Sílabas abertas e sílabas fechadas

Algumas ainda referem

Caro L. C.: poucas são as gramáticas que actualmente falam sobre essa matéria. O brasileiro Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, já aqui recomendada, escreve: «A sílaba composta é aberta (ou livre) se termina em vogal: vi; é fechada (ou travada) em caso contrário, incluindo-se a vogal nasal, porque a nasalidade vale por um travamento de sílaba: ar, lei, ou, mas, um» (p. 85).

Nome das letras, outra vez

Também me parece confusão

Talvez se lembrem desta questão do nome das letras. Mais um contributo, desta vez do escritor João de Araújo Correia: «Diz este amigo que o nome de cada letra deve representar todos os seus valores. Ó matemáticos, acudi-lhe!» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 84).

«Por demais»

Consabidamente

Quem é que me disse uma vez que a expressão «por demais» não era português legítimo? E não se referia, creio, à questão de ser «de mais» ou «demais», sobre a qual um dia aqui deixarei abundantíssimas abonações contra o que os gramáticos prescrevem. Bem, não sei. Sei, isso sim, que a encontrei mais de uma vez em Saramago (convenho: eivado de espanholismos) e noutros autores. Em Tomaz de Figueiredo, por exemplo, topo com ela amiúde, e não me causa engulhos nem me confunde a gramática: «Ninguém da casa perguntava quem era esse Ele, por demais o saber, e a prima D. Maria do Socorro, alheia, mexia nas “vistas”» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 43). Os gramáticos dizem muitos disparates, e eu de vez em quando esqueço-me disso.

Soluções de outras línguas

Nem de propósito

     

      O mimetismo acrítico produz monstros. Em certo jornal, cujo nome agora me esquece, alguns jornalistas escrevem (mas talvez nunca chegue a público), por exemplo, «era-Queiroz». Assim mesmo, com hífen. Relembro-o a propósito de uma frase que acabo de ler: […] was an organization founded in 1997 and similar in scope to the Reagan-era Committee on the Present Danger». É como eu costumo dizer: se tivermos de copiar, que temos, que copiemos então o que são soluções de outras línguas para suprir falhas da nossa língua.

Léxico: «caixola dos ferros»


Tirado a ferros


      Sobretudo os médicos rurais tinham uma mala deste tipo. Esta, de couro inglês, uso-a quando vou parturejar alguma vaca em derredor. Dentro, levo a caixola dos ferros. Estou a brincar. Vejam como escreve Tomaz de Figueiredo, o escritor que uma vez afirmou, no prefácio ao Dicionário Falado, que «tudo as palavras podem dizer»: «Também vestido à trouxe-mouxe (com aquele sobretudo abandado a seda — lembras-te, Francisquinha?) e a caixola dos ferros apanhada também às carreiras, lá arrastara a prima D. Maria do Socorro o Dr. Fortunato a ver o mano Francisquinho, a quem deixara de guarda, sob o travesseiro, o rosário bento pelo Papa que o mano lhe trouxera de Roma…» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 14). Caixola é uma pequena caixa, vocábulo que alguns dicionários dão erradamente como somente usada no Brasil, e os ferros são os instrumentos médico-cirúrgicos. Não confundir caixola com o parónimo cachola, que os médicos deixaram de ter depois que o Governo arrepiou caminho na ideia de lhes impor a exclusividade ao Serviço Nacional de Saúde.

«Hífens» e «ciclámens»

Aqui está



      Ainda se lembrará, caro Fernando Ferreira, dos hífens. Pois aqui está: Tomaz (ou, para os mais comichosos, Tomás) de Figueiredo a escrever — e ninguém me convence que se enganou duas vezes seguidas — ciclámens: «A ver se o Pedro, pela Páscoa, apresentava bons canteiros de tulipas, bons ciclámens… Que ela até lhe prometera um fato se lhe apresentasse boas tulipas, bons ciclámens, para a mesa do dia de Cruz…» (Uma Noite na Toca do Lobo, pp. 25-26). Estará por ciclâmens, estará, mas não saberia o autor, cuidadoso como poucos, o que estava a fazer? Vão-se somando as excepções…

Tradução: «Beltway»

Não é tudo o mesmo
     


      Tem toda a importância, caro L. C.: beltway é uma coisa, Beltway, outra. Contudo, suponho que não quererá saber qual a tradução da primeira, pois qualquer dicionário de inglês-português a regista. Beltway, então. Os dicionários definem-na assim: «The political and social world of Washington, D.C., viewed especially as insular and exclusive “understanding better than Beltway insiders what really interests voters — L. I. Barrett”» (in Merriam-Webster). Traduza por altas esferas e todos, tenho a certeza, compreenderão.


À volta de «stoma»

Já vê porquê


      O leitor Armando Pereira pergunta-me porque não encontra nos dicionários a palavra «ostomizado», uma vez que «é uma dura realidade com que vivem milhares de pessoas». Bem, pode ser por várias razões: porque nem todos os vocábulos estão registados, apesar de usados quotidianamente; porque não consultou todos os dicionários; porque a palavra não é assim que se escreve, etc. Sendo um neologismo, é natural que ainda não esteja registado. Contudo, talvez pese o facto de ser uma palavra mal formada. O correcto seria estomizado, pois todas as palavras portuguesas derivadas do grego stoma têm um e prostético e não um o: estomatite, estomocefalia, estomocéfalo, estomódio, estomogástrico, estomografia… E temos outros neologismos a partir do grego stoma, como «estomoterapeuta» (usado largamente no Brasil, mas também já registado na MorDebe), em que se respeitou a regra. Ao contrário do que aconteceu com o termo «merologia», aqui não houve a sensatez necessária para não copiar o inglês. Nesta língua diz-se ostomy e ostomate.

Arquivo do blogue