement»

Sem rasto de português…


      Na série Sem Rasto, no canal AXN, um jovem foi detido por suspeita de violação de uma rapariga que depois se suicidou. No interrogatório, afirmou cinicamente (o que o agente especial Jack Malone, da Brigada de Pessoas Desaparecidas do FBI de Nova Iorque, recompensou, enfiando-lhe mais tarde a cabeça numa sanita) que não sabia que o final feliz era um «legal requirement». A tradutora, Susana Bénard, da Dialectus, verteu para «requerimento legal». Já tínhamos visto aqui a tradução de technical requirement. A argumentação é a mesma.

Verbo «rever»

In Ípsilon, 9.1.2009, pp. 26-27

Perda de paradigmas



      Se até um jovem escritor, saramaguianamente galardoado, proferiu o disparate no lançamento de uma obra sua, não podemos estranhar que os jornalistas também o façam. Claro que, no caso, há mais gente envolvida, com excepção do revisor, porque parece que o jornal o não tem. Já vi professores fazer o mesmo. É, parece-me, muito simples: o verbo rever conjuga-se como o verbo ver, que é um verbo irregular da 2.ª conjugação. Ora, o jornalista, Óscar Faria, não diz, ou pelo menos esperamos que não diga, «Paulo Nozolino veu tudo para nos contar», por exemplo. Para que existem os dicionários de verbos?

«Judaico», «hebreu», «israelita»

É só uma maneira de dizer

Em Espanha, teve de ser a Fundéu a lembrar algo muito elementar mas que a generalidade dos jornalistas esquece: «Los términos hebreo, judío e israelita funcionan solo como sinónimos en su sentido histórico (relativo al antiguo pueblo de Israel) y en su sentido religioso (referido a aquellas personas que profesan la religión judía y a todo aquello propio de los judíos). Israelí, sin embargo, designa a aquellas personas que viven en el moderno Estado de Israel (los israelíes pueden profesar cualquier religión, no necesariamente la judía)» («Hebreo no es sinónimo de israelí», 20 Minutos, 14.1.2009, p. 21). Cá, isto são eflúvios que pairam sobre a meseta Ibérica, passa-se o mesmo. Ainda ontem: «A organização norte-americana assinala ainda que o bloqueio israelita à Faixa de Gaza e os rockets disparados pelo Hamas contra o Estado hebreu vieram piorar bastante a situação dos direitos humanos nos chamados territórios palestinianos» («EUA devem recuperar credibilidade perdida», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.1.2009). É isso mesmo: é só uma maneira de dizer… parva.

«Quartada», nova/velha palavra

Eu não estava lá

Só não me perguntem é onde, porque terei lido seguramente mais de 1000 páginas de diversas obras nos últimos seis dias, mas li num autor português a palavra «quartada» no sentido de «álibi». Pois agora mesmo leio isto na obra Uma Noite na Toca do Lobo, romance, já aqui citado, de Tomaz de Figueiredo: «Isso que, por todos os cantos, cozinheiras e sogras diziam alibi (e álibi, aliás), dizia-se quartada antes do romance policial, e o Zé congeminara quartadas de mão-cheia, perfeitas» (p. 144). E confirmo no velho Morais: «Justificação de emprego de tempo ou de localização num momento dado (em que um crime foi praticado, por exemplo).» Para um castelhanófilo, pelo menos em tempo de paz, como eu (ah, não sabiam? Pouco me conhecem…), é muito provável que tenha aprendido primeiro a palavra e o conceito através do espanhol coartada. «Argumento de inculpabilidad de un reo por hallarse en el momento del crimen en otro lugar», regista o DRAE.

Novas palavras em Espanha

Unidos na ignorância


      Clara Hernández, jornalista do 20 minutos, fez o levantamento das palavras que os Espanhóis passaram a usar — ou, por vezes, alguém pretendeu impor — em 2008. A mais cómica será «miembra», que a ministra da Igualdade, Bibiana Aído (uma jovem desempoeirada, a quem chamam, e com razão, pois tem blogue, canal no YouTube, conta no Flickr e perfil no Twitter, a ministra 2.0), afirma que integra, a par do masculino «miembro», qualquer comissão. De Espanha já nos veio, lembrem-se, uma coisa semelhante. Outra palavra, esta um arcaísmo tirado do baú, é «insaculación», que o socialista José Bono usou, pondo os restantes deputados a rir, no Parlamento espanhol. Significa a introdução de votos num saco para depois proceder ao escrutínio. Não se pode sair da mediania.


Formas de tratamento

Desgrava!


      No canal Panda, acabo de ouvir um cão, na série Vipo, anunciar «Sua Alteza, a Rainha de Inglaterra». Elizabeth Alexandra Mary Windsor não iria gostar nada. A forma de tratamento adequada a um rei ou a uma rainha é Sua Majestade (S. M.) e, concretamente no caso do Reino Unido, Sua Majestade Britânica (Her British Majesty). Por sua vez, o título de Sua Alteza (S. A.) é reservado a duques, arquiduques e príncipes. Só desculpo por ter sido um cão, mas pergunto a mim mesmo se daqui a uns anos as crianças que ouviram agora a frase canina não reproduzirão o dislate.

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